Entre praticantes que levam a bruxaria como crença religiosa e lendas e contos que dão origens aos personagens da ficção, as bruxas têm uma história muito mais profunda do que imaginamos. Essa história remete à própria história do ocidente e das religiões cristãs. Entender a origem da ideia de bruxaria nos ajuda a compreender a mentalidade do humano medieval.

O professor de história do Estratégia Vestibulares, Marco Túlio, falou sobre a questão das bruxas na idade média. Foram mais de 12 mil julgamentos por bruxaria e 50 mil condenações à morte na Europa. A última execução aconteceu em 1782. Mas afinal: o que tem de mito e de verdade na história das bruxas?

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Quem são as bruxas?

A cena é um clássico: duas crianças perdidas na floresta encontram uma casa feita de doces. Com muita fome, depois de tanto procurar o caminho de volta, são tentados a ir até a casa saciar o desejo e encontram uma senhora doce e agradável, disposta a alimentá-los. Logo, descobre-se que se trata de uma bruxa malvada, pronta para comer as duas criancinhas. 

Apesar da adaptação do conto de João e Maria, que assim como outros sofreu adaptações para serem mais “limpos” e menos chocantes, as histórias de bruxas tem algo em comum: são mulheres feias, malvadas, com vassouras, chapéus e caldeirões, dispostas a ações terríveis. 

Mas é claro que a realidade não é tão fantástica assim. As bruxas são mulheres comuns, independentes, que praticavam atos considerados demoníacos pela igreja. “Da mesma forma que se consideram os santos pessoas que possuíam ligações com o sagrado em vida, as bruxas seriam aquelas que supostamente se atrelavam ao demoníaco de maneira voluntária, o que lhes conferiria certos poderes sobrenaturais”, explica o professor. 

A partir disso, todo e qualquer acontecimento desastroso passava a ter essa justificativa relacionada ao demoníaco e, muitas vezes, envolvendo os poderes sobrenaturais das bruxas. Por esse motivo, tudo que poderia ser visto como bruxaria passou a ser perseguido e julgado pelo tribunal da Santa Inquisição, ferramenta de controle ideológico e social da igreja.

A mentalidade da Idade Média

Entender como funcionava a mentalidade da sociedade medieval pode te ajudar a responder uma série de questões cobradas nos vestibulares. Segundo o professor Marco Túlio, trata-se de uma sociedade que acredita conviver com fenômenos sobrenaturais divinos e demoníacos. Era importante saber distinguir o sagrado do profano, de forma a seguir os ensinamentos de Cristo.

“Os homens e as mulheres medievais acreditavam conviver com fenômenos sobrenaturais a todo momento, que por vezes possuíam origem divina — os chamados milagres —, mas por vezes também podem ser diabólicos, como é o caso da bruxaria”.

Para entender as bruxas na história, é importante lembrar que a Idade Média é justamente o período de consolidação do cristianismo na Europa, de forma que era necessário um forte controle e imposição para que a crença fosse seguida. Aquilo que desviava dessa norma, era considerado como ameaça por parte da Igreja.

“Muitos saberes pagãos, mantidos pela tradição popular principalmente pelas mulheres, foram encarados com temor e perseguidos pela Igreja. O domínio de plantas medicinais e outros métodos curativos, que faziam parte principalmente do universo feminino, poderia ser considerado indício de associação com o maligno”, explica o professor. 

Dessa forma a associação com o chapéu, caldeirão, vassouras e outros objetos comuns naquele período foram, aos poucos, caindo na lista de proibições da Igreja e associados à bruxaria. O cristianismo considera a mulher como sendo responsável pelo pecado original, já que Eva teria instigado Adão a comer o fruto proibido.

As bruxas e controle da mulher na história

O peso de serem portadoras do “pecado original” coloca o feminino em associação direta ao profano, segundo a tradição cristã, já que ambos foram expulsos do paraíso por conta dessa ação, lançando os descendentes humanos à condição de pecadores. 

“Por serem descendentes de Eva à luz da Igreja, as mulheres eram consideradas pecadoras em potencial e fonte das tentações que assolavam os homens medievais. Eram movidas pelas paixões e desejos, enquanto os homens supostamente seriam supostamente guiados pela razão e espiritualidade”, conta Marco Tulio.

Essa crença reforça a tradição patriarcal da sociedade feudal europeia, baseada em uma supremacia masculina que impunha severas restrições à existência da mulher. “Para a Igreja, assim como Maria Madalena teria se afastado do pecado para seguir o seu Senhor, Jesus Cristo, caberia às mulheres servirem seus pais, maridos ou irmãos”.

Bruxaria e antissemitismo

Não só as mulheres desviantes foram enquadradas na condição de bruxaria. A sociedade cristã também tinha outro vilão: os judeus, que eram vistos como responsáveis pela condenação e crucificação de Jesus. 

Havia também a associação do “judeu errante”, que teria zombado de cristo no ato da crucifiação e estaria condenado eternamente por sua maldade. Por conta desse desafeto e do antissemitisto dos cristãos da idade média, havia essa associação.

Uma das crenças era as de que os judeus utilizavam crianças em rituais de sacrifício, ato conhecido como “libelo de sangue”, uma das bases que justificam o antissemitismo e a perseguição de judeus, inclusive durante o nazi-fascismo. 

Uma das histórias que deram origem ao mito é a de Santo Hugo, criança encontrada morta em um poço na Inglaterra e que deu origem às acusações contra os judeus, com desfecho de 18 assassinatos pela morte do garoto, considerado atualmente santo pela igreja. 

De onde vem os estereótipos atuais? 

Nem sempre a história das bruxas foi sobre velhas narigudas com chapéu pontudo. Antes de dominarem as fantasias de Halloween e terem até o seu próprio dia de celebração, na Idade Média a história era diferente. 

O que determinava a existência de uma Bruxa eram os atos considerados heréticos, que atentavam à Igreja, conforme ensina o professor Marco Túlio. “Somente a partir do século XVII, quando esse tribunal não mais existia, as bruxas passaram a ser retratadas como feias e velhas, principalmente pelas histórias infantis”.

O professor explica, ainda, que algo se perpetuou: a imposição de normas e padrões sobre o comportamento de mulheres. Nas histórias infantis “ enquanto as princesas são exemplares de beleza e comedimento, as bruxas, ainda que mais poderosas e autônomas, são horripilantes e não merecedoras de um final feliz”.

O entendimento do que se entende por bruxas sofreu sucessivas transformações, processo esse que ainda está em curso. É só pensar no impacto cultural da série Harry Potter, que lançou a bruxaria a uma série de ressignificações com impacto positivo. É difícil encontrar adolescentes e adultos que não esperam pela tão sonhada carta de Hogwarts. 

Apesar das mudanças, o professor atenta que há uma essência no que se é considerado por bruxaria, mesmo nos contos de hoje: “mulheres que construíram sua autonomia, sobretudo por meio de saberes não dominados por autoridades masculinas, tendem a ser encaradas com repúdio e desconfiança”.

Nesse sentido, é muito importante compreender a bruxaria por essa ótica, de forma a ser possível relacionar com pensamentos machistas e que limitam a autonomia da mulher. O exemplo das bruxas e sua perseguição pode ser utilizado, inclusive, como repertório sociocultural de alusão histórica em redações sobre temas correlatos.

A bruxas do nosso dia a dia

“Somos netas das bruxas que vocês não conseguiram queimar”. A frase, que virou símbolo pop de alguns movimentos feministas, consolida o retorno da bruxaria como algo socialmente aceitável. Faz parte do feminismo a contestação dos papéis sociais de gênero e o espaço da mulher na sociedade, por isso com a bruxaria não seria diferente.

Para Marco Túlio, hoje podemos dizer que as bruxas estão entre nós. Mas não somente aquelas estereotipadas e sobrenaturais: as bruxas são símbolo da independência da mulher e da conquista de sua autonomia, além da rejeição de rótulos e padrões de beleza e comportamento.

“Elas estão muitas vezes desempenhando o ofício de médicas, cientistas, intelectuais e professoras, dentre muitos outros. Cotidianamente, elas desafiam as barreiras que lhes são impostas, e diferentemente das antigas histórias infantis, negam os papéis secundários que lhes são atribuídos, colocando-se como protagonistas de sua própria história”, finaliza o professor.

Seja qual for a crença, é importante sempre respeitar a do outro. Portanto, se alguma questão sobre bruxaria aparecer no vestibular, você já sabe: o que vale é a perspectiva histórica. Nessa hora, esqueça a fantasia!

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