Última atualizaçao em: 05 de Novembro de 2020, ás 20:44

Sempre que algum professor de redação tenta convencê-lo da importância óbvia da sua disciplina, ele o faz apelando para o domínio da língua e para a necessidade da escrita na nossa sociedade. Nisso ele está coberto de razão, mas a redação FUVEST, na verdade, vai além.

A universidade é cartesiana. Isso significa que o tipo de discurso que circula se vale dos pressupostos de René Descartes (1596-1650), filósofo que lançou as bases do método científico. Bom, o pensador era também matemático, então você já viu…

Ele postulou que a verdade poderia ser alcançada e, para isso, bastaria recolher evidências, reuni-las pelo pensamento linear, obedecer às regras de dedução e o resultado seria a coação de outras mentes. O bordão do rapaz era: “aquilo que for pensado de forma clara e distinta será verdadeiro.”

Qual é a dificuldade nisso? Ora, como diz Whitaker Penteado1 , pensar em linha reta desafia tanto o indivíduo quanto tentar vestir uma criança irrequieta. Nossa mente está cheia de ideias, opiniões, imagens, conceitos, pressentimentos, sensações, preconceitos, esperanças, temores etc.

Tudo isso junto, misturado e ignorado. A capacidade de pôr ordem nesse quarto mental desorganizado é posta à prova quando somos chamados a manifestar alguma opinião. Essa é a função do tema central.

A FUVEST seleciona um tema sobre o qual é possível manifestar alguma opinião (discordância, apoio, mediação). Diante dele, você deve construir uma afirmação (tese) e isso dará um sentido às ideias. Como diz o renomado professor Whitaker Penteado:

Selecionado o tema central, seu desenvolvimento vai disciplinando as ideias, organizando-as em uma sequência de operações intelectuais – como se as colocássemos em uma linha de montagem e, na medida de sua movimentação, fossem submetidas a sucessivas operações mecânicas (p.224).

A primeira proposta de redação da FUVEST de 1990 propunha uma atividade interessante. Observe.

Redação FUVEST (1990)

“– Não é preciso zangar-se. Todos nós temos as nossas opiniões.

– Sem dúvida. Mas é tolice querer uma pessoa ter opinião sobre assunto que desconhece. (…) Que diabo! Eu nunca andei discutindo gramática. Mas as coisas da minha fazenda julgo que devo saber. E era bom que não me viessem dar lições. Vocês me fazem perder a paciência.”

Você tem opinião sobre as afirmações acima? Se tem, defenda sua opinião. Se não, explique por quê.

Comentário: Essa primeira proposta de redação da FUVEST não tinha o formato que foi adquirindo conforme os anos. Ela é curta, praticamente não possui texto de apoio e a proposta é explícita.

Do ponto de vista do exercício da escrita, ela é sensacional, pois lida com o próprio conceito do que é fazer uma dissertação. Afinal, a alma desse gênero é justamente a defesa de um posicionamento.

Observe que a Banca escolheu um diálogo no qual alguém afirmava a tolice de se ter opinião sobre tudo. A seguir, a instrução deixava claro que você deveria concordar ou discordar da afirmação.

Veja, concordando ou discordando, você manifestaria uma opinião e deveria argumentar a favor do seu ponto de vista. Ou seja, o simples fato de negar algum assunto que está sendo discutido, ou até mesmo a indiferença sobre tal assunto – se tiver que ser sustentada -, irá redundar na produção de um texto dissertativo.

Encaminhamentos possíveis

Essa proposta engana. À primeira vista, é simples demais. Pois é… o que é muito simples em Redação acaba se tornando complicado. Como torná-lo interessante para o leitor? As teses possíveis parecem ser apenas duas:

É tolice ter opinião sobre tudo

Não é tolice, antes o indivíduo deve ter opinião sobre tudo

Tais teses parecem óbvias demais. A argumentação do senso comum seguiria o modelo da exemplificação repetitiva que beira o pueril. Para ir mais longe, você deveria se perguntar o que é opinião e qual o processo que nos leva a ter um juízo.

A opinião é inerente ao ser humano, pois ela reflete a forma do próprio pensar, e essa é uma coisa que você não pode parar de fazer. O processo do pensamento inclui perceber, discriminar e avaliar o que ocorre ao nosso redor a partir dos critérios de utilidade, prazer, ameaça.

Não há como ficar indiferente a qualquer fenômeno do qual você tome contato. No mínimo, sua opinião seria “isso não é importante para mim”, mas mesmo essa ideia já seria uma opinião.

Sendo assim, não se pode falar em “tolice” de ter uma opinião, mas pode-se falar em tolice em manifestar uma opinião. Quem expressa publicamente um ponto de vista sabe que terá que sustentá-lo e, portanto, deve manifestar conhecimento sobre o assunto. Caso contrário, poderá ser visto como uma pessoa estúpida.

Além disso, as pessoas que acreditam estarem certas, muitas vezes, transformam suas hipóteses em verdades dogmáticas (absolutas que dispensam provas).

Veja que agora, as possibilidades de tese ficaram mais interessantes:

Opinião todos têm, mas devem manifestar apenas quando possuem conhecimento e argumentos para sustentá-la.

É tolice ter opiniões dogmáticas sobre as coisas, pois equivaleria dizer que temos conhecimento absoluto sobre o tema, o que é improvável.

Embora não devamos manifestar as nossas opiniões publicamente a não ser quando temos certeza, é importante que criemos o hábito de refletir sobre a realidade e de ter um posicionamento sobre ela.

Ceticismo
O termo denomina uma corrente filosófica que se popularizou com Pirro de Elis (360-275 a.C.). O filósofo acreditava que a certeza em relação ao conhecimento era impossível ou até mesmo prejudicial. Consequentemente, propunha um método prático para se livrar das certezas. Diante de uma afirmação qualquer, o cético contrapunha uma argumentação contrária com igual força, obrigando-se a suspender o juízo. Tal procedimento tinha duas finalidades: fazer o indivíduo abandonar a angústia de querer saber “a verdade”; e impedir a cristalização de opiniões em dogmas.

Redação FUVEST: apreensão do tema

Observem o trecho abaixo.

O homem se apaixona muitas vezes durante a vida. Numa época, como a nossa, em que a expectativa média do brasileiro é viver 65 anos, isso é significativo.

Qual será o tema do texto? Observe que, no primeiro período, o autor parece se referir à paixão. O leitor, portanto, espera que o texto tematize o amor. A introdução de outro tema, o da “expectativa de vida média” do brasileiro, altera a ideia inicial. Qual será o desenvolvimento? Há várias possibilidades:

No primeiro exemplo, a tese é a de que a maior expectativa de vida torna a separação mais comum; dentre esses 3 temas o da separação organiza os outros. No segundo, o tema do desafio do amor, ou seja, o desafio de se manter fiel em nome desse sentimento organiza os temas.

No terceiro, chama-se a atenção para as mudanças do mundo moderno como o aumento da expectativa de vida que desafia até o amor; agora os temas se organizam em torno do “mundo moderno”. Observe que, nos três esquemas, há três núcleos temáticos.

Para se definir o principal, será preciso perceber o desenvolvimento do texto e qual o sentido que será dado pela próxima ideia. Exemplificando, observe o que aconteceria se a segunda frase fosse outra: Observe que, nos três esquemas, há três núcleos temáticos.

Para se definir o principal, será preciso perceber o desenvolvimento do texto e qual o sentido que será dado pela próxima ideia. Exemplificando esse movimento do texto, observe o que aconteceria se a segunda frase fosse outra:

O homem se apaixona muitas vezes durante a vida. As paixões são muitas e das mais variadas, vão além da relação homem-mulher.

Agora o tema é outro.

Isso significa que um texto é um emaranhado de temas, mas se tiver estrutura textual, haverá um percurso coerente que indicará um dos temas como preponderante e organizador dos outros. O exercício do vestibulando é perceber esse encadeamento e depreender a unidade na diversidade de assuntos.

Eu vou ter que interpretar um texto para chegar ao tema da Redação Fuvest?

Normalmente, a FUVEST deixa muito claro qual é o tema da redação no próprio comentário. De 2000 até 2018, houve duas propostas que exigiam um pouco mais do candidato porque o tema dado era figurativo.

Em 2005, o candidato foi convidado a pensar na “catracalização da vida”, uma metáfora para os controles sociais; em 2013, o vestibulando deveria interpretar a propaganda de um cartão de crédito.

Ou seja, a questão da apreensão do tema não é tão problemática, a questão mais complexa seria perceber com o que o tema dialoga e qual o recorte muitas vezes solicitado.

Texto e Contexto

Observem a propaganda.

primeiro tema de redação fuvest aplicado em 1990
(Disponível em https://www.propagandashistoricas.com.br/2014/04/yamaha-rd-50- primeira-moto-brasileira.html, consultado em 12.03.2019)

Aparentemente, essa propaganda parece bastante simples. Mas, algumas palavras utilizadas no corpo do texto têm sentidos mais profundos quando se observa a época em que foi feito. O cartaz é de 1975, dois anos após a crise do petróleo.

Os países exportadores aumentaram o preço do combustível comprometendo o “milagre brasileiro – termo que se refere ao período de 1969 a 1973, no qual o Brasil cresceu em média 10% ao ano.

Após a crise, a inflação acelerou, houve arrocho salarial e o ufanismo brasileiro ficou comprometido. Nos anos precedentes, o governo militar promovera slogans como “Ninguém segura esse país”. A impressão que se tinha era a de que, finalmente, o país faria parte do seleto grupo de nações desenvolvidas.

A primeira frase “lançada a primeira moto brasileira” fazia referência ao fato de a empresa nipônica ser a primeira a produzir uma moto em solo pátrio. Mas veja, seria mais exato dizer “lançada a primeira moto fabricada no Brasil”. Ao fazer questão de utilizar o adjetivo “brasileira”, a propaganda dialogava com o ufanismo ferido dos brasileiros.

A mesma lógica presidiu a construção da segunda frase, “a Yamaha mais moderna do mundo”. Transmite-se a ideia de rendição de um país desenvolvido ao potencial nacional, já que a empresa resolveu montar a moto “mais moderna” aqui, no Brasil.

Isso sem falar no apelo da palavra “moderna”, termo atrativo para um povo que perseguia a modernização desde o começo do século XX.

Ao mesmo tempo, a peça publicitária não deixa de considerar a grave situação econômica do país. Embaixo das letras em amarelo “RD 50”, é possível ler as seguintes palavras: “poupança em duas rodas”. Tratava-se de um grande apelo para uma população que empobrecia.

Todo texto incorpora as ideias de uma dada época devido às práticas e às circunstâncias que envolveram a produção do texto.

Então, vou ter que conhecer um pouco da cultura no momento da produção do texto?

Perfeito.

Isso é importantíssimo para Literatura, que lida com textos do passado. No caso de Redação, as propostas são atuais. Como esse cuidado pode ser aplicado na leitura das propostas? Temos a ilusão de que conhecemos a atualidade.

Afinal, não tem jeito de não sabermos de alguns fatos que ocorrem à nossa volta, eles estão nos monitores do metrô, nos feeds do Face, nas bancas de jornais. Contudo, a FUVEST elabora propostas que exigem a análise das prováveis ligações que articulam esses fenômenos.

Ou seja, você precisa estar atento à relação entre proposta e circunstâncias globais em que vivemos. Essa noção é dada, normalmente, pelo pensamento sociológico ou filosófico.

Por exemplo, as duas propostas referidas acima, a da catracalização e a do cartão de crédito, seriam melhor desenvolvidas por candidatos que já tivessem tido contato com alguma análise sobre o consumismo ou sobre o controle do Estado. A apreensão da proposta de redação exige conhecimento cultural do presente.

Subentendidos na Redação da FUVEST

O que são subentendidos? Quais os subentendidos fundamentais na redação FUVEST?

Segundo Platão & Fiorin, subentendidos textuais “são insinuações, não marcadas linguisticamente, contidas numa frase ou num conjunto de frases.” Há vários níveis de subentendidos em uma ação comunicativa. O que nos interessa nesta seção é o direcionamento mais amplo que anima a FUVEST.

Observe a imagem abaixo, parte de uma proposta de redação já cobrado em vestibular.

Percebe-se de imediato que a mensagem literal não traduz a intenção do emissor. Dizemos para alguém sorrir ao tirar uma foto ou ao ser filmado, pois queremos a melhor imagem da pessoa, afinal, gostamos dela. Não é esse o caso.

Educadamente, o emissor da mensagem quer ameaçar o destinatário: “lembre-se de que se você estiver fazendo algo errado, você será filmado e sofrerá as penalidades cabíveis”. A ameaça não está linguisticamente registrada no cartaz, pelo contrário, o comunicado é extremamente cortês.

Contudo, há outros subentendidos que só poderiam ser discutidos a partir de um certo direcionamento da Banca. Então vamos à coletânea dessa proposta.

Proposta de Redação da Fuvest

TEXTO I

redação fuvest tema de redação

As imagens são confidenciais e protegidas nos termos da lei. Na porta de um shopping center.

TEXTO II

É obrigatória a identificação. (Placa industrializada, colocada em portarias de prédios residenciais, repartições públicas etc.)

TEXTO III

O homem está, cada vez mais, e mais rápido também, pondo a técnica a seu serviço. Hoje, principalmente nos centros urbanos, o que mais atormenta o cidadão é o perigo dos assaltos e da violência com que são praticados. E estão cada vez mais sofisticados os sistemas de segurança, com suas câmeras de filmagem, minúsculas às vezes, posicionadas em lugares bastante discretos. Há aparelhos que são dotados de aprimorado zoom, o conjunto de lentes cujo alcance focal pode ser ajustado até permitir ao operador a leitura do que está escrito num papel na mão de uma pessoa a muitos metros de distância. Tudo para tornar nossa vida mais segura e feliz.

J. Freitas

TEXTO IV

Que saudades do tempo em que eu era livre!

Comentários

Os textos II e III apontam para a função utilitária da mensagem ao corroborar práticas de vigilância que devem tornar “nossa vida mais segura e feliz”. Na verdade, é assim que lemos o cartaz e ele nos parece extremamente amigável.

O texto IV introduz uma outra leitura a partir de um subentendido filosófico: a vigilância pressupõe um padrão de comportamento único, algo que contraria a liberdade do indivíduo.

Esse implícito escapa a uma leitura comum. Toda vez que apresento essa proposta a um aluno, a pergunta dele é: qual o problema em ser filmado? Na prática social, talvez isso seja necessário; do ponto de vista da reflexão filosófica, a vigilância fere o preceito de liberdade como valor absoluto e amplo que determinou toda a cultura ocidental.

Aliás, não é à toa que escolhi esse tema, pois ele toca nos pressupostos básicos da Redação FUVEST. Lembre-se destes três pilares da Banca

redação fuvest pilares da banca fuvest

Liberalismo

Como o próprio nome já diz, Liberalismo é uma doutrina filosófica fundadora da sociedade moderna, embasada em ideias de liberdade e igualdade. A igualdade liberal não é econômica, mas jurídico-social. Postula-se a universalidade dos direitos.

Garantir isso na prática tem sido a grande luta dos humanistas. Sendo assim, qualquer prática social que ameace os princípios liberais passa a ser objeto de temas da Banca, por mais que tais práticas se justifiquem de forma utilitária.

A máxima do liberalismo foi expressa por Immanuel Kant (e não é à toa que o texto fundador dele foi tema da redação FUVEST em 2017).

Para o alemão, o sujeito liberal é aquele que pensa por conta própria e se comporta de forma autônoma, ou seja, ele age da melhor forma possível (porque é racional), sem ser coagido por qualquer força exterior – Estado, religião, cultura de massa.

O indivíduo pode ser religioso, obedecer ao Estado ou gostar de novelas, mas age dessa forma tendo consciência do que faz e sendo sujeito de sua escolha.

(A filmagem como vigilância é uma espécie de força exterior que coage o indivíduo, tirandolhe a possibilidade de escolha)

Leia os temas da FUVEST levando em consideração esse implícito; veja como o tema proposto, em alguma medida, dialoga com ideal do liberalismo.

Valores democráticos

O Liberalismo político redundou na criação da Democracia moderna. Esse sistema de governo é frágil como a história já demonstrou. Em momentos em que as sociedades se sentiram ameaçadas, houve uma guinada totalitária.

O primeiro valor da Democracia é a própria Democracia, isso significa que é preciso defender o sistema e estar atento às ameaças a ele. O segundo valor da democracia se relaciona ao seu funcionamento. Ela não se apoia na pessoalidade, mas na lei reconhecida por todos.

Ou seja, há respeito pelo Estado baseado no direito aprovado pelos legisladores. Todos são iguais perante a lei. O terceiro valor se associa à liberdade de expressão. Como não há grupo ou indivíduo melhor que o outro perante a lei, todos têm o direito de dizer o que pensam. Disso decorre a necessidade de tolerância.

Várias propostas de redação têm como viés as ameaças à Democracia.

Ceticismo

A liberdade de expressão se junta a uma característica própria do pensamento científicofilosófico: a independência do pensamento. A universidade é cética no sentido de ser o lugar da dúvida, que deve cessar parcialmente quando a teoria ou a tese for assentida pela maioria.

Mas, mesmo quando uma ideia é acolhida, ainda assim haverá espaço para a dúvida, contanto que o inquiridor tenha argumentos para tanto. Por exemplo, acabei de afirmar que os valores democráticos são admirados pela Banca.

Contudo, é possível fazer uma redação com uma tese de que a democracia é prejudicial, bastaria ter argumento para isso.

Argumentos contra os pressupostos iluministas (Liberalismo, Democracia, Ceticismo e Diretos Humanos) são possíveis, mas lembre-se de que devem ter força argumentativa redobrada.

Abraços,

Prof. Fernando Andrade

Instagram: @filosofia.do.portuga

CURSOS PARA FUVEST

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