Última atualizaçao em: 05 de Novembro de 2020, ás 20:02

Olá, pessoal… Tudo bem? Sou a profª. Luana Signorelli, do Estratégia Vestibulares, e com a ajuda dos professores Fernando Andrade e Celina GIl, escrevo este artigo para comentar e resolver as questões da prova da 2ª Fase do Vestibular FUVEST 2020.

Questão 01

Quarenta e seis anos depois, a vietnamita que comoveu o mundo quer que sua foto contribua para a paz

 Só vi esse registro muito tempo depois. Passei 14 meses no hospital, tratando as queimaduras. Quando voltei para casa, meu pai me mostrou a foto, recortada de um jornal vietnamita: “Aqui está sua foto, Kim”. Olhei a foto e, meu Deus, como fiquei envergonhada! Como eu estava feia! E pelada! Todos estavam vestidos, e eu, uma menina, estava sem roupa. Via agonia e dor em meu rosto. Fiquei com raiva. Por que ele tirou aquela foto de mim? Era melhor não ter tirado nenhuma! Eu era só uma criança, mas tinha de lidar com muita dor. Quanto mais famosa a imagem ficava, mais eu precisava encarar minha tragédia.

Kim Phuc Phan Thi, em depoimento a Ruande Sousa Gabriel, 19/09/2018. Disponível em https://epoca.globo.com/.

a) Justifique o emprego das sentenças exclamativas, explicitando o motivo do espanto de Kim.

b) A partir da expressão “minha tragédia”, que encerra o depoimento, analise os dois níveis de apreensão do evento trágico, considerando o momento do primeiro contato de Kim como registro fotográfico e o momento do testemunho.

Gabarito

a) As expressões têm cunho de interjeição. Expressam sentimentos de assombro e revolta a partir de alguém que viveu a situação na própria pele e está vendo um retrato trágico de si mesma. O espanto pode estar ligado a marcas de oralidade.

b) O pronome possessivo minha tem a ver com a vergonha pessoal que ela passa sentir ao ver a si mesma pelada, naquele estado, mas extrapola esse quadro chegando ao plano da tragédia coletiva, já que ela não estava vivendo essa situação sozinha. Isso também diz respeito a ter a sua tragédia relembrada cada vez que ela olhasse a foto.

Questão 02

A reinvenção da vírgula

No começo de 1902, Machado de Assis ficou desesperado por causa de um erro de revisão no prefácio da segunda edição de suas Poesias completas. Dizem que chegou a se ajoelhar aos pés do Garnier implorando para que o editor tirasse o livro de circulação. O aristocrático e impoluto Machado, quem diria. Mas a gralha era mesmo feia. O tipógrafo trocou o E por A na palavra cegara, o revisor deixou passar, e vocês imaginam no que deu.

No nosso caso, o erro não foi nada demais, nem erro foi para falar a verdade, apenas um acréscimo besta de pontuação, talvez dispensável, ainda que de modo algum incorreto. Vai o revisor, fiel à ortodoxia da gramática normativa, e espeta duas vírgulas para isolar um adjunto adverbial deslocado, coisa de pouca monta, diria alguém, mas suficiente para o autor sair bradando aos quatro ventos que lhe roubaram o ritmo da sentença. Um editor experiente traria um cafezinho bem doce, a conter o ímpeto dramático do autor de primeira viagem, talvez caçoando, “deixa de onda”, a lembrá-lo – valha-me Deus! – que ele não é nenhum Bruxo do Cosme Velho*. E assim lhe cortando as asas antes do voo.

*Referente a Machado de Assis.

Disponívelemhttps://jornal.usp.br/artigos/areinvencaodavirgula/.Adaptado.

a) Qual o sentido da palavra “espeta”, destacada no texto, e qual o efeito que ela produz?

b) Explique o significado, no texto, da expressão “cortando as asas antes do voo”.

Gabarito

a) Significa um uso arbitrário da pontuação, de modo agressivo, contra a vontade do autor. Também pode significar ferir o estilo do autor.

b) Impedir o autor de se atribuir mais importância (achar que é Machado, mas não fazer mil exigências). Ou seja, colocar o autor no seu devido lugar.

Questão 03

Tenho utilizado o conceito de precariado num sentido bastante preciso que se distingue, por exemplo, do significado dado por Guy Standing e Ruy Braga. Para mim, precariado é a camada média do proletariado urbano constituída por jovens-adultos altamente escolarizados com inserção precária nas relações de trabalho e vida social.

Para Guy Standing, autor do livro The Precariat: The new dangerous class, o precariado é uma “nova classe social” (o título da edição espanhola do livro é explícito: Precariado: uma nueva classe social). Ruy Braga o critica, com razão, salientando que o precariado não é exterior à relação salarial que caracteriza o modo de produção capitalista, isto é, o precariado pertence sim à classe social do proletariado, sendo tão-somente o “proletariado precarizado”. (…) Por outro lado, embora Ruy Braga (no livro A política do precariado) esteja correto em sua crítica do precariado como classe social exterior à relação salarial, ele equivoca-se quando identifica o precariado meramente com o “proletariado precarizado”, perdendo, deste modo, a particularidade heurística do conceito capaz de dar visibilidade categorial às novas contradições do capitalismo global.

Giovanni Alves, O que é precariado?. Disponível em https://blogdaboitempo.com.br/. Adaptado.

a) Explique o processo de formação da palavra “precariado”, associando-o ao seu significado.

b) Qual a função sintática da expressão “com razão” e o seu sentido na construção do texto?

Gabarito

a) A palavra é composta pela união de dois conceitos dados de antemão: o adjetivo “precário” e o substantivo “proletariado”. O processo de formação de palavra é sufixação, pois a palavra “precário” se mantém inteira, como radical, unindo-se ao sufixo “ado”, proveniente da palavra “proletariado”. A sufixação ocorre quando se acrescenta um sufixo a um radical. Seria aglutinação se houvesse junção de dois radicais. Na aglutinação, unem-se as palavras suprimindo um ou mais de seus elementos fonéticos. Isso significa que na aglutinação há perda de algum som (em “precário”, não há perda, apenas alteração na grafia, pois cai o acento agudo).

b) Por estar entre vírgulas, trata-se de um adjunto adverbial (possivelmente de instrumento ou de modo). O termo se refere ao verbo, à ação de criticar.

Questão 04

O vídeo “Por que mentiras óbvias geram ótima propaganda” destaca quatro aspectos principais da propaganda russa: 1) alto volume de conteúdo; 2) produção rápida, contínua e repetitiva; 3) sem comprometimento com a realidade; e 4) sem consistência entre o que se diz entre um discurso e outro. Essencialmente, isso é o firehosing (fluxo de uma mangueira de incêndio). O conceito foi concebido após cerca de seis anos de observação do governo de Vladimir Putin. No entanto, é impossívelnãonotarassemelhançascomastáticasdiscursivasdepolíticosocidentais.

Para tentar inibir efeitos da tática, apenas rebater as mentiras disseminadas não é uma ação eficaz. Já mostrar outra narrativa, tal como contar como funciona a criação de mentiras dos propagandistas, sim, seria um método mais efetivo. De maneira simplificada, é o que o linguista norte-americano George Lakoff chama de verdade-sanduíche: primeiro exponha o que é verdade; depois aponte qual é a mentira e diga como ela é diferente do fato verdadeiro; depois repita a verdade e conte quais são as consequências dessa contradição. A ideia é tentar desmentir discursos falsos sem repeti-los.

Le Monde Diplomatique Brasil,“Firehosing: a estratégia de disseminação de mentiras usada como propaganda política”. Disponível em https://diplomatique.org.br/. Adaptado.

a) De que maneira o conceito de firehosing aproxima-se da imagem do fluxo de uma mangueira de incêndio?

b) Explique com suas palavras a metáfora “verdade-sanduíche” usada pelo linguista George Lakoff.

Gabarito

a) O fluxo de mentiras de maneira intensa e contínua, tal qual uma mangueira.

b) Na estrutura de um pão, pressupõe-se a configuração pão, recheio, pão. O recheio vem entre pães, os quais tornam o seu conteúdo tragável. O recheio vem escondido, como a mentira com aparência de verdade, nem sempre dando para saber o que vem por dentro realmente. A metáfora é uma figura de linguagem que consiste em uma comparação subentendida: emprega-se um termo com significado de outro a partir da semelhança entre ambos.

Questão 05

Examine a capa da revista Superinteressante, publicada em julho de 2019.

a) Indique o duplo sentido presente na manchete de capa da revista, explicitando os elementos linguísticos utilizados.

b) Explique como a imagem e o texto se combinam na construção do sentido.

Gabarito

a) A palavra “paranoia”, separada por vírgula. O substantivo foi desmembrado no verbo “para” (no imperativo que, segundo o Novo Acordo Ortográfico, perdeu o acento diacrítico) e no substantivo “noia.

b) A imagem representa uma cabeça confusa, simbolizada pelo emaranhado de traços que representam pensamentos. “Noia” é uma palavra feminina, e a figura retrata uma personagem igualmente feminina, o que pode ser inferido a partir de suas roupas.

Questão 06

Adaptados a esse idioma que se transforma conforme a plataforma, os memes e textões dominaram a rotina desta década como modos de a gente rir, repercutir notícias, dividir descontentamentos, colocar o dedo em feridas, relatar injustiças e até se informar. Entraram logo no vocabulário para além da internet: “virar meme”, “dar textão”. Suas características também interferiram no jeito de compreender o mundo e expressar o que acontece à nossa volta. Viktor Chagas, professor e pesquisador da Universidade Federal Fluminense (UFF), os vê como manifestações culturais de grande relevância para entender o período e, também, como “extravasadores de afetos”. […]

Por mais que o textão seja “ão”, assim como o meme ele é uma expressão sintética típica de hoje, explica Viktor Chagas. Mesmo o textão mais longo na verdade é um textinho: faz parte da lógica do espaço em que circula.

TABUOL, “Vim pelo meme e era textão”. Disponível em https://tab.uol.com.br/. Adaptado.

a) Retire do texto dois argumentos que justifiquem a caracterização de “memes e textões” como “extravasadores de afetos”.

b) Em que sentido pode se afirmar que não há uma contradição no trecho “Mesmo o textão mais longo na verdade é um textinho”?

Gabarito

a) O trecho em questão é “modos de a gente rir, repercutir notícias, dividir descontentamentos, colocar o dedo em feridas, relatar injustiças e até se informar”.

b) Um texto não é um livro; no fundo, ele é esvaziado de profundidade. Ele só confere aparência de grandeza se comparado a outros textos na internet, relativamente mais curtos. Porém, um textão, embora tenha “muita coisa escrita”, representa mediocridade e superficialidade, sentidos negativos expressos pelo uso do diminutivo em “textinho”.

Questão 07

— Que farás se eu continuar a andar? — perguntou o Comissário. — Das duas, uma: ou te prendo ou te acompanho. Estou indeciso. A primeira repugna-me, nem é justa. A segunda hipótese agrada-me muito mais, mas não avisei na Base nem trouxe e o sacador.

(…) —Nunca me prenderias!

— Achas que não?

O Comissário deitou o cigarro fora.

— Que vais fazer a Dolisie, João?

Pela primeira vez, Sem Medo chamara-o pelo nome.

Pepetela, Mayombe.

a) Identifique o evento diretamente relacionado à mudança de tratamento entre Comissário e Sem Medo.

b) “Sem Medo” não é um apelido aleatório. Justifique a afirmação com base em elementos do desfecho do romance.

Comentários

a) Havia um triângulo amoroso entre Sem Medo, João e Ondina. Ondina morava em Dolosie. O Comandante estava tentando impedir o amigo Comissário de ir conversar com ela, dissuadi-lo, e o chama pelo nome pessoal e não pelo codinome de guerra, porque se tratava de uma situação intima, pessoal.

A relação de João com Ondina já não ia bem a tempo, por falta de diálogo e satisfação sexual. É quando Ondina se envolve com Sem Medo.

O relacionamento dos 3 é bem complicado. Apesar de ser um triângulo amoroso, no final não há rancor. O fato é que João e Ondina não se davam bem fazia muito tempo, e falta de diálogo e satisfação estava arruinando a relação entre os dois.

Daí o Comandante Sem Medo se envolve com Ondina e João a princípio fica com raiva, mas no fundo o Comandante presencia o que ele chama de “metamorfose” do Comissário, que passou a ver a vida de uma forma diferente depois do ocorrido.

A base guerrilheira está passando por uma crise de fome, eles estão sem abastecimento alimentício. Eles precisam ir à cidade de Dolisie, que fica no Congo, na verdade, lidar com essa gestão. O Comissário João quer ir a qualquer custo, pq ele quer conversar com a namorada Ondina, com quem anda tendo problemas.

A mudança no chamamento está no trato pessoal, porque o Comandante Sem Medo e o Comissário, mais do que colegas de guerrilha, são amigos.

E tem mais: os dois mais Ondina estão envolvidos num triângulo amoroso, o que justifica a ambiguidade da pergunta: “que vais fazer a Dolisie, João?”, se realmente tratar do problema da comida ou ir atrás da noiva Ondina.

b) Sem Medo é um codinome. Já dede o início do livro, descobrimos o porquê de ele ser chamado assim: “Sem Medo, guerrilheiro de Henda. Antes chamava-se Esfinge, ninguém sabia o porquê.

Quando foi promovido a Chefe de Seção, os guerrilheiros deram-lhe o nome de Sem Medo, por ter resistido sozinho a um grupo inimigo que atacara um posto avançado, o que deu tempo a que a Base fosse evacuada sem perdas. Uma das muitas operações em que rira do inimigo, sobre ele lançando balas, gracejos e insultos” (PEPETELA, 2018, p. 17).

Esse codinome será reafirmado em vários momentos no livro, quando, por exemplo, em conversa com Teoria, o professor, Sem Medo confessa que seu maior medo é no momento da sua morte não se reconhecer.

Logo cedo no romance percebemos também a presença de codinomes. Além de representarem uma tática de camuflagem na guerra, escondendo as suas próprias identidades, isso também indicava um lado subjetivo: eles próprios se escondiam em si mesmos e no Mayombe estavam em busca de si mesmos.

Na análise, chamo este elemento de autobusca. No romance, há um termo parecido, surgido da teoria socialista: autocrítica. Trata-se do autoconhecimento, do autodomínio, em busca do que os guerrilheiros estavam. Nesse sentido, o codinome estava ligado diretamente à representatividade.

Sem Medo sempre foi corajoso e honrado. Houve um momento em que apunhalara um homem na barriga e ao final do romance ele também vai morrer com uma rajada de Breda no ventre. A ocasião era tomada de uma base portuguesa, Pau Caído, e os guerrilheiros se dividiram em dois grupos.

O Comandante Sem Medo via o grupo do Comissário, sem entender sua tática. Antes que pudesse fazer qualquer coisa, Lutamos – o qual ia andando em direção ao Comissário – morre no ato. Todo mundo meio que perde a razão e, o Comandante Sem Medo, tentando ajudar, é atingido na barriga

O enfermeiro Pagu-A-Kitina diz que ele tem uma hemorragia grave e não pode ser deslocado. Sem Medo morre no Mayombe tornando-se com ele uma coisa só, símbolo da luta.

Questão 08

Texto 1

Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus atos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário. Só tinha uma preocupação: aumentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para a companheira os piores legumes, aqueles que, por maus, ninguém compraria; as suas galinhas produziam muito e ele não comia um ovo, do que no entanto gostava imenso; vendia os todos e contentava se com os restos da comida dos trabalhadores. Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular, de reduzir tudo a moeda. E seu tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer, ia e vinha da pedreira para a venda, da venda às hortas e ao capinzal, sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com os olhos, de tudo aquilo de que ele não podia apoderar-se logo com as unhas.

Aluísio Azevedo, O Cortiço.

Texto 2

(…) Rubião é sócio do marido de Sofia, em uma casa de importação, à Rua da Alfândega, sob a firma Palha & Cia. Era o negócio que este ia propor-lhe, naquela noite, em que achou o Dr.Camacho na casa de Botafogo. Apesar de fácil, Rubião recuou algum tempo. Pediam-lhe uns bons pares de contos de réis, não entendia de comércio, não lhe tinha inclinação. Demais, os gastos particulares eram já grandes; o capital precisava do regime do bom juro e alguma poupança, a ver se recobrava as cores e as carnes primitivas. O regime que lhe indicavam não era claro; Rubião não podia compreender os algarismos do Palha, cálculos de lucros, tabelas de preço, direitos da alfândega, nada; mas, a linguagem falada supria a escrita. Palha dizia coisas extraordinárias, aconselhava o amigo que aproveitasse a ocasião para pôr o dinheiro a caminho, multiplicá-lo.

Machado de Assis, Quincas Borba.

a) Como o contraste entre os trechos “já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular” e “não entendia de comércio, não lhe tinha inclinação”, respectivamente sobre as personagens João Romão e Rubião, reflete distintas linhas estéticas na prosa brasileira do fim do século XIX?

b) A partir das diferentes esferas sociais e práticas econômicas referidas nos fragmentos, trace um breve paralelo entre as trajetórias dos protagonistas nos dois romances.

Gabarito

a) O contraste entre os trechos relaciona-se a como os narradores comentam a causa do comportamento dos respectivos personagens. No caso de João Romão trata-se de uma moléstia, no caso de Rubião trata-se de uma inclinação. Isso se explica pela aceitação ou não das teorias deterministas.

Aluísio de Azevedo as aceita incondicionalmente, por isso considera que a forma de agir de João Romão é determinada pela raça e pelo seu tipo físico, trata-se de uma patologia. João Romão representa o desejo de lucro a qualquer custo, tentando lucrar no contexto histórico da abolição da escravidão no país.

Já Machado de Assis não aceita tal explicação e vê traços de caráter como inclinações, basta lembrar que Machado é realista e não naturalista. Trata-se do cinismo e da hipocrisia social, denúncias que o realismo pretende revelar.

b) Os dois personagens pertencem a classes sociais semelhantes:  Rubião é professor e João Romão é trabalhador humilde. No texto, observa-se referência a duas práticas econômicas diferentes. João Romão acumula por expropriação e exploração direta; enquanto o sistema mencionado no fragmento de Quincas Bora refere-se ao capitalismo especulativo.

Quanto à trajetória, João Romão se abdica de tudo, imigra de Portugal, e no final consegue uma honraria, uma distinção, que vão entregar na sua própria casa. O sucesso dele é recompensado. Ao passo que Rubião nunca teve grandes ambições.

Trabalhava como pacato professor em Barbacena, quando se torna herdeiro universal (único) do filósofo Quincas Borba. Como ele era bobo e desentendido de negócios, uma série de oportunistas se aproxima dele, como o casal Palha, por exemplo.

Cristiano Palha é inclusive responsável pela sua ruína, porque se torna administrador pessoal da fortuna de Rubião e se finge de amigo, escondendo os lucros verdadeiros da empresa e levando Rubião à loucura e à falência.

Questão 09

Observe as seguintes capas que o artista Santa Rosa desenhou para o livro Angústia, de Graciliano Ramos:

a) Comente o episódio figurado na capa de 1941, analisando a posição de Luís da Silva na cena.

b) Comente o episódio figurado na capa de 1947, analisando a posição de Luís da Silva na cena.

Gabarito

a) Na primeira, Luis da Silva conversa com sua namorada, Marina, no jardim entre suas casas. O ambiente é marcado por uma mangueira e por lixo (descrição do cenário físico).

É nesse lugar que eles travam conversa pela primeira vez, que eles costumam conversar e onde começa o relacionamento deles. É um lugar muito importante pro protagonista. Onde ele sentava para ler um livro debaixo da mangueira e observava Marina, até o ponto em que ela vai conversar com ele.

b) No segundo, Luis da Silva estrangula Julião Tavares. Era pra ser com uma corda, mas na imagem tem um braço. Mas de qualquer maneira diz respeito ao crime, sim. A corda é dada pelo seu Ivo. Era uma corda porque, fisicamente, Julião é gordo, ao passo que Luis da Silva é magro, de modo que tem desvantagem física pra realizar o crime.

No caso, ele estrangula Julião, amarra-o na corda e o prende num poste para forjar suicídio. Porém, do início ao fim, o romance deixa vago se o crime de fato ocorreu ou não passa de uma alucinação/paranoia de Luis da Silva.

Questão 10

Considere os seguintes trechos:

(I) Era um pedreiro de Naim (…). O açoite dos intendentes rasgara-lhe a carne; depois a doença levara-lhe a força, como a geada seca a macieira. E agora, sem trabalho, com os filhos de sua filha a alimentar, procurava pedras raras nos montes– e gravava nelas nomes santos, sítios santos, para as vender no Templo aos fiéis. Em véspera de Páscoa, porém, viera um Rabi de Galileia cheio de cólera que lhe arrancara o seu pão!…

(II) (…) E nós tivemos de fugir, apupados¹ pelos mercadores ricos, que, bem encruzados nos seus tapetes de Babilônia, e como seu lajedo bem pago, batiam palmas ao Rabi… Ah! Contra esses o Rabi nada podia dizer, eram ricos, tinham pago! (…) Mas eu fui expulso pelo Rabi, somente porque sou pobre!

(III) (…) Bati no peito, desesperado. E a minha angústia toda era por Jesus ignorar esta desgraça, que, na violência do seu espiritualismo, suas mãos misericordiosas tinham involuntariamente criado, como a chuva benéfica por vezes, fazendo nascera sementeira, quebra e mata uma flor isolada. 1.Vaiados.

Eça de Queirós, A relíquia.

“Se quiséssemos recolher tudo o que já foi encontrado [da cruz de Cristo], daria para lotar um navio. O Evangelho conta que a cruz podia ser levada por um homem. Encher a Terra com tamanha quantidade de fragmentos de madeira que nem 300 homens aguentariam levar é uma desfaçatez”, já afirmava o teólogo francês Jean Calvino, profundamente cristão, em seu Tratado das Relíquias, publicado em 1543. A observação de Calvino continua viva cinco séculos depois. Os pedaços da chamada Vera Cruz, a cruz em que Jesus de Nazaré foi executado segundo a tradição cristã, são considerados relíquias de primeira categoria pela Igreja Católica, mas aparentemente são tão numerosos que dão a impressão de que Cristo foi um gigante crucificado em dois troncos de sequoias.

Manuel Ansede, “Fragmentos da cruz de Cristo dariam para ´lotar um navio inteiro”. In: El país, Caderno “Ciência”. Março de 2016. Adaptado.

a) Identifique as personagens que atuam como narradoras em cada um dos excertos de Eça de Queirós.

b) É possível afirmar que o romance A Relíquia endossa a perspectiva adotada por Manuel Ansede a respeito de elementos pertinentes à tradição cristã? Justifique.

Gabarito

a) A resposta deve ser extremamente simples, até porque a Banca não pediu justificação.

No trecho I, quem fala, ou seja, quem atua como narrador é Raposão, no trecho II; é Naim, o vendedor ambulante; e no trecho III, Raposão novamente.

Trata-se de uma questão de verificação de leitura. Esse episódio, que está na terceira parte do romance, refere-se ao momento em que Teodorico presenciou a paixão de Cristo. Essa cena é marcante. Um dos vendedores ambulantes que foi expulso por Jesus reclama da ação injusta do mestre.

Ele expulsou os mais pobres que ficavam no pátio, enquanto os grandes comerciantes que tinham local próprio de venda, não foram afetados e até gostaram da ação de Jesus, pois eliminou parte da concorrência.

Nos trechos I e III, Raposão conta da situação de Naim; no trecho II, pela leitura, percebe-se que trata-se de um fragmento de discurso direto do vendedor, algo evidente no trecho “mas eu fui expulso pelo Rabi, somente porque sou pobre!”

b) No fragmento de Manuel Ansede, observa-se uma crítica à prática de venda de relíquias falsas. De forma sarcástica, ele diz que se todos os fragmentos falsos fossem recolhidos para construir uma cruz, nem 300 homens conseguiriam carregá-la.

No Romance, Lino afirma algo parecido, ao lembrar a Raposão que eram muitas ferraduras do burro que carregou Jesus para um país tão pequeno quanto Portugal. 

Obviamente, seria difícil lembrar disso na hora da prova.  A justificativa poderia ser dada levando em consideração as intenções de Eça de Queirós. O autor, ao construir a figura de um personagem malandro e desonesto que vende relíquias falsas, faz uma crítica semelhante ao Ansede, pois claramente esse tipo de negócio configura como trapaça.

Instagram: @luana.signorelli

Facebook: Luana Signorelli

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