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Prova Unicamp 2020 – Português – Resolução Comentada

Data 19/11/2019

Categorias Estratégia Resolve

Olá, pessoal… Tudo bem? Sou a profª. Luana Signorelli, do Estratégia Vestibulares, e com a ajuda dos professores Fernando Andrade e Celina GIl, escrevo este artigo para comentar e resolver as questões da prova da UNICAMP 2020 e indicar o Gabarito da disciplina de Português.

A Comvest divulgou nesta terça o gabarito oficial da prova. E, entre questões de português, pelo menos uma pode ter o gabarito anulado ou trocado. Nesta página, você vai conferir todas as questões resolvidas e comentadas. Você pode, inclusive, baixar os nossos comentários sobre a prova em um PDF gratuito.

Prova UNICAMP 2020

Questão 57

 “O que é então o verossímil? Para encurtar: tudo aquilo em que a confiança é presumida. Por exemplo, os juízes nem sempre são independentes, os médicos nem sempre capazes, os oradores nem sempre sinceros. Mas presumese que o sejam; e, se alguém afirmar o contrário, cabe-lhe o ônus da prova. Sem esse tipo de presunção, a vida seria impossível; e é a própria vida que rejeita o ceticismo.”

(Olivier Reboul, Introdução à retórica. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 97-98.)

Considerando o segundo “Sermão da Quarta-feira de Cinza” (1673), de Antonio Vieira, é correto afirmar que a presunção de confiança por parte do auditório cristão do século XVII decorre da

a) habilidade política do pregador.

b) atenção disciplinada dos ouvintes.

c) crença na salvação e na danação eternas.

d) defesa institucional da Igreja Católica feita pelo clero

Resolução Comentada

  • A alternativa A está incorreta, pois o que garante a confiabilidade da informação de não é a habilidade política de Vieira. Se fosse sobre o pregador, seria sobre sua habilidade oratória.
  • A alternativa B está incorreta, pois Vieira prega para pessoas nem sempre atentas.  Inclusive, o estilo de pregação de Vieira é justamente pensado para prender a atenção das pessoas.
  • A alternativa C está correta, pois está já escrito no enunciado que o auditório é “cristão”, ou seja, ele crê nos dogmas religiosos do paraíso (salvação) e inferno (danação), ambos ligados à ideia de que a alma é eterna e, após a morte do corpo, ela será julgada. Nos sermões, Vieira frequentemente aponta para o medo que os homens têm da morte, sugerindo que as ações em vida também são realizadas pensando na perspectiva da morte. Sem a crença da vida após a morte, para Vieira, os homens não têm razão de existir.
  • A alternativa D está incorreta, pois Vieira não é porta-voz do clero. Suas pregações, inclusive, frequentemente apontam comportamentos condenáveis de pessoas da Igreja.

Gabarito: C

Questão 58 – passível de anulação

Ao descrever a rotina do protagonista Raimundo Silva, o narrador da História do Cerco de Lisboa afirma que só restaram fragmentos dos sonhos noturnos, “imagens insensatas aonde a luz não chega, indevassáveis até para os narradores, que as pessoas mal informadas acreditam terem todos os direitos e disporem de todas as chaves.”

(José Saramago, História do Cerco de Lisboa. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p.122.)

Com base nesse excerto e relacionando-o ao conjunto do romance, é correto afirmar que o narrador é

a) polifônico, pois, ao considerar todos os pontos de vista das personagens, relativiza a visão de mundo e respeita a privacidade delas.

b) observador, pois dissimula sua avaliação política da realidade ao se mostrar empático ao mundo das personagens.

c) protagonista, pois, ao fazer parte da própria narrativa, assemelha-se às demais personagens e não pode duvidar dos protocolos necessários para contar a história de Portugal.

d) onisciente, pois simula ser tolerante com a pluralidade de vozes narrativas, mas é a singularidade de seu modo de narrar que produz a coesão e a autonomia da narração.

Resolução Comentada

Alternativa “A”: correta – gabarito. Sobre a estrutura do romance A História do cerco de Lisboa, vamos resgatar o nosso PDF:

RELATO DENTRO DE UM RELATO

Este romance de Saramago enreda várias histórias em conjunto. As principais são a do cerco de Lisboa, episódio constitutivo da história de Portugal e a história mundana de Raimundo Benvindo Silva, e sua história de amor se entrelaça com a de Mogueime e Ouroana, os quais acabam por se tornar avatares de Raimundo e sua namorada Sara Maria.

No meio disso tudo, há a história dos milagres de Santo Antônio, há paródias bíblicas entro outros. Logo, há constantemente troca de narradores. #DicadaProfa: utilizem um lápis para grifar essa troca de narradores para não se perderem, ou ao menos tentem identificar onde ocorrem essas mudanças.

Pelo fato de trabalhar com a ideia de mais de um narrador, podemos considerar a sua estrutura como sendo polifônica, isto é, possuindo mais de uma voz.

A visão de mundo é constantemente relativizada, sobretudo por meio de explicações filosóficas a partir de pensadores como Isaac Newton (3ª lei: toda ação tem uma reação); a contingência do mundo de Leibiniz e a prova cosmológica de Kant como explicações do universo.

Viver é quase impossível, dado que tudo está numa tal contradança que seria muito improvável que os fatos acontecessem.

E ainda a folha em branco é comparada ao que o filósofo Locke em sua obra Sobre o entendimento humano chamava de: “tábua rasa, para falar com plena propriedade de linguagem” (SARAMAGO, 2013, p. 122).

Quanto ao narrador respeitar a privacidade das personagens, ele nem o seria capaz, uma vez que a ideia do todo/do conjunto não é dada nem à personagem nem ao narrador, já que tudo pode ser relativizado.

Isso também pode ser constatado a partir do trecho: “imagens insensatas aonde a luz não chega, indevassáveis até para os narradores, que as pessoas mal informadas acreditam terem todos os direitos e disporem de todas as chaves.” (grifo meu). Dessa forma, qualquer noção de totalidade seria uma ilusão.

Alternativa “b”: incorreta. Ele não dissimula avaliação política (não toma partido de D. Afonso Henriques, por exemplo, pelo contrário, fala que o rei não tinha dom da eloquência, sendo ofuscado por vozes mais fortes na época, como a de Mogueime) nem comenta sobre a política da modernidade no outro relato. Por outro lado, nem sempre se mostra empático com as personagens, mas sim, constantemente irônico.

Alternativa “c”: incorreta. Há mais de um narrador no romance e não podemos afirmar que ele seja narrador protagonista, pois, por exemplo, Raimundo vivia na modernidade (de uma época desconhecida, na realidade, pois não é exatamente especificada no romance; apenas sabemos que se trata da era moderna por alusões a invenções como telefone, carro, marca texto, cartão de crédito etc.) e não em 1.147 (data do cerco, quando se passa o outro relato).

Alternativa “D” (gabarito apresentado pela Unicamp) está incorreta porque o narrador não é onisciente, pois não sabe de tudo, há fatos que, mesmo para ele, são indevassáveis, isto é, inacessíveis, inalteráveis. E a pluralidade de narradores é que cria a consequente pluralidade de vozes.

Gabarito: A

Questão 59

As palavras organizadas comunicam sempre alguma coisa, que nos toca porque obedece a certa ordem. Quando recebemos o impacto de uma produção literária, oral ou escrita, ele é devido à fusão inextricável da mensagem com a sua organização. Em palavras usuais: o conteúdo de uma obra literária só atua por causa da forma.

(Adaptado de Antonio Candido, “O direito à literatura”, em Vários escritos. São Paulo: Ouro sobre azul e Duas Cidades, 2004, p.178.)

A obra Sobrevivendo no inferno do grupo Racionais Mc’s é composta pelas canções e pelo projeto editorial da capa e contracapa do CD. Nesse projeto editorial, encontram-se elementos visuais e verbais que estabelecem um jogo de formas e sentidos. Com base na afirmação de Antonio Candido, é correto afirmar que a organização desses elementos

a) produz uma simetria entre som e sentido, sendo que tal simetria indica que os símbolos religiosos são uma resposta à violência.

b) configura um sistema de oposições, uma vez que imagens e palavras estabelecem tensões materiais e espirituais, constitutivas do sentido das canções.

c) configura uma sintaxe poética de ordem espiritual. Essa sintaxe espelha o caos e as injustiças vividos na periferia das grandes cidades.

d) produz uma lógica poética racional. Essa lógica se explicita na vitória do crime sobre a visão de mundo presente nos versículos bíblicos transcritos.

Resolução Comentada

Alternativa “a”: incorreta. Não existe simetria ao menos nas músicas – há maiores e outras menores. Por exemplo, a faixa 6 tem apenas 30 segundos, ao passo que “Diário de um detento” tem 7 minutos e 31 segundos. Essa simetria se verifica apenas nos elementos visuais, no caso, a capa e a contracapa, uma vez que tanto a arma quanto a cruz seriam formas de proteção.

Alternativa “b”: correta – gabarito. Atenção: é preciso levar em consideração os dois textos, uma vez que a questão cobra literatura comparada. No meu PDF desta aula, a palavra “contraposição” apareceu 9 vezes, o que indica esse elemento como constitutivo das canções do álbum, permeando várias delas.

  • As tensões materiais estão presentes, por exemplo, em “Diário de um detento”: “Minha vida não tem tanto valor/Quanto seu celular, seu computador”.
  • As tensões espirituais estão presentes, por exemplo, em “Capítulo 4, versículo 3”: Talvez eu seja um sádico, ou um anjo /Um mágico, o juiz ou o réu /Um bandido do céu, malandro ou otário /Padre sanguinário, franco atirador se for necessário” (grifo meu).

Em todo o caso, o trecho crítico de Antonio Candido defende que o conteúdo e a forma dialogam de forma indissociável (o que quer dizer inextricável).

Alternativa “c”: incorreta. Cuidado: esta alternativa pode muito parecer correta, mas há alguns detalhes que me levou a invalidá-la. Primeiramente, o adjunto adnominal: “de ordem espiritual”. A sintaxe (linguagem) do álbum é poética no sentido lírico (letras de músicas escritas em verso) e no sentido de poiésis (ποίησις). Os gregos utilizavam a palavra poiesis com o significado inicial de criação, ação, confecção, fabricação e, posteriormente, arte da poesia e faculdade poética. Logo, poética no sentido de lírico e de produção. Desse modo, a forma do álbum não imita o caos, porque o álbum é extremamente organizado, estruturado.

O álbum tem uma linguagem própria. Por exemplo, na faixa “Gênesis”, “O homem me deu a favela, o crack, a trairagem, /As arma, as bebida, as puta” não há concordância de número, mas isso não quer dizer que a linguagem está incorreta, pois eles criam uma linguagem própria, ressignificando-a.

Ressignificação é uma palavra-chave: é isso o que marca o álbum do início ao fim, bem como as imagens. A arma na mão, mas atrás do corpo, nas costas, e na contracapa (nas costas do álbum) indica que as aparências enganam. E é isso o que ocorre com a religião também: ela é ressignificada. O álbum assume forma de culto religioso, mas não essa religião não significa doutrina, ortodoxia, mas sim mais uma forma de proteção.

Alternativa “d”: incorreta. Não é racional, mas sim subjetiva. Racional no sentido de que motiva os sujeitos a pensarem na sua condição, mas subjetiva no sentido de que significa o épico do sujeito periférico em busca da sua identidade e da sua autoafirmação. O crime não vence, mas sim a consciência.

Gabarito: B

Questão 60

No conto “O espelho”, de Machado de Assis, o esboço de uma nova teoria sobre a dupla natureza da alma humana é apresentado por Jacobina. A personagem narra a situação em que se viu sozinha na casa da tia Marcolina. “As horas batiam de século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula, tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior como um piparote contínuo da eternidade.” Considerando os indicadores da passagem do tempo na citação, é correto afirmar que

a) o movimento oscilante do pêndulo do relógio expressa a duplicidade da alma interior.

b) o som do velho relógio da sala materializa acusticamente a longevidade da alma interior.

c) a sonoridade repetitiva do pêndulo intensifica as aflições da alma interior.

d) o contínuo batimento das horas sugere o vigor da alma interior.

Resolução Comentada

  • A alternativa A está incorreta, pois quando diz que o “tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior”, o narrador indica que a solidão da casa lhe fazia mal. Além disso, neste momento, ele encontrava-se privado de sua alma exterior, pois não havia ninguém lá para vê-lo.
  • A alternativa B está incorreta, pois não há relação entre o som e a alma interior. O som agrava a solidão da personagem.
  • A alternativa C está correta, pois Jacobina, no momento descrito, encontra-se completamente sozinho. A casa está tão silenciosa que ele é capaz de escutar as batidas do relógio e isso materializa ainda mais sua solidão, intensificando o sofrimento de sua alma interior. Lembre-se que, sem ter ninguém para vê-lo como alferes, ele encontrava-se privado de sua alma exterior.
  • A alternativa D está incorreta, pois sua alma interior encontrava-se aflita nesse momento, pois estava completamente sozinho.

Gabarito: C

Questão 61

“Para inaugurar é preciso ter um defunto. Mas, por desgraça, nenhum turista se afoga, nenhuma calamidade se abate sobre a cidade e os moribundos têm o desplante de ressuscitarem. Na ordem estabelecida por Odorico, o bem vira mal e o mal, bem.”

(Anatol Rosenfeld, “A obra de Dias Gomes”, em Teatro de Dias Gomes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972, p. xxvii.)

A comicidade de O Bem-amado, de Dias Gomes, deriva em grande medida da inversão de valores que a peça encena. Considerando os propósitos satíricos da obra, assinale a alternativa que evidencia tal inversão.

a) A destinação de recursos para a construção de um cemitério público confere dignidade aos mortos.

b) A hospitalidade dada aos doentes ilustra o uso do orçamento em prol do sistema público de saúde.

c) A promoção do pistoleiro a delegado de polícia visa à reinserção social do criminoso.

d) A inauguração do cemitério dá oportunidade a que se reverencie a memória do benfeitor da cidade.

Resolução Comentada

  • A alternativa A está incorreta, pois a possibilidade de enterrar seus mortos próximos a si e sem dificuldades – basta lembrar da cena de abertura em que o cadáver fica exposto entre as pessoas – de fato traz dignidade aos mortos, ainda que para construir o cemitério Odorico tenha desviado dinheiro de outras áreas de sua administração.
  • A alternativa B está incorreta, pois a hospitalidade descrita não de estende a todos os doentes, mas sim ao primo das irmãs Cajazeiras; hospitalidade essa oferecida unicamente por crer que ele estivesse à beira da morte.
  • A alternativa C está incorreta, pois Zeca Diabo não é contratado para que faça cumprir a lei e seja reinserido na sociedade, mas sim para que desobedeça a lei matando alguém e se mantenha como assassino.
  • A alternativa D está correta, pois de fato, Odorico é tratado como um benfeitor mesmo que tenha sido corrupto em vida. Ele só passa a ser visto dessa maneira por ele após sua morte, sendo entendido como um grande benfeitor.

Gabarito: D

Questão 62

No livro A cabra vadia: novas confissões, Nelson Rodrigues inicia a crônica “Os dois namorados” com a seguinte afirmação: “há coisas que um grã-fino só confessa num terreno baldio, à luz de archotes, e na presença apenas de uma cabra vadia.”

Na crônica “Terreno baldio” ele recorre ao mesmo animal para explicar a ideia que teve de criar “entrevistas imaginárias”:

“Não podia ser um gabinete, nem uma sala. Lembrei-me, então, do terreno baldio. Eu e o entrevistado e, no máximo, uma cabra vadia. Além do valor plástico da figura, a cabra não trai. Realmente, nunca se viu uma cabra sair por aí fazendo inconfidências.”

(Nelson Rodrigues, A cabra vadia: novas confissões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016, p. 52 e160.)

O caráter confessional associado à figura da cabra nas crônicas tem relação com

a) a veracidade dos depoimentos que o cronista testemunha nas entrevistas.

b) a impostura dos contemporâneos que são objeto dos comentários do cronista.

c) a antipatia do jornalista no que diz respeito à busca de identidade dos artistas entrevistados.

d) a sinceridade dos intelectuais que são objeto das crônicas dos jornalistas.

Resolução Comentada

Alternativa “a”: incorreta. Não tem veracidade, mas são casos mirabolantes que partem da própria cabeça de Nelson Rodrigues. O ambiente é idealizado por ele e a ocasião é o pretexto perfeito para fazer passar por uma sabatina alguns de seus desafetos. Por exemplo, padres de passeata, termo cunhado principalmente para criticar Dom Hélder pelo seu envolvimento com a esquerda, diz respeito a padres que tiram proveito, por exemplo, da fome do Nordeste e do contexto político para se autoafirmarem. Que traem 2.000 de Igreja em prol da ideologia política da época.

Alternativa “b”: correta – gabarito. Cuidado: “impostura” significa artifício que consiste em se apresentar com identidade, títulos ou personalidade que não são os seus próprios, com o propósito de enganar (HOUAIS, versão digital). Impostura no caso de disfarce, de engano, de pretexto. As confissões, que servem como subtítulo do livro de crônicas, é um subterfúgio utilizado pelo próprio Nelson Rodrigues para expor suas opiniões conservadoras.

Alternativa “c”: incorreta. O jornalista pode, sim, ser subjetivo (um dos aspectos defendidos por Nelson Rodrigues até na escolha da sua forma – crônica – que mescla subjetivo com objetivo), mas antipatia não seria um sentimento que iria caracterizá-lo. A identidade das personalidades entrevistadas (não só artistas, mas também escritores, jornalistas, padres) é exposta no livro, todos os nomes são dados às claras, daí o subtítulo da confissão.

Alternativa “d”: incorreta. A sinceridade ou insinceridade dos intelectuais não vem ao caso, mas sim o título “cabra vadia” diz respeito a um posicionamento do próprio autor (Nelson Rodrigues) no caso, para poder se eximir de possíveis culpas e acusações quando ele iria proferir suas opiniões conservadoras, tradicionalistas, no contexto de plena Ditadura Militar (governo Médici).

Gabarito: B

Questão 63

O poema abaixo vem impresso na orelha do livro Psia, de Arnaldo Antunes.

Na orelha do livro, Antunes apresenta ao leitor seu processo de criação poética. É correto dizer que o autor se propõe a

a) revelar a primazia da comunicação oral sobre a escrita das palavras.

b) discutir a flexão de gênero, que torna a palavra “psia” um substantivo.

c) defender a conversão das palavras em coisas, mudando seu estatuto.

d) explorar o poder de representação da interjeição exclamativa “psiu!”.

Resolução Comentada

  • Alternativa “a” está incorreta. O poeta afirma que “Eu berro as palavras/ no microfone/ da mesma maneira com que as desenho…”, ou seja, não há primazia da comunicação oral.
  • Alternativa “b” está incorreta. Ele não discute, não argumenta a favor do gênero feminino de Psiu, ele simplesmente afirma que “Psia” é feminino de “psiu!”
  • Alternativa “c” está correta. No poema, ele afirma  isso,  ele diz que berra  para transformar  as palavras “em coisas,/ em vez de substituírem/ as coisas”,  e ele mostra como fazer isso, ao desmembrar “Psia” em “piscina” e “pia”.
  • Alternativa “d” está incorreta. Ele discute a palavra “Psia” e não “psiu!”; ao falar na interjeição, ele a contrapõe para definir melhor “Psia”.

Gabarito: C

Questão 64

Texto I

Os idiomas e suas regras são coisas vivas, que vão se modificando de maneira dinâmica, de acordo com o momento em que a sociedade vive. Um exemplo disso é a adoção do termo “maratonar”, quando os telespectadores podem assistir a vários ou a todos os episódios de uma série de uma só vez. Contudo, ao que parece, a plataforma Netflix não quer mais estar associada à “maratona” de séries. A maior razão seria a tendência atual que as gigantes da tecnologia têm seguido para evitar o consumo excessivo e melhorar a saúde dos usuários.

(Adaptado de Claudio Yuge, “Você notou? Netflix parece estar evitando o termo ‘maratonar’.”

Disponível em https://www.tecmundo.com.br/ internet/133690-voce-notou-net flix-pareceevitando-termo-maratonar.htm. Acessado em 01/06/2019.)

Embora os dois textos tratem do termo “maratonar” a partir de perspectivas distintas, é possível afirmar que o Texto II retoma aspectos apresentados no Texto I porque

a) esclarece o significado do neologismo “maratonar” como esforço físico exaustivo, derivado de “maratona”.

b) deprecia a definição de “maratona” como ação contínua de superação de dificuldades e melhoria da saúde.

c) reflete sobre o impacto que a falta de exercícios físicos e a permanência em casa provocam na saúde.

d) menospreza o uso do termo “maratonar” relacionado a um estilo de vida sedentário, antagônico a maratona.

Resolução Comentada

  • Alternativa “a” está incorreta. Somente o texto II define o termo maratonar como “esforço físico”; no texto I, o termo é definido como “assistir a vários ou a todos os episódios de uma série de uma só vez.”
  • Alternativa “b” está incorreta.  Essa ideia de “ação contínua de superação de dificuldades” não consta de nenhum dos textos.
  • Alternativa “c” está incorreta. No texto II, a personagem não se refere à saúde.
  • Alternativa “d” está correta. Tanto as empresas de tecnologia estão evitando o termo com intenção de “evitar o consumo excessivo e melhorar a saúde” (referência implícita a sedentarismo) quanto a fala da personagem transmite a mesma ideia de sedentarismo ao falar em “ficar o dia todo no sofá”.

Gabarito: D

Leia o texto a seguir e responda às questões 65 e 66.

O telejornalismo é um dos principais produtos televisivos. Sejam as notícias boas ou ruins, ele precisa garantir uma experiência esteticamente agradável para o espectador. Em suma, ser um “infotenimento”, para atrair prestígio, anunciante e rentabilidade. Porém, a atmosfera pesada do início do ano baixou nos telejornais: Brumadinho, jovens atletas mortos no incêndio do CT do Flamengo, notícias diárias de feminicídios, de valentões armados matando em brigas de trânsito e supermercados. Conjunções adversativas e adjuntos adverbiais já não dão mais conta de neutralizar o tsunami de tragédias e violência, e de amenizar as más notícias para garantir o “infotenimento”. No jornal, é apresentada matéria sobre uma mulher brutalmente espancada, internada com diversas fraturas no rosto. Em frente ao hospital, uma repórter fala: “mas a boa notícia é que ela saiu da UTI e não precisará mais de cirurgia reparadora na face…”. Agora, repórteres repetem a expressão “a boa notícia é que…”, buscando alguma brecha de esperança no “outro lado” das más notícias.

(Adaptado de Wilson R. V. Ferreira, Globo adota “a boa notícia é que…” para tentar se salvar do baixo astral nacional. Disponível em https://cinegnose. Blogs pot.com/2019/02/globo-adotaboa-noticia-e-que-para.html. Acessado em 01/03 /2019.)

Questão 65

Considerando a matéria apresentada no jornal, o uso da conjunção adversativa seguido da expressão “a boa notícia é que” permite ao jornalista

a) apontar a gravidade da notícia e compensá-la.

b) expor a neutralidade da notícia e reforçá-la.

c) minimizar a relevância da notícia e acentuá-la.

d) revelar a importância da notícia e enfatizá-la.

Resolução Comentada

  • Alternativa “a” está correta.  O texto deixa claro que no ano corrente, as informações eram bastante graves, o “mas” não nega isso, ou seja, reconhece a gravidade, mas ao noticiar algo bom (o fato de que a vítima saiu da UTI) o efeito é de relativização e compensação do caráter negativo da notícia anterior.
  • Alternativa “b” está incorreta.  Neutralidade se relaciona à objetividade, traço próprio do jornalismo; uma conjunção adversativa não teria impacto de tornar mais neutra a notícia.
  • Alternativa “c” está incorreta.  A frase dessa alternativa é incoerente: se há minimização da notícia não ocorre a acentuação dela.
  • Alternativa “d” está incorreta. O “mas” é um conectivo adversativo, não tem o poder de enfatizar uma ideia.

Gabarito: A

Questão 66

Para se referir a matérias jornalísticas televisivas que informam e, ao mesmo tempo, entretêm os espectadores, o autor cria um neologismo por meio de

a) derivação prefixal.

b) composição por justaposição.

c) composição por aglutinação.

d) derivação imprópria.

Resolução Comentada

Deve-se considerar como neologismo a palavra “infotenimento”.

  • Alternativa “a” está incorreta. “Info” como abreviação de informação não é prefixo registrado em português.
  • Alternativa “b” está incorreta. Na justaposição, não há perda de elementos, se separarmos a palavra em “info” e “tenimento”, as duas sozinhas não têm sentido.
  • Alternativa “c” está correta. No processo de aglutinação, há perda de partes das palavras originais, se “info” é uma abreviação, “tenimento” remete a “entretenimento”, houve perda.
  • Alternativa “d” está incorreta. “Derivação imprópria” refere-se ao processo em que uma palavra muda de classe gramatical, não é o caso de “infotenimento”. 

Gabarito: C

Questão 67

Texto II

O que levou Marta, seis vezes a melhor do mundo, a enfrentar a Austrália de chuteiras pretas? Adianto, não foi o futebol “raiz”. Marta não fechou patrocínio com nenhuma das gigantes do mercado esportivo. Não recebeu nenhuma proposta à altura do seu futebol. Isso diz muito sobre o machismo no esporte. A partir disso, a atleta decidiu calçar a luta pela diversidade.

(Fonte: https://www.hypeness.com.br/2019/06/chuteira-sem-logo-e-com-simbolo-de-igualdade

-de-genero-foi-mais-um-golaco-de-marta/. Acessado em 18/06/2019.)

Considerando o tweet e o texto acima, é correto afirmar que a atleta

a) enfrentou o time adversário com chuteiras pretas, mesmo que não tenha sido influenciada pelo futebol “raiz”.

b) usou chuteiras sem logotipo e luta pela igualdade de gênero no esporte, mesmo sendo considerada seis vezes a melhor do mundo.

c) não recebeu patrocínio de nenhuma grande empresa, embora a chuteira preta sem logotipo simbolize o futebol “raiz”.

d) optou por lutar contra o machismo no esporte, embora as propostas de patrocínio não tenham considerado seu valor.

Resolução Comentada

  • Alternativa “a” está incorreta. Essa alternativa até faz sentido, ela não foi realmente influenciada pelo futebol de “raiz”, ela usa chuteira preta pela defesa da causa de gênero; mas, nessa alternativa, não se faz referência ao tweet, algo exigido pelo enunciado.
  • Alternativa “b” está correta. Nessa alternativa, faz-se referência à “luta pela igualdade de gênero”, algo que está no tweet; e a oura informação, “mesmo sendo considerada seis vezes a melhor do mundo” não contraia o texto fonte.
  • Alternativa “c” está incorreta. Essa alternativa não fez referência à informação que estava no tweet.
  • Alternativa “d” está incorreta. É verdade que ela “optou por lutar contra o machismo no esporte”, mas a segunda parte, “as propostas de patrocínio não tenham considerado o seu valor”, não faz sentido se introduzida pelo conectivo “embora”; esse conectivo supõe uma contradição semântica que não existe entre esses dois termos.

Gabarito: B

Questão 68

– Pela milionésima vez, por favor, “se amostrar” não existe.

Não pega bem usar uma expressão incorreta como essa.

– Ora veja, incorreto para mim é o que não faz sentido, “se amostrar” faz sentido para boa parte do país.

– Por que você não usa um sinônimo mais simples da palavra? Que tal “exibido”? Todo mundo conhece.

– Não dá, porque quem se exibe é exibido, quem se amostra é amostrado. Por exemplo: quando os vendedores de shopping olham com desprezo para os meninos dos rolezinhos e moram no mesmo bairro deles, são exibidos.

Eles acham que a roupa de vendedor faz deles seres superiores. Por outro lado, as meninas e os meninos dos rolezinhos vão para os shoppings para se amostrar uns para outros, e são, portanto, amostrados. Percebeu a sutileza da diferença?

– Entendo, mas está errado.

– Como é que está errado se você entende? Você não aceita a inventividade linguística do povo. “Amostrar” é verbo torto no manual das conjugações e “amostrado” é particípio de amostra grátis! Captou?

(Adaptado de Cidinha da Silva, Absurdada. Disponível em http://notarodape. blogspot. com/

search/label/Cotidiano. Acessado em 22/05/2019.)

Considerando que a comparação entre modos de falar pode ser fonte de preconceito, o exemplo citado por uma das personagens da crônica

a) reforça o preconceito em relação às turmas de jovens de um mesmo bairro, com base nos significados de “amostrado” e “exibido”.

b) explicita o preconceito, valendo-se de “amostrado” e “exibido” para distinguir dois grupos de jovens do mesmo bairro.

c) dissimula o preconceito e reconhece que “se amostrar” é, de fato, um verbo que não está de acordo com as normas gramaticais.

d) refuta o preconceito e confirma o desconhecimento da regra de formação do particípio passado do verbo “se amostrar”.

Resolução Comentada

Primeiramente, era importante reconhecer qual era a parte mais importante no texto. Trata-se do trecho em que se fala do shopping, no quarto parágrafo.

  • Alternativa “a” está incorreta.  A frase “reforça o preconceito” dá a ideia de que o personagem aceita o preconceito  e é preconceituoso;  ele, na verdade, crítica ou expõe o  preconceito.
  • Alternativa “b” está correta. O personagem assinala que o vendedor se acha superior aos outros pela sua roupa; a palavra “exibido”, nesse contexto, é uma condenação moral  de alguém que está sendo preconceituoso. Ele explicita o preconceito ao fazer esse raciocínio.
  • Alternativa “c” está incorreta. O personagem que fala do preconceito não o esconde (dissimula).
  • Alternativa “d” está incorreta. “Refutar” significa negar o argumento contrário. O personagem que defende o padrão culto da língua entende o argumento do seu interlocutor, o que se percebe na frase “entendo”.

Gabarito: B

Questão 69

Texto I

Leia os versos iniciais da peça Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come (1966), de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar. Em formato de cordel, os versos são cantados por todos os atores.

Se corres, bicho te pega, amô.
Se ficas, ele te come.
Ai, que bicho será esse, amô?
Que tem braço e pé de homem?
Com a mão direita ele rouba, amô,
e com a esquerda ele entrega;
janeiro te dá trabalho, amô,
dezembro te desemprega;
de dia ele grita “avante”, amô,
de noite ele diz: “não vá”:
Será esse bicho um homem, amô,
ou muitos homens será?

(Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar, Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, p. 3.)

Texto II

Observe a charge de Laerte que fez parte da mostra Maio na Paulista, em 2019.

Considerando a relação entre os textos I e II, conclui-se que a charge

a) resgata a temática do cordel, rompendo com o impasse vivido pelos personagens.

b) reafirma o dilema dos personagens da peça, parafraseando os versos iniciais do cordel.

c) evidencia a tradição popular nordestina, utilizando a imagem para sofisticar os versos.

d) confirma a força transformadora da versificação popular, reproduzindo-a em imagens.

Resolução Comentada

  • Alternativa “a” está correta. No cordel, os personagens  discutem o impasse do ditado “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, aplicando-o   aos empregadores  nos versos “janeiro te dá trabalho, amô,/ dezembro te desemprega;”; na charge  o dilema se resolve quando os trabalhadores se  reúnem e fazem o “bicho” correr.
  • Alternativa “b” está incorreta. Há reafirmação da temática do cordel na charge, mas a alternativa desconsidera a resolução do embate na charge.
  • Alternativa “c” está incorreta. A charge não foi feita para ilustrar o cordel.
  • Alternativa “d” está incorreta.  A versificação popular é uma forma de transmitir uma ideia; a ideia transforma, a forma encanta, logo não é a força transformadora do verso que leva a reprodução da imagem.

Gabarito: A

Questão 81

Que dizer das personagens? Creio que têm a força e ao mesmo tempo a fraqueza da caricatura. Mas, pensando melhor, não poderemos também alegar em defesa do romancista que a caricatura é uma tendência reconhecida e aceita da arte moderna, principalmente da pintura? Não haverá muito de deformação na obra de grandes pintores como Portinari, Di Cavalcante e Segall – todos eles inconformados com a sociedade em que vivem?

(Adaptado de Erico Verissimo, Prefácio, em Caminhos Cruzados. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 20-21.)

A ideia de deformação aplicase ao quadro de Tarsila e ao romance Caminhos cruzados, de Érico Veríssimo, porque tal procedimento artístico acentua

a) a crítica do modernismo à violência da escravidão e às desigualdades sociais, presentes no quadro e nas personagens do romance, respectivamente.

b) o imaginário da burguesia nacional, pois tanto as protagonistas do romance quanto a imagem da mulher negra retratam os traços característicos das reformas sociais do Estado Novo.

c) os princípios estéticos do movimento modernista, pois as duas expressões artísticas apresentam-se como reflexo dos valores da elite cafeeira paulista.

d) a moral implícita da modernidade, pois o narrador do livro e a representação do corpo negro criticam o comportamento social das personagens femininas no século XX.

Resolução Comentada

Esta resposta foi elaborada pelo professor Wagner. Além disso, trata-se de questão interdisciplinar com Artes Plásticas.

O item A está correto, pois duas das marcas mais importantes do modernismo brasileiro, tanto na arte plástica quanto na literatura, é, sem dúvida, a crítica à escravidão, representada pela obra de Tarsila, pela construção da imagem do negro, no Brasil; e a crítica às desigualdades, em especial na segunda geração, em que se pode colocar a obra Caminhos cruzados, de Verissimo.

O item B está incorreto, pois o papel da mulher, na obra de Verissimo, não é a de reforço de pensamentos e características da mulher na década de 30, pelo contrário. Dessa forma, nem a obra de Verissimo, nem o quadro de Tarsila servem como fundamentação para imaginários da década de 1930.

O item C está incorreto, pois as duas obras ferem os pressupostos estéticos da burguesia e do pensamento elitista. O modernismo, como projeto estético, vivencia o posicionamento contrário ao estabelecido pela própria elite.

O item D está incorreto, pois as duas obras não consideram a crítica à figura feminina, bem como não se posiciona contrárias aos comportamentos das mulheres nesse momento. A carga crítica é imensa em ambas as obras, fato que as afasta do pensamento do referido item.

Gabarito: A

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Prof. Luana Signorelli

Prof. Luana Signorelli

Mestra em Literatura e Práticas Sociais pela Universidade de Brasília (UnB) e Doutoranda em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

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