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Gabarito da prova de História da 2ª Fase da Fuvest 2020

Data 07/01/2020

Postado por Prof. Alê Lopes

Olá, queridos e queridas. Tudo bem? Sou a prof. Alê Lopes e escrevo este artigo para resolver e comentar as questões de História da prova da 2ª Fase do Vestibular da Fuvest 2020.

Questão 01

Os efeitos sociais do futebol enquanto elemento de uma dinâmica cultura popular impelira o estado colonial a intervir sobre este universo. Depois da abolição […] do indigenato, o desporto servirá para alimentar a propaganda luso‐tropicalista, nomeadamente depois das vitórias do Benfica de Coluna e Eusébio (este só na segunda) na Taça dos Campeões Europeus em 1961 e 1962, mais tarde, com a participação da seleção no Mundial de 1966.

Nuno Domingos, “Desporto moderno e situações coloniais: o caso do futebol em Lourenço Marques”. In: MELO, V. A. de e outros (orgs.) Mais que um jogo: o esporte e o continente africano. Rio de Janeiro: Apicuri, 2010.

a) Explique a relação entre Moçambique e Portugal na década de 1960.

b) Quais as relações da propaganda luso‐tropicalista portuguesa com a imagem da democracia racial no Brasil?

c) As conquistas do Benfica e o desempenho da seleção portuguesa no Mundial de 1966 fortaleceram a propaganda oficial do governo português? Justifique.

Comentários

a) A relação entre Portugal e Moçambique era de Colônia e Metrópole, sendo que Moçambique iniciou uma luta pela Independência que durou de 1964 até 1974.

b) A propaganda luso-tropicalista era política utilizada pelo governo ditatorial português, chamado Estado-Novo, que utilizava a narrativa de Portugal como uma nação “ultramarina” multirracial.  Dessa forma podemos relacionar essa concepção com o discurso da democracia racial, no Brasil, que defende a convivência pacífica entre as raças.

c) Sim, fortaleceu. É tradicional, nas análises históricas, a mobilização da prática esportiva na construção de discursos identitários, bem como, de controle da população. Naquele momento, por exemplo, o time do Benfica era formado por “jogadores nacionais”, uma representação de todas as raças. Isso servia para fazer frente à pressão sobre Portugal no contexto dos movimentos de independência afro-asiáticos e, assim, garantir apoio da população nas Guerras Coloniais.

Questão 02

O suplício tem então uma função jurídico‐política. É um cerimonial para reconstituir a soberania lesada por um instante[…]. A execução pública, por rápida e cotidiana que seja, se insere em toda a série dos grandes rituais do poder eclipsado e restaurado (coroação, entrada do rei numa cidade conquistada, submissão dos súditos revoltados). […] O suplício não restabelecia a justiça; reativava o poder. No século XVII, e ainda no começo do XVIII, ele não era, com todo o seu teatro de terror, o resíduo ainda não extinto de uma outra época. Suas crueldades, sua ostentação, a violência corporal, o jogo desmesurado de forcas, o cerimonial cuidadoso, enfim, todo o seu aparato se engrenava no funcionamento político da penalidade. […] Mas nessa cena de terror o papel do povo é ambíguo. Ele é chamado como espectador: é convocado para assistir às exposições, às confissões públicas; os pelourinhos, as forcas e os cadafalsos são erguidos nas praças públicas ou à beira dos caminhos; os cadáveres dos supliciados muitas vezes são colocados bem em evidência perto do local de seus crimes. As pessoas não só têm que saber, mas também ver com seus próprios olhos. Porque é necessário que tenham medo; mas também porque devem ser testemunhas e garantias da punição, e porque até certo ponto devem tomar parte nela.

Michel Foucault, Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1983.

a) Identifique uma das práticas punitivas descritas no texto empregadas na sociedade colonial brasileira.

b) Explique as relações entre a exibição do poder monárquico e as punições judiciais na sociedade do Antigo Regime europeu.

c) A participação do povo nas execuções conferia a elas um caráter democrático? Justifique

Comentários

a) Forca ou Pelourinho

b) As exibições do Poder Monárquico serviam para reforçar a soberania e o poder absoluto do rei.

c) A participação do povo não é democrática. Ele é mero espectador tanto do julgamento quanto da execução do suplício.

Questão 03

Leia o poema e responda ao que se pede.
Mas a taba cresceu… Tigueras* agressivas,
Para trás! Agora o asfalto anda em Tabatinguera.
Mal se esgueira um pajé entre locomotivas
E o forde assusta os manes** lentos do Anhanguera. […] Segue pra forca da Tabatinguera. Lento O cortejo acompanha a rubra cadeirinha
Pro Ipiranga. Será que em tão pequeno assento
A marquesa botou sua imperial bundinha!…

Mário de Andrade, “Tabatinguera”, Losango Cáqui (1924). In: Poesias completas v.1. São Paulo: Martins Fontes, 1979.

* área plantada onde já se fez a colheita.
** alma dos mortos, restos mortais.

a) Identifique um aspecto mencionado no poema que justifique a expressão “a taba cresceu”.

b) Destaque um argumento histórico e outro de caráter estético para o emprego de expressões indígenas no poema.

c) Explique as condições históricas que favoreceram a citação do “asfalto”, das “locomotivas” e do “forde”.

Comentários

a) Um pajé mal se esgueira entre as locomotivas ou o forde (um carro) assusta os mortos.

b) O argumento histórico é pensar o índio à construção da identidade nacional. Argumento estético é o modernismo e a antropofagia – “criar algo que estivesse enraizado na cultura do país”.

c) As transformações da estrutura produtiva, primeiro impulsionado pelo próprio café, passando pelo surto industrial e pelas inovações da década de 1920.

Questão 04

A semente da integração nacional seria, pois, lançada pela nova Corte como um prolongamento da administração e da estrutura colonial, um ato de vontade de portugueses adventícios, cimentada pela dependência e colaboração dos nativos e forjada pela pressão dos ingleses que queriam desfrutar do comércio sem ter de administrar. A insegurança social cimentaria a união das classes dominantes nativas com a “vontade de ser brasileiros” dos portugueses imigrados que vieram fundar um novo Império nos trópicos. A luta entre as facções locais levaria fatalmente à procura de um apoio mais sólido no poder central. Os conflitos inerentes à sociedade não se identificam com a ruptura política com a Mãe Pátria, e continuam como antes, relegados para a posteridade.

Maria Odila Leite da Silva Dias, A interiorização da metrópole e outros estudos. São Paulo: Alameda, 2005.

a) Caracterize o período histórico de que trata o texto.

b) Descreva os projetos dos principais grupos políticos do período.

c) Explique a frase: “Os conflitos inerentes à sociedade não se identificam com a ruptura política com a Mãe Pátria, e continuam como antes, relegados para a posteridade”.

Comentários

a) O texto descreve o processo de emancipação política do Brasil, mobilizado por interesses de grupos portugueses e brasileiros, além de contar com a participação de ingleses e outros estrangeiros. Conforme interpretação do texto, podemos pensar que se descreve o momento da transferência da Corte portuguesa para o Brasil (1808) até a Independência política (1822)

b) Para o grupo de José Bonifácio, chamado por alguns historiadores de conservadores, a soberania deveria ser partilhada entre os cidadãos-proprietários no parlamento e o Imperador. Já para o deputado Gonçalves Ledo e outros brasileiros, ela deveria ficar restrita ao Parlamento. Estes dois grupos compõe o chamado Partido Brasileiro e enquadram-se como defensores da descentralização política.

Por fim, um terceiro grupo, encabeçado por portugueses, acreditava que a soberania deveria ficar concentrada nas mãos do Imperador, além de não descartarem a reunificação entre Brasil e Portugal.

c) O trecho final do fragmento revela as limitações dos projetos de emancipação política que tomaram a cena brasileira na primeira metade do século XIX, que sob o pretexto de evitarem convulsões sociais no novo país, não se propuseram a ampliar a participação política para além dos cidadãos-proprietários, conservaram as estruturas políticas da antiga metrópole e mantiveram a escravidão como sistema econômico.

Questão 05

Observe a imagem e leia o texto.

Felipe Guamán Poma de Ayala, o autor da imagem, foi um cronista ameríndio de ascendência incaica que viveu no Peru entre 1534 e 1615. A imagem faz parte de sua Nueva Corónica y Buen Gobierno, finalizada no começo do século XVII e endereçada ao rei Felipe III, sendo acompanhada da seguinte legenda, traduzida do espanhol: “Pobre dos índios, de seis animais que comem e a que temem os pobres dos índios deste reino: serpente, corregedor; tigre, espanhóis das cidades; leão, encomendero; cadela, padre da doutrina; gato, escrivão; rato, cacique principal. Estes ditos animais que não temem a Deus esfolam aos pobres índios deste reino, e não há remédio, pobre Jesus Cristo”.

a) Identifique a situação do Peru quando da elaboração da obra.

b) Descreva as estruturas de poder político e econômico que são comentadas na imagem e no texto que a acompanha.

c) Analise as tensões no mundo indígena sugeridas por texto e imagem.

Comentários

a) Peru já havia sido conquistada por Francisco Pizarro. Era a região administrativa chamada de Vice-reinado do Peru, uma das mais importantes áreas da exploração colonial da América Espanhola.

b) O texto e a imagem identificam as estruturas da administração colonial por meio corregedor, escrivão e espanhóis da cidade. Essa estrutura é ocupada exclusivamente por chapetones – espanhóis. Encomenderos eram os criollos, descendentes de espanhóis, donos das haciendas. Padres ocupam cargos eclesiásticos necessários ao controle dos grupos sociais e que garantem a legitimidade dos encomienderos.

c) A tensão está relacionada com a aliança estabelecida entre os chefes indígenas e os colonizadores espanhóis no processo de exploração dos índios pobres.

Questão 06

Em 29 de outubro de 1956, uma grave crise política descambou em uma intervenção militar na região do Canal de Suez e da Península do Sinai (Egito).

a) Indique a importância dessa região nos quadros da política internacional do período.

b) Mencione as potências envolvidas diretamente nesse conflito e os seus respectivos interesses.

c) Explique as tensões associadas à articulação política entre os diversos Estados árabes nesse período.

Comentários

a) Construído entre 1859 e 1869, o Canal Marítimo do Suez permitia viagens marítimas entre os mares Mediterrâneo e Vermelho, o que o tornava fulcral para o transporte de petróleo do oriente para o continente europeu, incluindo aquele extraído das jazidas da Península do Sinai.

b) A crise de Suez foi irrompida após a nacionalização do canal de Suez pelo presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser. Nasser proibiu a circulação de navios israelenses no canal. Em resposta às restrições impostas pelo governo egípcio em Suez, Israel, França e Inglaterra promoveram uma ação militar responsável pela deposição presidente, que recuperou o poder após ameaças de contra-ataque dos soviéticos. Tinham o interesse em manter sua hegemonia e seus interesses econômicos na circulação de petróleo da região. Já a URSS queria impulsionar os movimentos nacionalistas para ampliar sua influência no Oriente Médio.

c) Nasser foi o principal porta-voz do pan-arabismo, discurso que almejava a aproximação e colaboração entre países de língua e cultura árabe. Após a nacionalização de Suez (1956), ele foi o motor para diversos movimentos nacionalistas no Oriente Médio, na medida em que defendia a formação de um bloco a margem do mundo bipolar e que fizesse frente à Israel na região – aliados dos EUA e da Grã-Bretanha. Essa situação gerou uma disputa por hegemonia na região decorrente dos interesses do petróleo.

É isso, pessoal. Se você fez a prova da segunda fase da FUVEST 2020, espero que tenha tido êxito na sua aprovação. Se ficou qualquer dúvida, entre em contato comigo através do Fórum de Dúvidas ou pelas redes sociais.

Você pode baixar esta resolução de forma gratuita. Deixei o arquivo logo a seguir. Caso queira estudar para a FUVEST ou reforçar a sua preparação, nós temos cursos focados. Confira nossos planos. Abraço e bons estudos.

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Prof. Alê Lopes

Prof. Alê Lopes

Professora de História formada pela Universidade de Campinas, a Unicamp. Mestre em Ciência Política pela mesma instituição, professora de História e Sociologia do Estratégia Vestibulares.

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