Última atualizaçao em: 05 de Novembro de 2020, ás 19:20

Qual palavra define melhor o Cubismo? Cubo, com certeza. Mas claro que isso não diz quase nada para você, corujinha estética. Embora geralmente relacionemos rapidamente Cubismo a Pablo Picasso, na verdade quem deu a “fita” para os vanguardistas foi Paul Cézanne ( 1839-1806), pintor impressionista do final do século XIX.

Ele propôs que as formas da natureza devessem  ser representadas como se fossem cones, esferas e cilindros. Mas podemos voltar para o cubo: por que escolher essa forma? O termo é metafórico e se refere ao estudo desse sólido geométrico.

Para entendê-lo é preciso abri-lo e transformá-lo de tridimensional em bidimensional. Acho que só escrevendo não vai “rolar”. Observe o cubo a seguir.

Veja que a imagem aberta tenta dar conta do objeto em suas múltiplas perspectivas.  Os artistas cubistas desejavam mostrar todos os lados de uma mesma figura.

A partir dessa proposta,  seria possível dar uma cara para a modernidade. Se o sujeito é fragmentado e submetido à velocidade do mundo moderno, a representação do mundo não poderia ser estática, mas deveria ser semelhante à de alguém que  estivesse  em movimento tentando perceber as várias perspectivas.

Podem-se destacar as seguintes características da pintura:

  • geometrização das formas;
  • alteração da perspectiva tradicional, composição em duas dimensões;
  • uso de  volume colorido sobre superfícies planas;
  • preferência por linha cortadas, cruzadas;
  • cores austeras: preto, cinza e ocre.

Palavras-chave

Simultaneidade; Pluriperspectivismo; formas geométricas; colagem.

Vertentes do Cubismo

O cubismo se divide em duas vertentes: analítica e sintética.

Analítico

Caracterizado pela desestruturação exagerada do objeto, o artista decompõe a imagem em fragmentos e os apresenta em planos sucessivos e até mesmo superpostos. No geral, torna-se quase impossível o reconhecimento da figura representada. As cores mais utilizadas reduzem-se aos tons de castanho, cinza e bege.

Sintético

Caracterizado pelo respeito à figurativização, o artista procura ultrapassar os limites sensoriais. Pode valer-se de letras, números, pedaços de madeira numa técnica de colagem. Trata-se de  uma reação ao exagero do Cubismo analítico.

O manifesto-síntese do Cubismo foi publicado em 1913 por Guillaume Apollinaire (1880-1918).

Trechos do Manifesto Cubista

Os artistas-pintores virtuosos desta época ocidental consideram sua pureza em oposição às forças naturais.
Ela é o esquecimento depois da pintura de estúdio. E para que um artista puro morresse não deveriam ter existido todos aqueles dos séculos passados.
(…) Todos os corpos são iguais ante a luz e suas modificações surgem deste poder luminoso que constrói à sua vontade.
Nós não conhecemos todas as cores e cada homem inventa novas.
Para isto é necessário abarcar com uma olhada o passado, o presente e o futuro.
O quadro deve representar esta unidade essencial que por si só provoca êxtase.
(…)

Cubismo nas artes plásticas

Na pintura sobretudo, o Cubismo é muito característico. As formas sofrem cortes que lembram fragmentação geométrica. Em algumas obras, é reconhecível a intenção do pintor em apresentar na mesma figura perspectivas diferentes, por exemplo, registrar no rosto  a imagem frontal e de  perfil.

A figura a seguir é um fragmento do quadro Les Demoiselles d’Avignon (1907).

Cubismo - quadro Les Demoiselles d'Avignon
Les Demoiselles d’Avignon (1907)

Não há um fundo reconhecível e serve simplesmente para que se destaque  as figuras femininas em primeiro plano. O rosto das mulheres é deformado por técnicas diferentes.

O primeiro lembra a hachura, o pintor faz traços sobre um  desenho já feito  como se quisesse inscrever sobre o objeto, outras formas de representação, até infantis.

O rosto da segunda mulher lembra a técnica da colagem. A cor rosa do rosto difere das outras tonalidades do corpo. Em volta do rosto há um recorte azulado mais escuro.

Os olhos estão em desnível como se expressassem momentos diferentes de observação. A mesma coisa acontece com o nariz. O pintor parece fragmentar partes da figura  humana quase até a sua desintegração, mas ainda assim reconhecível para o espectador.

Há uma tensão prazerosa entre a desfiguração e a recomposição da imagem.  Esse quadro é um exemplo do Cubismo sintético.

O próximo quadro (figura 11), de Georges Braque (1882-1963), ilustra o Cubismo analítico.  Predomina na tela a cor ocre. As formas não são reconhecíveis, pois há uma sobreposição de fragmentos.

Apesar disso, o olhar do espectador se volta para o centro, numa tentativa de reconstituir o objeto representado. Permanecem na imaginação as pinceladas retas que forma um espécie de xadrez, diante do qual se procura juntar pedaços para formar algum tipo de  compreensão.

Cubismo na literatura

Na literatura, Apollinaire tenta traduzir essa forma de expressar a realidade. O poeta deveria ressaltar a fragmentação e geometrização  por meio de palavras soltas.

A simultaneidade deveria ser conseguida pela aglutinação de palavras que revelam aspectos díspares em um mesmo vocábulo. Apollinaire chegava a propor a destruição da sintaxe, ou seja, desconsiderar as regras de como  construir uma frase, além do verso livre e da abolição da estrofe e da rima.

No Brasil, Oswald de Andrade  utilizou de várias dessas técnicas na sua escrita. Observe o fragmento abaixo de  Memórias Sentimentais de João Miramar.

“BOTAFOGO ETC.
“Beiramarávamos em auto pelo espelho de aluguel arborizado das avenidas marinhas sem sol. Losangos tênues de ouro bandeiranacionalizavam os verdes montes interiores. No outro lado azul da baía a Serra dos Órgãos serrava. Barcos. E o passado voltava na brisa de baforadas gostosas. Rolah ia vinha derrapava em túneis. Copacabana era um veludo arrepiado na luminosa noite varada pelas frestas da cidade.”

Oswald se vale da referência explícita à forma geométrica dos montes ao apresentá-los como losangos tênues. O neologismo “bandeirancionalizavam” tenta integrar de forma simultânea duas ideias, “agitar bandeiras” e “nacionalizar”. Essas são só algumas das experimentações linguísticas que  o  autor faz nessa obra.

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