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Variação Linguística: conceito, classificação e como ela surge

Data 09/01/2020

Olá! Eu sou a profª. Luana Signorelli e escrevo este artigo para falar sobre Variação Linguística. Para uma pessoa igual a mim, que veio de Brasília, foi no mínimo estranho, para não dizer engraçado, quando cheguei ao estado de São Paulo ouvir expressões como: “é osso, meu”, “cê é loko”.

Isso também já aconteceu com vocês? Vocês conhecem alguma expressão típica de algum lugar? Nesse artigo, vou falar um pouco sobre esse fenômeno e explicar como ele acontece. Primeiramente, isso ocorre, porque essa fala está situada na sociedade.

Variação Linguística: a sociolinguística

Antes de tratarmos sobre Variação Linguística, é preciso que entendamos um pouco sobre o estudo da variedade e variação da linguagem em relação à estrutura social das comunidades: a essa ciência damos o nome de Sociolinguística.

Ela veio da Linguística, a disciplina que estuda cientificamente a linguagem. Logo, podemos resumir da seguinte maneira: o objeto de estudo da Linguística é a língua falada no contexto social, isto é, no seu uso real.

Já o termo Sociolinguística surge em 1964. O seu objeto de estudo é a comunidade linguística e ela estuda um conjunto e pessoas que interagem verbalmente segundo as mesmas regras.

Em linhas gerais, a Sociolinguística é o estudo da língua no seu uso real e não ideal. Uma Gramática, por exemplo, prevê situações ideais para a língua, mas – como sabemos – quando abrimos a boca para falar nem sempre tudo o que sai dali segue padrões gramaticais rígidos.

Variação linguística e variante

A partir da pesquisa do linguista estadunidense William Labov, surge a “sociolinguística variacionista” ou “teoria da variação”. Ela investiga o grau de estabilidade/oscilação de uma variação linguística.

Vamos ver agora qual é a diferença de uma variação linguística para uma variante.

VariaçãoVariante
fenômenoformas diferentes
Eu vou ao banheiro.Eu vou no banheiro.
Nós estamos em casa.A gente está em casa.

Então, agora aprendemos também que tem uma norma padrão ou uma forma padrão de se falar determinada coisa em certa língua, mas isso não necessariamente acontece sempre. Lembrem-se: uma língua não é ideal, ela é uma instituição social passível de mudanças.

Desde a Constituição Federal (1988), o português é a língua oficial e majoritária. Antes, era oficial e nacional. Isso significa um avanço democrático, rumo à inclusão de outras línguas.

No Brasil, hoje a língua oficial é a Língua Portuguesa, mas também existe a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), línguas indígenas – em torno de 180 ainda remanescentes! (FRANCHETTO apud SILVA, 2004, p. 126) –, e línguas de imigrantes, por exemplo, japonês, italiano, entre outras.

As línguas não só mudam, elas são diferentes entre si. Por isso, podemos falar de relativismo linguístico: não existe julgamento de valor.

Princípios da Sociolinguística

São três os princípios da Sociolinguística:

  1. a mudança é inerente à língua. Isso quer dizer que toda língua muda, o que pode ser motivado por fatores linguísticos e extralinguísticos.
  2. um sistema linguístico atende funcionalmente às necessidades de sua comunidade. Logo, não existem línguas piores/melhores, primitivas/modernas – existem línguas diferentes.
  3. a língua não é ingênua, ela está a serviço de uma função ou de alguém.

Preconceito Linguístico

Diante da discussão que tratamos anteriormente, importante combater o preconceito linguístico, a tendência de julgar pejorativamente uma língua ou algum dialeto. Os dialetos são manifestações linguísticas geograficamente pontuais.

Nesse aspecto, destaca-se o professor da Universidade de Brasília, Marcos Bagno, com seu livro exemplar O preconceito linguístico (2018).

A língua é o próprio conjunto das variedades, sendo que a norma padrão é apenas uma das várias manifestações linguísticas. Faraco (2008) faz uma brincadeira: a norma culta é uma norma curta, reducionista, excludente.

  • Norma padrão: Escolhe, por meio de uma atitude social, uma variedade padrão que espelha os textos oficiais, representa o modelo de referência do idioma nacional, é um ideal, apesar de não ser geralmente falada. Segue regras da prescrição gramatical.
  • Norma culta: Norma real, refletindo usos reais da língua, não de qualquer falante, mas sim geralmente de um com grau de escolaridade de nível superior e nascido (não imigrado, sem vernáculo rural) nos centros urbanos. Foi cunhada pelo Projeto da Norma Urbana Oral Culta do Rio de Janeiro (Projeto NURC-RJ) em 1970. O adjetivo “culta” marca o ensino superior.

Registro formal e informal

O registro é o espaço social de comunicação entre um falante e outro. Os registros variam de acordo com os contextos de comunicação: falar à vontade com a nossa família e com os nossos amigos ou mais formalmente com pessoas desconhecidas; escrever um bilhete para o(a) namorado(a) ou se dirigir a um superior, por exemplo.

O registro formal representa a impessoalidade, o uso do padrão culto de linguagem. Também usa elementos como clareza, concisão, formalidade e uniformidade.

Já o registro informal retrata situações linguísticas mais espontâneas e despreocupadas. São contextos íntimos, relaxados. Por fim, consiste numa linguagem coloquial, familiar.

Variação linguística geográfica ou regional

Opa, então agora entenderam!? Voltamos à estaca zero: eu falei de uma mudança geográfica de Brasília para São Paulo. Por isso é que tive estranhamento na linguagem: pois se tratava de uma variação linguística geográfica ou regional.

#FicaADica: eu sempre costumo recomendar decorar todos os nomes de um fenômeno para o vestibular, porque pode ser que seja cobrado um menos comum.

E se eu perguntasse, vestibulandos, de onde vocês vieram? Por exemplo, eu vim de Brasília, e lá nós falamos muito “véi”, que é uma gíria. Para o brasiliense, a tabela abaixo faz total sentido. E para vocês!?

Significados da gíria “véi”

êêêê véiVê se presta atenção!
ôôôô véiPor favor!
véeeeeii!?Como assim!?
Véeeeeeeeeeiii…Você não vai acreditar!
VéiLascou tudo!
iiiiihhhh véiaNão vai dar!
Hummmmm véi!Esqueci!
Ahhhhh véi!Lembrei!
Para véi!Não acredito!
Véi… para!É melhor parar!
Véi do céu!Estamos perdidos!

Variação linguística regional ocorre de acordo com a cultura de uma determinada região. Talvez o primeiro exemplo seria o uso do “r” na sua forma retroflexa: o chamado r-caipira. Outros exemplos são o sufixo –ito para designar diminutivo. E ainda o típico caso da alteração lexical entre jerimum/abóbora/macaxeira/mandioca/aipim.

Como se trata de uma variação linguística geográfica, podemos usar mapas para representá-la. Um mapa é a representação gráfica, em escala reduzida, da superfície total ou parcial da Terra, de uma região, da esfera celeste. No caso, apresentei mapas de variações linguísticas, para que vocês conheçam algumas variantes usadas pelo Brasil afora.

variação linguística
variação linguística

Variação linguística social ou cultural

Variação linguística social ou cultural é aquela pertencente a um grupo específico de pessoas. Nesse caso, podemos destacar as gírias, as quais pertencem a grupos de surfistas, tatuadores. Atenção: essa variação linguística é definida pela comunidade linguística dos falantes, isto é, esses grupos.

Logo, essa variação pressupõe o segmento social de onde vem o falante, considerando-se geralmente as seguintes variedades: falante não escolarizado e falante escolarizado; homem e mulher; idoso e jovem.

Gíria

Linguagem informal com vocabulário rico em expressões metafóricas, jocosas, reduzidas e mais efêmeras que as da língua tradicional.

Jargão

Código linguístico próprio de um grupo sociocultural ou profissional com vocabulário especial, difícil de compreender ou incompreensível para os não iniciados.

Variação linguística histórica

Variação linguística histórica é aquela que sofre transformações ao longo do tempo. Como por exemplo, a palavra “você”, que antes era “vosmecê” e que agora, diante da linguagem reduzida no meio eletrônico, é apenas “vc”.

O mesmo acontece com as palavras escritas com ph, como era o caso de pharmácia, agora, farmácia.

Uma das alterações mais importantes da Reforma Ortográfica de 1911 foi a eliminação de todos os dígrafos de origem grega com substituição por grafemas simples: th (substituído por t), ph (substituído por f), ch (com valor de [k], substituído por c ou qu de acordo com o contexto) e rh (substituído por r ou rr de acordo com o contexto).

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Prof. Luana Signorelli

Prof. Luana Signorelli

Mestra em Literatura e Práticas Sociais pela Universidade de Brasília (UnB) e Doutoranda em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

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