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Fatos sobre o Governo de Prudente de Morais (1894-1898)

Data 16/12/2019

Categorias Dicas de Estudo | História

Apesar de vitorioso nas urnas, o governo do paulista Prudente de Morais já se mostraria difícil no momento da posse. Ao chegar no Rio de Janeiro, não havia sequer um carro para conduzi-lo até o Palácio do Catete, nova sede do governo federal.

Floriano se negou a transmitir o cargo ao sucessor, deixando o palácio presidencial aberto, sujo e sem funcionários. Para piorar, a Constituição permitia que fossem eleitos presidente e vice de chapas diferentes, o que acabou acontecendo na eleição de 1894.

Junto com Prudente de Morais, assumia como vice o florianista Manuel Vitorino.

A situação do país não ia nada bem. Na economia, ainda se amargavam os impactos do encilhamento, agravados pelos custos do governo federal para conter as revoltas do período de Floriano Peixoto. Na política, militares florianistas e o seu próprio vice conspiravam pelo fracasso do governo, que acaba sendo interrompido devido ao adoecimento do presidente.

A capital viveu dias de angústia a partir da posse de Manuel Vitorino, que substitui Prudente de Morais após o seu afastamento. Neste período, uma guerra começa a ser travada entre o poder central e os habitantes de Canudos, um distante arraial formado no sertão baiano, mas que passou a ser conhecido por todo o país, a partir do conflito.

Prudente de Morais (1894-1898)

A Guerra de Canudos

As revoltas que eclodiram durante a República da Espada (1889-1894) podem ser consideradas conflitos travados entre elites, fossem eles entre militares e civis, entre governo central e grupos marginalizados, ou mesmo entre facções regionais.

E embora o povo chegasse a se posicionar diante desses confrontos, sua participação era restringida pelos interesses das lideranças egressas das altas camadas da sociedade.

A partir do governo Prudente de Morais, muitos movimentos foram organizados pelas camadas populares da sociedade, muitas vezes sem a participação das elites. O primeiro deles foi Canudos, que veremos a seguir.

Movimentos populares

Na segunda metade do século XIX, ainda durante o Segundo Reinado, a figura de Antônio Mendes Maciel – conhecido como Antônio Conselheiro – ganhou notoriedade no sertão da Bahia pela sua resistência ao sistema métrico decimal nas relações comerciais.

Como você deve se lembrar, na década de 1870, a tentativa do governo monárquico de padronizar o sistema de pesos e medidas gerou fortes reações populares em diversas províncias do nordeste, chamadas de Quebra-Quilos.

Instaurado o regime republicano, Conselheiro foi crítico ferrenho da separação entre Igreja e Estado, do sistema de coleta de impostos e das mudanças da moeda.

Aos poucos, foi se consolidando como uma liderança messiânica, ou seja, uma figura carismática e de pregação religiosa, capaz de atrair multidões de seguidores.

Segundo ele, Deus o havia enviado para amenizar as penúrias sofridas pelos sertanejos pobres, e para pôr fim à laicidade promovida pela República.

Em 1896, Antônio Conselheiro e seus seguidores se fixaram na fazenda Canudos, situada às margens do rio Vaza-Barris, no sertão baiano. Ali organizaram Belo Monte, um pequeno arraial formado por casas simples de pau a pique, uma igreja e uma prisão.

Embora miserável, Belo Monte se tornou uma alternativa à exploração sofrida pelos sertanejos por poderosos locais, conhecidos como “coronéis”, e Conselheiro um conhecido nome entre aqueles que buscavam conforto espiritual.

Caravanas de pessoas se dirigiram para o povoado, que chegou a abrigar 25 mil pessoas! Canudos passou a ser vista como uma ameaça pelas elites políticas locais e pela Igreja, e o governo federal foi acionado para lidar com o problema.

Em 1896, o então presidente Manuel Vitorino enviou para Canudos uma expedição militar para render seus habitantes e destruir o arraial. Um conflito foi travado entre sertanejos e militares, com baixas para ambos os lados.

Belo Monte, no entanto, resistiu, e as tropas federais bateram em retirada. Em janeiro de 1897, uma nova expedição foi organizada, dessa vez reunindo oficiais federais e da força estadual. Apesar da superioridade bélica, os militares foram novamente vencidos pelos conselheiristas.

Uma terceira expedição ocorreu março de 1897, dessa vez liderada por Moreira César, nome associado ao florianismo, devido a ter sido o comandante que promoveu a rendição dos últimos rebeldes da Revolução Federalista.

O desgaste do governo

A essa altura, os confrontos em Canudos eram acompanhados pelos jornais da capital federal, que tacharam Conselheiro e seus seguidores de monarquistas e fanáticos. Jornalistas – muitos deles florianistas e apoiadores de Vitorino – passaram a ver na continuidade do arraial um risco à própria República e à ideia de civilização.

Após nova derrota, a imagem do governo federal se desgastava na opinião pública. Os florianistas faziam grande barulho na imprensa, acumulavam cargos na gestão de Vitorino e confrontavam monarquistas pelas ruas, tidos como responsáveis por Canudos.

Temendo perder sua influência na República, os cafeicultores pressionaram pelo retorno de Prudente de Morais à presidência, o que acaba acontecendo em março de 1897.

A quarta expedição para Canudos foi organizada – e novamente derrotada – após a volta do presidente, o que serviu como pretexto para que ele fosse amplamente criticado pelos florianistas. Finalmente, ao final de 1897, Prudente de Morais concedeu amplos poderes ao marechal Carlos Bittencourt, que partiu para Canudos com pesado armamento e munição recolhida por todo o país.

Segundo Euclides da Cunha, enviado para o local como correspondente jornalístico, muitos militares traziam ao peito medalhinhas de bronze com a imagem de Floriano Peixoto. Isso deixava clara a ideia de que somente a destruição de Canudos poderia salvar a República.

Após dias de combate, Antônio Conselheiro foi morto, mas a violência do conflito estava longe de terminar. Em apenas três dias, plantações foram destruídas, casas queimadas com seus habitantes dentro, cadáveres deixados para apodrecer pelas ruas do arraial. A guerra de Canudos acabava, com o saldo final de 20 mil mortos.

Canudos, por Euclides da Cunha

Enviado como correspondente do Estado de São Paulo para realizar a cobertura da guerra de Canudos, o jornalista Euclides da Cunha se deparou com uma parte do Brasil desconhecida pelos habitantes do Rio de Janeiro.

Era o choque de dois brasis: o do litoral, portador de um projeto republicano e orientado pela ideia de civilização. O outro era o do sertão, onde predominavam o misticismo, a miséria e a mestiçagem.

Diante da violência empregada para a destruição de Canudos, Euclides questiona se a população do litoral era tão civilizada quanto acreditava ser. Em seu discurso, as elites diziam salvar a República e a unidade do território, mas excluíam parcelas da população de sua ideia de Brasil.

Mas os habitantes dos sertões, apesar de esquecidos pelo “Brasil oficial” e castigados pela seca e miséria, sobreviviam, resistindo bravamente a todas as expedições enviadas pela capital federal. Em suas próprias palavras: “o sertanejo é, antes de tudo, um forte.”

prudente de morais

Prudente de Morais – a vitória de Canudos

Com o término do conflito, Euclides retornou para o Rio de Janeiro, onde em 1902 publicou a Os sertões, com suas impressões científicas, geográficas e humanas sobre o que encontrou em Canudos. A obra foi o primeiro livro-reportagem publicado no Brasil, sendo também um dos marcos da literatura pré-modernista.

Após a vitória em Canudos, as tropas federais foram recebidas por Prudente de Morais e grande comitiva no Rio de Janeiro. Em meio às comemorações, ouviu-se do meio da multidão vivas à Floriano Peixoto e Manuel Vitorino.

Era Marcelino Bispo de Mello, florianista do 10º Batalhão do Exército; rapidamente, o praça sacou uma pistola e apertou o gatilho várias vezes, falhando em todas elas.

O presidente aproveitou para se esquivar da arma com a cartola, enquanto o atacante retirava um punhal para desferir-lhe um golpe. Acabou por ferir mortalmente o marechal Bittencourt, líder da campanha em Canudos, que se coloca a frente de Prudente de Morais.

Após o atentado, o presidente decretou estado de sítio, se aproveitando para fechar organizações florianistas. Os adversários já não iam bem da pernas, pois o último presidente da República da Espada já havia falecido em junho de 1895, o que fez com que o florianismo perdesse sua razão de existir.

Prudente de Morais passou a ter grande popularidade a partir do trágico episódio, e governou sem grandes contratempos até o final de seu mandato, em novembro de 1898.

Para muitos historiadores, seu governo representou o início da República Oligárquica, período no qual o poder permaneceu concentrado nas mãos de um restrito grupo de mandatários, boa parte deles pertencentes à elite cafeeira do país.

Outros estudiosos tendem a considerar o final do seu mandato como o final do período de consolidação da República, que como vimos, esteve sob constante disputa por vários grupos políticos a partir de 1889.

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Prof. Marco Túlio

Prof. Marco Túlio

Graduado em História pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas) e em Ciências do Estado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente sou mestrando em História pela UFMG.

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