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Comentários sobre a prova de História da 2ª Fase da Unicamp

Data 14/01/2020

Postado por Prof. Alê Lopes

Olá, queridos e queridas. Tudo bem? Sou a prof. Alê Lopes e escrevo este artigo para resolver e comentar as questões de História da prova da 2ª Fase do Vestibular da Unicamp 2020.

Questão 01

Um dos eixos da bipolaridade escravista que unia a África à América portuguesa girava, justamente, na rota aberta entre as duas margens do mar por correntezas e ventos complementares. Na ida, a rota principal seguia o inverso dos ponteiros do relógio, no sentido dos ventos oeste-leste, entre o Trópico de Capricórnio e 30º5. Na volta, a rota principal seguia no sentido dos alísios de sudeste, abaixo da linha do Equador. Na medida em que se zarpava com facilidade de Pernambuco, da Bahia e do Rio de Janeiro até Luanda ou a Costa da Mina, e vice-versa, a navegação luso-brasileira que se desenvolveu naquelas rotas foi transatlântica e negreira. Vários tipos de trocas uniam as duas margens do oceano.

(Adaptado de Luiz Felipe de Alencastro, O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 61 – 63.)

Com base no excerto e em seus conhecimentos, responda às questões.

a) Explique a direção dos ventos alísios no Atlântico Sul e a sua funcionalidade no transporte marítimo da África para o Brasil.

b) Cite e explique um exemplo de relação estabelecida entre o Brasil e a África na época da colonização portuguesa na América.

Comentários

a) Item sobre Geografia. Clique aqui e confira o comentário do professor Saulo.

b) As relações entre Brasil e África no Império português foram marcadas pela escravidão, que criou um comércio de cativos no oceano Atlântico. A partir da formação de alianças com povos e lideranças no continente africano, os escravizados eram enviados para o território brasileiro em troca de fumo, cachaça e outros produtos utilizados como moeda de troca.

Questão 02

Até hoje, a formação das classes médias esteve ligada à expansão da indústria e à elevação de seus níveis de produtividade. Historicamente, a indústria permitiu estruturar a representação política e sindical das categorias mais desfavorecidas da população em torno dos interesses que afetavam as grandes massas de trabalhadores. Já no contexto atual, marcado por um mundo menos industrializado e orientado para uma economia em que os serviços tendem a ser mais fragmentados e frequentemente artesanais ou informais, os interesses comuns dos trabalhadores são evidentemente muito mais difíceis de emergir. Considerando este quadro, a desindustrialização prematura dos países do Hemisfério Sul (com exceção do Leste Asiático) não é muito favorável a uma consolidação democrática.

(Adaptado de Pierre Veltz, La société hyper-industrielle. Le nouveau capitalisme productif. Paris: Éditions du Seuil, 2017, p. 16.)

Com base no texto e em seus conhecimentos, responda às questões.

a) Que decreto-lei garantiu os principais direitos trabalhistas na Era Vargas e por que a menor presença de uma classe trabalhadora na indústria enfraquece os processos democráticos na contemporaneidade?

b) Indique e explique qual foi a principal mudança estrutural ocorrida na economia brasileira nas duas últimas décadas.

Comentários

a) O Decreto-Lei de 1943 que aprovou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) garantiu os principais direitos trabalhistas na Era Vargas. A participação dos trabalhadores industriais em campanhas reivindicatórias, como nas lutas salariais, tende a fortalecer processos democráticos, pois expressa a pressão política das organizações das classes desfavorecidas da sociedade. Nesse sentido, a organização dos trabalhadores industriais favorece os processos de inclusão social e, portanto, a luta por igualdade. Considerando que as democracias fortes pressupões liberdade e igualdade, a menor presença desses trabalhadores no mercado de trabalho enfraquece o regime democrático.

b) Item sobre Geografia. Clique aqui e confira o comentário do professor Saulo.

Questão 11

As reflexões de Aristóteles e Platão revelam uma descrença em relação ao regime democrático. O cidadão, diz Aristóteles, é quem toma parte na experiência de governar e de ser governado. Para o filósofo, o animal falante é um animal político. Mas o escravo, mesmo sendo falante, não é um animal político. Os artesãos, diz Platão, não podem participar das coisas comuns porque não têm tempo para se dedicar a outra atividade que não seja o seu trabalho. Assim, ter esta ou aquela “ocupação” define competências ou incompetências para a participação nas decisões sobre a vida comum.

(Adaptado de Flávia Maria Schlee Eyler, História antiga: Grécia e Roma. Petrópolis: Editora Vozes/Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio, 2014, p.15.)

A partir do texto e de seus conhecimentos sobre a Antiguidade Clássica, responda às questões.

a) Segundo Aristóteles e Platão, como se define o “animal político” no contexto da cidadania ateniense?

b) Identifique e explique uma crítica dos filósofos citados ao regime democrático.

Comentários

a) O animal político é definido como o ser que se realiza socialmente, primeiro na família, mas, sobretudo na polis. Assim, animal política é aquele que, de alguma maneira, pode participar do governo da sociedade.

b) Os filósofos demonstram uma descrença com o regime democrático porque nem todos os cidadãos reuniriam as condições necessárias para governar. Para as atividades políticas, na visão de Aristóteles e de Platão, é preciso sabedoria, a qual, em partes, é adquirida com a experiencia. Por isso, não seria todos os cidadãos que deveriam participar do governo, tal como o modelo de democracia direta.

Questão 12

O escritor Fernão Mendes Pinto não foi o único a criticar a construção de um império que ia da Índia ao Amazonas. Outros – entre os quais se destacam Gil Vicente e Camões – registraram que o reverso da medalha do papel de civilizadores e missionários assumido pelos portugueses era a brutalidade, a covardia, a avareza, a crueldade, a pilhagem e o desprezo pelas sensibilidades, costumes, crenças e propriedades dos locais. A prosa e a poesia do século XVI exprimiram o receio de que o preço a pagar por tal aventureirismo poderia ser a degenerescência moral e o declínio das virtudes cívicas em Portugal.

(Adaptado de A. J. R. Russel-Wood, Reviewed work: The Travels of Fernão Mendes Pinto by Fernão Mendes Pinto, Revecca D. Catz. The International History Review, p. 568-572, ago. 1990.)

a) Explique as críticas de Gil Vicente e Camões à construção do Império português da Época Moderna.

b) Cite e explique uma forma de resistência à presença dos portugueses no Ultramar.

Comentários

a) Os autores questionaram o caráter brutal da conquista da América pelos portugueses, no qual se verifica a submissão dos nativos por métodos violentos, a desorganização de suas estruturas culturais e a expropriação de suas riquezas.

b) Uma das formas de resistência adotada pelos nativos foram as fugas para o interior do território da América Portuguesa, com o intuito de postergar o contato com os colonizadores. Este processo, contudo, não raro gerou guerras entre povos, pois demandava dos povos recém-chegados a disputa pelo território com aqueles previamente instalados.

Questão 13

A política europeia é abalada pela Revolução de Cromwell na Inglaterra e pela Restauração Portuguesa. Nesse contexto de mudança política do século XVII, os embaixadores passaram a ser escolhidos dentro dos quadros mais distintos da nobreza, privilegiando-se aqueles sujeitos que possuíam formação acadêmica e conhecimento das leis.

(Adaptado de Thiago Groh de Mello Cesar, A política externa de D. João IV e o Padre Antonio Vieira: as negociações com os Países Baixos. Dissertação de Mestrado, UFF, 2011, p. 1-2.)

A partir da leitura do texto e de seus conhecimentos, responda às questões.

 a) Explique duas consequências da Revolução Puritana para o contexto monárquico europeu do período.

b) Cite duas funções dos embaixadores europeus na relação entre as monarquias europeias nos séculos XVII e XVIII.

Comentários

a) A Revolução Puritana de 1640 questionou o excesso de poder da monarquia inglesa. Nesse sentido, a partir desse processo, o Parlamento inglês se fortaleceu, fato que viabilizou uma conquista de longo prazo para a arquitetura institucional do país. Já a curto prazo, como reflexo imediato da Revolução Puritana, a monarquia absolutista foi dissolvida – inclusive com a decapitação do rei – e a República foi instalada. Durante seu Governo, Cromwell fortaleceu o poder da Inglaterra como uma potência marinha mercante. Além disso, há um rearranjo da correlação de forças entre as monarquias europeias a partir do fortalecimento comercial da Inglaterra. Nesse novo cenário, a Coroa Britânica passa a ser mais importante que Portugal e Espanha.

b) Dentre as funções dos embaixadores europeus, podemos destacar as mediações para os acertos de casamentos entre cortes e o estabelecimento de acordos de paz, quando em situações de conflito militar entre monarquias. (para lembrar: Tratado de Vestifalia entre Espanha e Países Baixos). Outra função era de aconselhar o soberano na tomada de decisões internacionais.

Questão 14

Leia atentamente o trecho da carta escrita em 1830 por Simón Bolívar ao General J. J. Flores. A partir da leitura e de seus conhecimentos, responda às questões.

Meu querido General: V. Ex.ª sabe que governei durante vinte anos e deles tirei apenas pouco resultados certos: 1º) a América é ingovernável para nós; 2º) aquele que serve a uma revolução ara no mar; 3º) a única coisa que se pode fazer na América é emigrar; 4º) este país cairá infalivelmente em mãos da multidão desenfreada, para depois passar a pequenos tiranos quase imperceptíveis, de todas as cores e raças; 5º) devorados por todos os crimes e extintos pela ferocidade, os europeus não se dignarão a nos conquistar; 6º) se uma parte do mundo voltasse ao caos primitivo, este seria o último período da América.

(Adaptado de Simón Bolívar, Escritos políticos. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1992, p. 32.)

a) Identifique dois aspectos políticos do processo de independência da América espanhola.

b) Explique como o texto contradiz o projeto político inicial de Bolívar para a América.

Comentários

a) Dentre os aspectos verificados na emancipação política da América Espanhola, podem ser destacados a fragmentação do território colonial em diversos novos países e a formação de repúblicas de caráter autoritário, nas quais se verifica a predominância de lideranças caudilhistas.

b) Simón Bolívar, uma das principais lideranças nas guerras de independência da América Espanhola, foi defensor de um projeto de unidade latino-americana, ou seja, que a emancipação política originasse uma República confederada. Contudo, suas ideias enfrentaram resistências das elites criollas, que viram na pulverização do território colonial em repúblicas independentes a possibilidade garantir sua influência política. Nesse sentido, o governo de Bolívar não foi marcado pelas características de seu Plano de pan-americanismo.

Questão 15

Após 1988, o Brasil incorporou à sua agenda política importantes questões de natureza social, ambiental e de direitos individuais. Nessa linha, o país participou ativamente das negociações internacionais na defesa do meio ambiente – sendo representado na Comissão Brundtland e organizando a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que acabou sendo realizada no Rio de Janeiro, em 1992, e ficou conhecida como ECO-92.

(Adaptado de Luiz Carlos Delorme Prado e Maria Antonieta P. Leopoldi, “O fim do desenvolvimentismo: o governo Sarney e a transição do modelo econômico brasileiro”, em Jorge Ferreira (org.), O Brasil Republicano: O tempo da Nova República – v. 5: Da transição democrática à crise política de 2016. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018, p.74.)

A partir da leitura do texto e de seus conhecimentos, responda às questões.

a) Explique a importância das escalas local e global definidas na ECO-92.

b) Cite e explique uma meta socioambiental relativa às matrizes energéticas do Planeta adotada pelos países signatários da ONU entre a Conferência de 1992 e a Conferência do Clima de 2015.

Comentários

a) A Eco-92 foi a primeira reunião global de chefes de Estado e de governo para discutir os problemas ambientais do planeta. Nessa Conferência Mundial sobre o clima estabeleceu-se um compromisso internacional para promover o desenvolvimento sustentável, ideia que relaciona atividade economicamente viável, socialmente justa e ecologicamente correta. A fim de cumprir alguns objetivos, criou-se uma Agenda comum global que possibilitou o desenvolvimento de uma agenda local. A ideia era “pensar globalmente e agir localmente”. Essa agenda local era pensada a partir da integração e participação do Estado, da sociedade civil e das entidades ambientais.

b) Uma meta socioambiental relativa à matriz energética foi a busca por fontes renováveis e limpas de energia, ou ainda, a diminuição da emissão de gases do efeito estufa.

Questão 16

Pode parecer inconcebível que um crime de proporções gigantescas como o Holocausto, que também é um dos crimes mais bem documentados, estudados e testemunhados da história, possa ser negado, especialmente hoje, quando são numerosos os meios de informação sobre o tema.

(Adaptado de Bruno Leal Pastor de Carvalho, “O negacionismo do Holocausto na internet”. Faces da História, Assis, v. 3, n.1, jan.- jun. 2016, p. 6.)

A partir do excerto e de seus conhecimentos,

a) apresente dois aspectos do negacionismo histórico;

b) analise o impacto da internet nos debates sobre o Holocausto no mundo contemporâneo.

Comentários

a) Negação dos fatos históricos consagrados por ampla pesquisa acadêmica e científica. Deslegitimação do conhecimento produzido pela História e desmoralização dos autores, especialistas que produziram estudos sobre os temas sensíveis do passado. Professores que lecionam e ensinam a história, conforme as pesquisas acadêmicas, também são perseguidos e desmoralizados, acusados de “comunistas, “esquerdopatas” ou doutrinadores.

b) A internet teve o papel de disseminar ideias falsas e distorcidas sobre o holocausto. A internet nivelou os “valores” e importância da ciência e de qualquer outra informação. Na prática, a internet desinformou, apesar de fazer o tema ser debatido mais amplamente.

É isso, pessoal. Se você fez a prova da segunda fase da FUVEST 2020, espero que tenha tido êxito na sua aprovação. Se ficou qualquer dúvida, entre em contato comigo através do Fórum de Dúvidas ou pelas redes sociais.

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Prof. Alê Lopes

Prof. Alê Lopes

Professora de História formada pela Universidade de Campinas, a Unicamp. Mestre em Ciência Política pela mesma instituição, professora de História e Sociologia do Estratégia Vestibulares.

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