Em 2020, a UNICAMP voltou a oferecer ao aluno a possibilidade de escolher entre elas propostas de redação para desenvolver. Manteve a exigência de que  o texto deveria atender as exigências próprias do gêneros escolhido pela Banca: um  texto de podcast e uma crônica.

Gêneros bem próximos da experiência de uma aluno de ensino médio.  O primeiro poderia ser desenvolvido como uma dissertação escolar; o segundo, valendo-se da experiência de produção de  narrativas, muito exigidas no Ensino Médio. Vamos a elas.

Proposta 1

  • Gênero: Texto escrito para ser lido no momento da gravação do podcast.
  • Interlocução: você é colunista de uma revista eletrônica acessada por ambientalistas; o interlocutor é um público que aprecia matérias sobre “biodiversidade e sobre o caráter multiétnico e multicultural.
  • Situação: (a) relacionar biodiversidade e sociodiversidade , (b)tratar da importância da preservação do patrimônio cultural e ambiental para o crescimento sustentável do Brasil e (c) ter caráter argumentativo.  
  • Tipologia textual: o tipo de texto que serve de base para essa escrita é a dissertação.

A identificação desses pressupostos para escrita do texto se completavam  com  a coletânea que definia quais eram os biomas que poderiam ser discutidos: o cerrado ou a Amazônia.

Embora uma dos textos da coletânea  e enumerasse 5 (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa), além da Zona Costeira e Marinha, havia informações sobre somente as duas mencionadas.

Se o candidato escrevesse sobre outro bioma, baseando-se em repertório próprio, arriscava-se a perder pontuação por não observar  a orientação de que deveria levar em conta “os excertos  apresentados.

As orientações eram muito precisas e já determinavam o percurso argumentativo da produção textual. Caberia ao candidato, escolher as informações mais relevantes, traduzi-las numa linguagem  própria e organizá-las de forma autoral, dentro da  tese já indicada.  A coletânea fornecia várias informações que poderiam ser combinadas de maneira diferentes.

Coletânea

O primeiro fragmento  já vinculava  biodiversidade e sociodivesidade. Destacava que o Brasil “é um dos poucos países que reúnem as principais características para ter um sistema de acesso ao patrimônio genético e aos conhecimentos tradicionais a ele associados”. 

O autor do texto apresentava números interessantes: entre 200 mil a 1 milhão  e oitocentas mil espécies; 305 etnias indígenas, além de  quilombolas, caiçaras, seringueiros etc).

O texto seguinte introduzia um recorte mais preciso ao tematizar o cerrado. Tratava-se de uma poesia em defesa desse bioma.  O milagre  do cerrado está ameaçado pelo correntão que devastas as plantações nativas para dar lugar a monocultura da soja.

Se o primeiro texto fazia o vínculo entre ambiente e população local e o segundo expunha a ameaça que paira sobre o cerrado, o terceiro aprofunda a discussão sobre a importância do cerrado.

Ele garante 9 dos 11 sistemas hídricos e  faz parte da regulação climática da região centro-sul.  O agronegócio está ameaçando o cerrado. Trata-se do bioma mais ameaçado do Brasil. O impacto de desmatamento é maior do que na Amazônia.

O fragmento 4 dá destaque à Amazônia e à  importância dos índios para a preservação do ambiente. Nesse caso, observa-se uma ameaça dupla, aos protetores da floresta e à própria floresta.

Características do gênero que deveria ser produzido

A própria Banca dava um dica do que o candidato deveria produzir “texto para ouvir”. Mas que tipo de texto? Deveria ser argumentativo como se lia nas instruções. Os podscasts são, normalmente, textos instrutivos explicativos.

O gênero, nesse caso, se identifica com a dissertação expositiva. O problema passa a ser como configurar essa situação  de interlocução logo no começo do texto. 

Isso poderia ser resolvido logo na introdução. O parágrafo inicial tem a função de apresentar os circunstâncias que levaram o escritor ou o locutor a escolher esse tema  e qual será a tese.

Nesse caso, bastaria mencionar logo no período introdutório  que “o podcast que se inicia tem como tema a biodiversidade e sua relação com a sociodiversidade.

Tese e percurso argumentativo (possível)

A tese em essência foi dada pela Banca. Você deveria defender a ideia de que a preservação ambiental a partir da preservação cultural das etnias que vivem no espaço é fundamental para crescimento sustentável do Brasil.

Óbvio que isso poderia ser escrito de outras formas, você só não poderia  negar essa tese,  nem desconsiderar alguma parte dela, pois isso foi exigido nas instruções. De certa forma, essa tese, densa em informações, já determina o percurso argumentativo.

Você deveria partir da tese, escolher um bioma, mostrar sua importância e chegar à conclusão parcial de que ele precisa ser preservado. A partir daí, você poderia passar para a diversidade étnica e cultural que permite tanto a proteção quanto a exploração sustentável  e até rentável do bioma, na medida, em que os nativos conhecem melhor as potencialidades naturais da flora e fauna.

Contudo, o percurso não se esgotava aí. Segundo as instruções, você deveria também defender a preservação das culturas nativas como forma de preservação e de crescimento sustentável.

Poderia haver variações em relação à ordem que essas partes da redação poderiam aparecer no seu texto, mas não havia escapatória, você deveria abordar cada um desse itens.

Argumentos possíveis (extraídos da coletânea)

Importância da preservação ambiental

  • O patrimônio genético contribuem para o desenvolvimento de  novos produtos.
  • Segurança hídrica e  climática
  • Preservação de espécies (entre 200 mil e 1 milhão e oitocentas mil)
  • Preservação dos biomas para as próximas gerações

Importância das comunidades étnicas

  • Os nativos conhecem  as plantas e têm um conhecimento empírico do bioma, se a cultura deles não for preservada, esse conhecimento que poderia redundar em patentes valiosas também pode ser perder.
  • Os índios tem percepção antecipada das mudanças ambientais, são parte essencial  dos alertas rápidos e da prevenção.
  • A destruição das matas é mais lenta onde vivem os indígenas

Perigo

  • ONU alertou  sobre a velocidade com que as espécies estão se extinguindo
  • O cerrado caminha para a maior extinção de plantas já registrado no mundo

Repertório

Havia um sério risco de  que seu texto não tivesse marca autoral. Lógico que a organização das informações e estrutura linguística deveriam  fazer a diferença.  Mas a inclusão de repertório ajudaria a ampliar os temas assinalados.   Há várias possibilidades. A título de exemplificação, considerarei um

História/conhecimentos gerais:  o colapso da ilha da Páscoa, provavelmente, foi provocado pelos habitantes que devastaram a ilha.

Geografia: cerrado é um bioma em que se percebe a adaptação de várias espécies; a  modificação da soja permitiu adaptá-la ao tipo de solo do centro-oeste, ameaçando o cerrado.

Antropologia: não existe povos “primitivos”; os povos respondem de forma mais adequada ao meio, isso significa que o índios tem uma sabedoria própria para a sobrevivência no tipo de bioma em que eles vivem. Se essa cultura desaparecer uma técnica de sobrevivência também desaparecerá.

Biologia: a substituição de biodiversidade é contraproducente e contrário à lógica da natureza e da evolução; a sobrevivência depende de variedade; a monocultura empobrece as opções de desenvolvimento biológico.

Proposta 2

  • Gênero: Crônica a ser publicada em uma revista semanal.
  • Interlocução:  A interlocução nesse caso é bastante complexa. Você deve escrever numa revista tradicional, cujos leitores já esperam um gênero que tem características bastante precisas e estáveis, ou seja, a interlocução se dá pelo desenvolvimento apropriado do gênero. Isso requer que o escritor tenha consciência  das regras da crônica, apreendidas pela leitura (interlocução) com outros textos. Nesse caso, a Banca providenciou um outro texto que deveria servir como exemplo. Ou seja, o escritor é também leitor e deve  mostrar que seguiu a estrutura da crônica sugerida.
  • Situação:  você leu um artigo no El Pais sobre micromachismo e percebeu que em algum momento da vida também já foi machista nas pequenas coisas do cotidiano. Resolve fazer uma crônica sobre isso. Deve revelar uma ação feita no passado que revele esse lado, agora, negado. Além de narrar o que aconteceu, deve também registrar suas reflexões.  O mote deve ser  tirado de uma lista de  12 “pequenos pecados” machistas  que integra a coletânea.
  • Tipologia textual : O tipo de texto que serve de base para essa escrita é a narração.

O Texto modelo

A banca ofereceu ao candidato uma crônica como modelo.  Não havia título,  era composta de uma parágrafo único  e manifestava a estrutura solicitada pela Banca, havia uma pequena narrativa e um comentário reflexivo.

A  autora, Chimamanda,  conta um episódio de sua infância, quando não pode ser monitora de sua turma por não ser homem. A partir daí ela consegue coerentemente  passar desse caso particular para situações atuais, como a escolha de quem vai ocupar a chefia das empresas.

Para operar essa aproximação, ela se vale do conceito de “normalidade” como a aceitação do que parece óbvio mas não é.  Note, que esse modelo é bastante funcional. Contar algo do passado, mostrar como se sentiu (exigência da banca), explicitar a mudança de percepção e encontrar um elemento comum  que permita relacionar a reflexão sobre algo da atualidade ao evento passado.

Encaminhamento possível e estrutura narrativa

A crônica tem como ponto de partida um pequena “causo” do cotidiano.  A primeira coisa a se fazer é escolher um narrador. 

Narrador

Deve ser um narrador  em primeira pessoa. Só isso ainda não definiu o narrador. Ele deve ter sexo, idade e profissão. Não que isso precise aparecer diretamente no texto. Mas para ser convincente, é importante que o escritor adote com toda a força e veracidade os traços de um indivíduo que ele deve ter claro para si mesmo.

Vamos considerar a primeira situação: “achei necessário explicar algo a uma mulher sem que ela me pedisse, pelo simples fato de ser mulher”.

Você pode se imaginar como um homem. Nesse caso, a história seria uma se você fosse um adolescente explicando a matéria para uma colega de turma, mas seria outra se fosse um homem casado fazendo isso com sua mulher.

Poderia também ser uma mulher e nesse caso,  a brincadeira ficaria bem interessante, pois ela contaria  o que um  homem teria feito e como ela percebeu que isso teria ocorrido por questão de gênero. 

Há uma outra possibilidade bem criativa. Você é um narrador em primeira pessoa testemunha, ou seja, você conta o que aconteceu  ao personagem principal. Suponha que você seja um homem que pegou carona com uma amiga de trabalho.

O guarda de trânsito abordou a motorista e, incialmente,  dirige a você dizendo qual o infração cometida, e depois se dirige a ela explicando muito mais minuciosamente a regra  violada.

Começo da narrativa

A melhor forma de começa um texto narrativo e, veja, Chimamanda começa assim, é delimitando tempo e espaço.  Novamente esses elementos podem ser bastante significativos no seu texto, principalmente no caso do machismo.

Tal prática social tem intensidade variável dependendo da região do país ou da cidade. Nas periferias, o machismo é mais enraizado do que nos bairros mais cosmopolitas.  A escolha do lugar pode servir como mote para tornar o conflito mais interessante.

Suponha que você, um gerente de banco, tenha sido transferido para uma cidade do interior. Lá você percebe que é prática comum dos seus colegas de trabalho explicar para as mulheres as modalidades de aplicação financeira  de forma bastante infantil. Aos poucos, você passa a se comportar da mesma forma. Que tipo de reflexões isso pode gerar?

De qualquer  forma, lembra do tempo e do espaço para começar a narrativa sempre é uma boa opção principalmente quando nos deparamos com a pergunta angustiante: como começar o texto.

Desenvolvimento do conflito

Um bom texto narrativo deve despertar o interesse do leitor. A Banca ofereceu motes curtos que continham em si o germe de uma história. Por exemplo, se você considerou o primeiro mote, a primeira pergunta que vem a cabeça é: quem é essa mulher? O que aconteceu para que você tivesse que explicar algo?  Com ela reagiu à sua explicação? Quando você percebeu que essa sua postura era machista?

Quanto mais detalhes você der desses elementos mais envolvente será seu texto.

Reflexão

Há pelos menos duas formas, entre outras, de passar da narrativa para a reflexão: uma passagem da situação do passado para o presente;  a narrativa de algum fato que deva ter levado o escritor a  rever sua posição.

No texto de Chimamanda, a autora passa da narrativa para a reflexão a partir de três frases curtas : “Nunca me esqueci desse episódio. Se repetimos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal.” Esse trecho faz a transição.

A outra possibilidade consiste em narrar um outro episódio que possibilitou a tomada de consciência e a  lembrança do fato.  Por exemplo, era possível dizer incluir a referência ao EL País. Você poderia afirmar que o fato nunca tinha  realmente lhe incomodado até que você leu o artigo do jornal. 

Aliás, essa estrutura permitiria, inclusive começar de outra maneira. Você poderia relatar a leitura do texto e passar para a lembrança do episódio e depois fazer as reflexões cabíveis.

Quanto à reflexão em si, não é possível comentar aqui, porque ela depende em larga medida da história que você narrou.  É preciso muito cuidado nesse ponto, para manter a coerência. Além disso, a reflexão, segundo a banca, deve vir permeada  das sensações que a tomada de consciência causou em você.

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