Última atualizaçao em: 05 de Novembro de 2020, ás 16:37

A separação entre Estado e Igreja promovida pela República trouxe mudanças significativas para o catolicismo no Brasil. A instituição ganhava maior liberdade de atuação, mas sua esfera de influência era limitada pela instituição do casamento civil, a secularização dos cemitérios e a laicização do ensino básico.

Apesar disso, a Constituição de 1891 poupou os bens da Igreja e não interferiu em sua organização. A partir daí, a instituição voltou-se para si, a fim de reforçar a hierarquia existente em seu interior.

Esse processo foi denominado romanização da Igreja, o que significa dizer que queriam fazer valer as determinações da sede da Igreja mesmo em territórios distantes, diminuindo o poder local das irmandades.

No entanto, essa tentativa de adequação aos novos tempos não ocorreu sem fortes contestações populares em relação à diminuição do poder das autoridades eclesiásticas.

Uma das mais conhecidas vozes desse período foi Antônio Conselheiro, que, como vimos, era forte crítico da separação entre Igreja e Estado. A Guerra de Canudos foi o primeiro dos chamados “movimentos messiânicos”, seguida pela Revolta do Contestado (1912-1916) e a Sedição (ou Revolta) de Juazeiro (1914).

Antes de abordarmos os dois últimos, vejamos alguns pontos comuns entre esses três episódios:

  • eram movimentos compostos pelos setores marginalizados da sociedade e da ideia de “civilização” defendida pelo novo regime;
  • foram mobilizados por conselheiros, monges ou beatos que surgem no interior, chamados de lideranças messiânicas;
  • manifestam um catolicismo popular, repleto de superstições e elementos místicos, sendo por isso chamados de “fanáticos” pelos seus críticos;
  • eram reações à situação de desigualdade e exclusão a que se encontravam submetidos.

Cangaço

Para aqueles sertanejos que não se deixassem dominar ao poder dos coronéis ou passassem a seguir lideranças messiânicas, havia uma terceira alternativa: o crime.

Desde a segunda metade do século XIX, bandos armados compostos por homens pobres passaram a praticar assaltos em fazendas, saquear estabelecimentos comerciais e sequestrar homens ricos em troca de resgate.

Como alguns desses foras da lei carregavam seus rifles sobre os ombros, muito similares à canga de madeira que prendia o pescoço dos bois, esses bandos passaram a ser conhecidos como cangaço.

A maioria das ondas de banditismo do Nordeste ocorriam em períodos de grandes secas, com a maioria dos bandos não ultrapassando mais que 10 homens.

ARRUDA, José Jobson A. Atlas histórico básico. 17ª ed. São Paulo: Scipione,
p. 45

No entanto, o mais famoso grupo de cangaceiros atuante no sertão nordestino era liderado por Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião. Ao longo de 20 anos, assassinatos, assaltos a fazendas e povoados foram promovidos pelo bando daquele que ficou conhecido como “Governador do Sertão”.

Apesar da extrema violência de seus atos, Lampião gerava medo e admiração por onde passava, alimentando a imaginação dos sertanejos com seus feitos extraordinários.

Ele e seu bando demonstravam grande preocupação em se destacar por meio de adereços extravagantes – enfeites bordados em chapéus de couro, medalhas, anéis e outras joias.

Lampião foi o primeiro cangaceiro a ser entrevistado, além de posar junto com seu bando para uma série de fotografias e permitir que um filme fosse feito com imagens suas.

Com isso, buscava reforçar ainda mais a lenda criada em torno dele, provocando coronéis e autoridades policiais e estaduais ao ter suas fotografias publicadas nos jornais. Para muitos, o cangaceiro era imortal.

A longa vida de crimes de Lampião se deveu principalmente à proteção de poderosos locais, que em troca eram favorecidos com “serviços” prestados pelos cangaceiros. Seu bando continuou a aterrorizar a região Nordeste até a segunda metade dos anos 1930, quando o governo Vargas incluiu seu nome na lista de extremistas.

Em 1938, Lampião e alguns membros de seu bando foram surpreendidos por uma volante de policiais, e somente alguns homens conseguiram escapar dos ataques.

Onze cangaceiros – entre eles o próprio Virgulino – foram executados a tiros e suas cabeças cortadas e expostas como troféus em várias vilas e cidades.

Fogos de artifício e bandas de música embalaram os cortejos macabros promovidos pelos adversários de Lampião, que tinham o objetivo de desencorajar o surgimento de novas hordas de cangaceiros.

O “Rei do Cangaço”, que muitos consideravam invencível, era, afinal, de carne e osso, mas sua lenda se mostraria mais extensa que sua vida.

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