Neste artigo, nós iremos fornecer a vocês uma revisão/explicação em relação à questão de no 35 da prova de Língua Portuguesa do vestibular da FUVEST 2020, 1ª fase, sobre a obra do repertório obrigatório Angústia do modernista português Graciliano Ramos. O modelo como qual estamos nos baseando é a prova V.

A questão dizia o seguinte!

Questão 35 – FUVEST 2020

Para Graciliano Ramos, Angústia não faz concessão ao gosto do público na medida em que compõe uma atmosfera

(A) dramática, ao representar as tensões de seu tempo.

(B) grotesca, ao eliminar a expressão individual.

(C) satírica, ao reduzir os eventos ao plano do riso.

(D) ingênua, ao simular o equilíbrio entre sujeito e mundo.

(E) alegórica, ao exaltar as imagens de sujeira.

Argumentos

No momento em que corrigíamos a prova, ficamos em dúvida em relação a duas alternativas: A e E. Nosso posicionamento não é fazer um recurso para a questão, pois aceitamos concordar com o gabarito da banca, uma vez que o gabarito oficial poderia mesmo ser uma das respostas plausíveis.

  • Alternativa “A”: incorreta. Cuidado: há, sim, muito drama no romance e – naturalmente – angústia. Nunca um nome de livro foi tão eficaz, como costumo dizer. Porém, esse drama é interno, é pessoal, pouco levando em consideração o universo exterior. Há, sim, tensões de seu tempo, como alusões à abolição da escravidão e governo do Getúlio Vargas, mas o
  • Alternativa “E”: correta – gabarito. Alegoria no sentido geral, não necessariamente no sentido da figura literária. Luis da Silva é perturbado, sente-se um lixo na sua vida pessoal, de modo que o mundo exterior acaba se tornando um espelho de como ele se sente internamente.

Na resolução ao vivo do vestibular, optei pela alternativa que na minha opinião julguei mais plausível, dado o conjunto da obra. É preciso prestar atenção à tipologia da questão: a resposta tinha 2 partes e as 2 teriam que estar certas.

Tínhamos dúvidas já quanto à primeira parte, pois não entendemos em que sentido foram cobrados os termos “dramático“ e “alegórico”. A dúvida se pautou no fato de que estes termos poderiam estar sendo usados nas seguintes concepções:

  • Geral, do latim, lato;
  • Estrito, no sentido da crítica/teoria literária.

A questão em especial era a terceira numa série de questões relacionadas a 3 trechos de obras diferentes. Eram eles:

  1. Texto crítico de Benedito Nunes falando sobre a literatura no geral, não especificamente sobre Angústia;
  2. Trecho retirado da própria obra literária Angústia;
  3. Trecho autobiográfico, uma autocrítica do Graciliano Ramos em relação à própria obra. Memórias de cárcere é uma miscelânia de textos políticos, críticos, entre outros, escrito numa situação de prisão.

A questão de número 35 se relacionava, portanto, ao trecho 3.

Romance desagradável, abafado, ambiente sujo, povoado de ratos, cheio de podridões, de lixo. Nenhuma concessão ao gosto do público. Solilóquio doido, enervante.

Graciliano Ramos, Memórias do Cárcere, em nota a respeito de seu livro Angústia.

Graciliano Ramos comenta então sobre a atmosfera sufocante que toma conta de todo o livro, dominado principalmente por essa imagem de podridão e sujeira. Um sinônimo para o termo seria “monturo”, que aparece bastante no livro.

No jardim de Luis da Silva, o espaço se divide entre uma mangueira e o lixo e a sua vida é um desequilíbrio entre forças lutando por se afirmarem. De forma que é possível, sim, falar nessas “tensões” como indica a letra A.

Agora, precisamos comentar então o que significaria o termo completo: “tensões de seu tempo”. Luis da Silva não era rico, era da classe média, mas vai quase à falência por causa de Marina, a quem quer agradar a todo custo, dando joias que ela nem usa. Chega ao desespero de precisar roubar as economias de sua criada Vitória.

Mas o fato é que Luís da Silva é de uma classe social nova, ascendente: a classe média, precisa trabalhar, ele é jornalista numa repartição pública, mas nunca se adequou, sente-se um desajustado, preso às raízes na fazenda. Essas informações todas estavam no meu PDF enquanto caracterização da personalidade de Luis da Silva.

Porém, Luis da Silva também é fruto da decadência dessa aristocracia rural, pois seu avô Trajano era corajoso e mantinha firme a fazenda, mas o pai, não querendo cuidar dela, não levou adiante o seu legado, tendo arruinado o patrimônio e não legando nada ao filho quando morreu.

Logo, este é um momento histórico específico, ao qual a banca na alternativa A chamou de “tensões de seu tempo” e a que a gente ainda poderia chamar de Zeitgeist, termo alemão que significa o espírito do tempo.

Pois bem. Esse trecho é uma autocrítica, pode ser considerado uma crítica do Graciliano Ramos, ainda que de sua própria obra, e por se situar em Memórias do cárcere, ele pode ser caracterizado como reflexo da ideologia do autor em relação às questões de sua época.

Logo, a podridão seria da época, ainda que o livro seja um romance seja psicológico. Para Graciliano Ramos, era importante a questão de classe. Logo, é importante para Graciliano Ramos estabelecer uma crítica ao sistema e a crise da personalidade relacionar-se-ia com isso então.

Em relação à alternativa E, podemos também compreender o sentido de alegoria na sua concepção ampla, genérica, geral, ou no sentido específico da teoria literária.

De qualquer forma, a figura de linguagem para representar o lixo seria a metáfora. Sentido metafórico, denotativo ou figurado permite várias leituras, inclusive todas; o sentido alegórico seria mais reduzido, porque seria mais reducionista: algo simboliza algo e pronto.

Nesse sentido, como Graciliano Ramos gera margem para dúvidas e ambiguidade, a metáfora expressaria melhor o reflexo do interior de Luis da Silva com o lixo ao seu redor. Podemos esclarecer melhor esses termos, podendo a alegoria ser compreendida ainda como metáfora estendida ou materialização de uma ideia.

A pegadinha!

Segundo o Hênio Tavares (2002, p. 374, grifo meu), a alegoria é “uma sequência de metáforas, ou seja, a exposição do pensamento ou da emoção sob ampla forma tropológica e indireta, pela qual se representa um objeto para significar outro.

A alegoria, segundo já ensinava Quintiliano, pode ser ‘pura’ (quase confundindo-se com o enigma) e ‘mista’, quando propicia indicações que possibilitem a associação do que foi figurado com o que está subentendido.

Na pintura, na escultura, enfim nas artes plásticas é a alegoria bastante empregada como o valor de símbolo. Uma figura de mulher, com uma balança numa das mãos e uma espada na outra, é uma alegoria de Têmis, ou seja, a Justiça.

Em literatura a alegoria informa determinadas espécies genéricas como a fábula, o apólogo e a parábola, nas quais as coisas abstratas ou inanimadas personificam-se (…)”.

Referência bibliográfica: TAVARES, Hênio. Teoria literária. 12. ed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2002.

Metáfora

É uma comparação subentendida: emprega-se um termo com significado de outro a partir da semelhança entre ambos.

Ex.:

  • A notícia foi um balde de água fria.

Água fria” é algo que assusta, que pode apagar o fogo, que pode acordar alguém dormindo, entre outras possibilidades. Aqui, a expressão é empregada simbolicamente para significar algo que causou desânimo: a notícia desanimou as pessoas, “apagou o fogo”.

Outros exemplos:

A história era apenas a ponta do iceberg.
“Amor é fogo que arde sem se ver” (Luís de Camões)

Não confunda!

Comparação: Sua boca é como um túmulo.

Metáfora: Sua boca é um túmulo.

E por fim também podemos explicar o termo “drama” na alternativa A. No sentido como a FUVEST pareceu entender o termo, ele estaria mais voltado para a banalidade da vida de Luis da Silva. Vamos a essa concepção então.

Drama – Gr. Drama, ação. A princípio, como sugere a etimologia, o vocábulo designava simplesmente a ação. E como ação se afigurava exclusiva do teatro, passou a conter um significado específico. Aristóteles (Poética) distingue a imitação, ou mimeses, “na forma narrativa”, daquela em que as pessoas agem e obram diretamente, ou seja, em que se processa a imitação a ação. Ao segundo tipo confere o apelativo de drama. Portanto, em sentido amplo, a qualquer peça destinada a representar-se caberia análoga denominação.

Visto que a ação envolve o choque entre as personagens, o vocábulo “drama” assumiu o sentido de “conflito”, “atrito”, e o adjetivo “dramático”, o de “conflitivo”, “atritivo”. Neste caso, o termo pode ser empregado no âmbito da prosa de ficção (conto, novela e romance). Assim a expressão “célula dramática” rotula os números básicos dos conflitos ou os episódios que integram aquelas formas literárias.

(…) Na primeira metade do século XVIII, o dramaturgo francês Nivelle de la Chaussée introduziu e cultivou, sob a rubrica de comédie larmoyante (comédia lacrimejante), uma forma teatral em que se mesclavam elementos da comédia e da tragédia. Sucedeu-lhe o drama bourgeois (drama burguês), de Diderot: nos Entretiens sur le fils naturel [Entrevistas sobre o filho natural] (1757), também mconhecido por Dorval et moi [Dorval e eu], e nos Discours sur la poésie dramatique [Discursos sobre a poesia dramática] (1758), defende a substituição de personagens da história greco-romana por cidadãos burgueses do tempo, divisados no seu habitat próprio e nas condições peculiares à sua classe social. A par de certo realismo, as ideias de Diderot comportavam uma novidade: utilizavam pela primeira vez o vocábulo “drama” na acepção que assumiria com o Romantismo, ou seja, peça híbrida, entre cômica e trágica (MOISES, 2004, p. 132-133, grifos meus).

Referência bibliográfica: MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 2004.

Concluindo, concordamos com o gabarito oficial fornecido pela banca da FUVEST, mas entendemos que a maneira por meio da qual a questão foi redigida foi ambígua, podendo induzir o aluno ao erro.

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