Mudar de cidade, escolher entre república ou apartamento, conhecer a estrutura da universidade de destino, fazer amigos, participar dos eventos esportivos, dos projetos de extensão… ufa! A vida do calouro é sempre corrida. Mas agora tudo está diferente. A volta às aulas na pandemia em modalidade presencial promete transformar o que se conhecia por vida universitária.

Apesar dos desafios da educação em tempos de pandemia, especialmente entre os universitários, as universidades estão aos poucos retomando o ensino presencial. Então, você que é vestibulando e está se perguntando como será o retorno às aulas em 2022, saiba que, apesar das dificuldades, muitas mudanças vieram para melhorar sua experiência com o tão sonhado ensino superior. 

A volta às aulas na pandemia é uma realidade cada vez mais próxima. Fotos: Unsplash Colagem: Lucas Zanetti

“Passei e ainda não conheci a faculdade”

Quem é ou foi vestibulando sabe que não é nada fácil lidar com a pressão, com a carga de estudos e com a expectativa da aprovação. A pandemia trouxe agravantes: lidar com a crise sanitária sem precedentes, o isolamento social, a perda de familiares e, ainda, se acostumar com o estudo remoto. Difícil também para quem passou, comemorou, e se deparou com a triste notícia: as aulas não voltariam em 2021. 

Apesar do baque, o estudante de medicina da Universidade de São Paulo (USP), Leonardo Olimpio, conta que “é muito maior o sentimento de felicidade de saber que passou do que a frustração de não ter aula presencial”. 

O estudante, que foi aluno do Estratégia Vestibulares, explica que a USP está muito bem preparada para receber os estudantes no ensino remoto, inclusive fornecendo equipamento e internet para os que não têm acesso.

“Esse começo da medicina é bastante teoria, então a gente não está perdendo tanto. É até melhor assistir esse tanto de aula de quatro horas de modo remoto, porque a gente consegue pausar, voltar, tem o plantão para perguntar aos professores”, diz.

Aprovada em psicologia na USP no ano passado, a também ex-aluna do Estratégia, Alessandra Santana, conta que já estava habituada às aulas remotas desde o pré-vestibular, por isso não teve tanta dificuldade de manter o ritmo quando ingressou. Porém, ela admite que as aulas presenciais fazem falta.

“Estou muito ansiosa para conhecer os meus amigos, o campus e ter aulas presenciais. Eu acho que só quando eu começar a frequentar a universidade todos os dias é que eu vou sentir que eu passei e agora sou aluna da USP”, conta a estudante. 

O ensino remoto veio pra ficar? 

É muito cedo para dizer se o ensino remoto veio para ficar, no entanto as chances são grandes, uma vez que a quantidade de cursos e faculdades EAD já vinha crescendo mesmo antes da pandemia. A volta às aulas na pandemia em modalidade presencial é um fato, mas muito do que foi aprendido nesse período deve permanecer.

De 2009 a 2019, o crescimento de matrículas no EAD subiu 378,9%, segundo o Censo do Ensino Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). No mesmo período, o crescimento do ensino presencial foi de 17,8%. 

Em 2019, 71,5% dos estudantes estavam matriculados em cursos presenciais, quadro esse que deve ser afetado pela pandemia, intensificando e consolidando a tendência de crescimento do EAD nos próximos anos. Os dados do Mapa do Ensino Superior do Instituto Semesp revelam que de 2020 para 2021 houve um crescimento de 14% nos polos de EAD entre universidades públicas e privadas.

Unicamp

Com a pandemia, todas as modalidades de ensino tiveram que se adaptar ao ensino remoto. O pró-reitor de graduação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Ivan Toro, explica que a universidade se adaptou bem ao ensino remoto, por meio de cursos aos professores, rodas de conversas, webinários, novo sistema de avaliação remota e bancos de aulas. 

A Unicamp, assim como a USP, emprestou equipamentos e chips com internet para acesso às aulas, o que facilitou a inclusão de estudantes de baixa renda para acompanhar as atividades necessárias à formação.

O professor reconhece as dificuldades de adaptação, especialmente para os estudantes de baixa renda: “os estudantes que precisam acompanhar aulas síncronas ou com exercícios com grande quantidade de dados tiveram mais dificuldades, assim como entre aqueles alunos que não dispõem de WI-FI, os que moram em região sem internet e/ou condições de habitação que não favorecem o estudo”, avalia.

No entanto, existem aspectos positivos que a instituição avalia manter para os próximos anos, como o plantão de dúvidas, banco de aulas e as rodas de conversa. Apesar do relativo sucesso do ensino remoto, a instituição pretende retomar as aulas totalmente presenciais em 2022. 

Imagem aérea da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Foto: Divulgação/Unicamp

USP

Na USP a situação é semelhante. A pró-reitora adjunta de graduação, Maria Vitória Lopes Badra Bentley, explica que a universidade já possuía estrutura para o ensino remoto, por isso a migração no início da pandemia não foi tão difícil. 

Segundo a pró-reitora, foram mais de 76 milhões de acessos na plataforma on-line de ensino em 2020 e 27 milhões em 2021, contabilizando mais de 16 mil disciplinas ministradas na plataforma Moodle.

“Entende-se que uma proposta de ensino híbrido para algumas atividades e conteúdos possa ser empregada nos cursos de graduação, aliada à priorização das atividades presenciais de práticas laboratoriais, de extensão e de avaliação, nas quais a interação face a face do professor e dos estudantes são fundamentais”, afirma a doutora.

PUC-SP

Já a pró-reitora de graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Alexandra Geraldini, conta que, para vencer os desafios, “temos procurado utilizar estratégias de aproximação com nossos estudantes e com a comunidade”. 

A professora conta ainda que, no início da pandemia,“todos começamos com um susto e precisamos aprender a lidar com a nova realidade”, e que o principal desafio foi a demanda dos estudantes por “atividades mais dinâmicas e menos cansativas”. A professora chama atenção ao cansaço de todos, em especial dos alunos.

“(Os estudantes) têm vivenciado enormes privações e, por vezes, sentem que sua vida fica restrita à tela do computador ou celular. Sentem-se privados da socialização proporcionada pela convivência física em nossos campi”, avalia a pró-reitora. 

Adaptação e readaptação

A superação dos desafios do ensino remoto em tempos de pandemia também passa pela adaptação não só do aluno, como do docente. A professora do Departamento de Ciências Humanas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Caroline Luvizotto, relata que fez cursos, treinamentos e oficinas para se adaptar à modalidade. 

A professora comenta sobre a preparação para os desafios que seriam enfrentados: “já sabíamos quais eram as principais vantagens desta modalidade de ensino e também já era sabido o grande desgaste que todos nós estávamos vivendo em função do isolamento social”. 

Com relação às turmas, a percepção foi de cansaço, especialmente por parte dos alunos mais velhos. “Os alunos já estavam cansados e foi preciso criar novas formas de organizar as aulas remotas”, explica Luvizotto.

Se foi necessário se adaptar ao ensino remoto, a readaptação ao ensino presencial também é um fato, já que muitos estudantes estabelecem rotinas, métodos e práticas de estudos em casa. A possibilidade de pausar aulas, reassistí-las e a utilização de ferramentas e salas de aula virtuais acabaram acostumando o aluno a ter mais controle sobre a própria aprendizagem. 

A professora Caroline defende que o ensino superior precisava passar mudanças desde antes da pandemia e que agora isso se tornou imperativo. Para ela, o cenário de volta às aulas na pandemia ainda tem o que ser refletido, em especial sobre “a quantidade de alunos em sala de aula, o afastamento de grande número de docentes do trabalho, e a estrutura de laboratórios e salas em geral”.

A boa notícia é que muitos desses recursos devem permanecer, bem como o oferecimento de algumas disciplinas remotas. A pró-reitora de graduação da PUC-SP, Alexandra Geraldini, defende que “hoje há uma melhor compreensão do uso do tempo, das possibilidades abertas pelas Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação que permitem um hibridismo no ensino”.

USP se prepara para retomar aulas presenciais no dia 4 de outubro. Foto: Divulgação/USP

Pré-vestibular X Faculdade

Mesmo com o ensino remoto, existem muitas diferenças entre estudar para o vestibular e para um curso de graduação. O vestibular é mais generalista, é preciso estudar para todas as disciplinas,  há suporte de lista de exercícios e um método de estudo padronizado. Já na graduação, há a imersão no universo da profissão e da ciência específica que se estuda e o método de estudo é mais ligado à didática do professor.

Leonardo e Alessandra estavam acostumados com a rotina de estudos pré-vestibular junto ao Estratégia, com as videoaulas, revisões, resoluções comentadas e simulados. Porém a carga de estudo e leitura do primeiranista de medicina e psicologia pode ser bastante desgastante. 

Alessandra conta que passa horas em frente ao computador, seja durante as aulas, reuniões de projetos de extensão ou lendo os textos e livros obrigatórios: “o estudo na graduação tem uma dinâmica bem diferente do estudo para o vestibular. As aulas são mais longas, densas e complexas e a carga de leitura obrigatória é bem pesada”. Apesar de tudo, a futura psicóloga acredita que o esforço vale a pena. 

Leonardo relata situação semelhante. Para o estudante de medicina, a principal diferença é a falta de exercícios em forma de questão para treinar o conteúdo aprendido. “É mais difícil do que estudar para o vestibular”, opina. Com a volta às aulas na pandemia, a rotina de estudos deve mudar bastante e ser mais motivadora.

A relação com colegas e professores no ensino remoto

Se relacionar atrás de telas pode ser um grande desafio até para os menos tímidos e é mais uma das questões a serem vencidas no período de atividade remoto. A relação com os colegas e professores pode ser mais complexa de ser cultivada e alimentada, mas não deixa de ser menos importante. 

“Eu sou bastante tímido. No EAD não sei a hora que tenho que parar de falar para não falarem duas pessoas ao mesmo tempo. Na maior parte do tempo, fico com a câmera fechada e ouvindo, mas o pessoal abre a câmera, conversa, então é bem legal”, conta Leonardo.

No entanto, Leonardo e Alessandra afirmam que houve bastante integração e momentos de interação para quebrar o gelo e deixar o clima mais agradável. “Eu tenho colegas de turma incríveis que se ajudam muito, especialmente nesse período tão complicado que estamos vivendo. E os professores, em sua maioria, são compreensivos e muito competentes”, opina Alessandra.

“Não vejo a hora”: a expectativa para o retorno às atividades

Quem passar no vestibular de 2022 pode ficar otimista! A volta às aulas na pandemia é praticamente uma realidade para o próximo semestre. Na USP, as aulas presenciais retornam em 4 de outubro. Na Unicamp elas começaram em setembro aos vacinados, com teste de Covid-19 para o retorno. 

Já na Unesp, o retorno está condicionado a cada município. Em cidades como Botucatu, onde houve vacinação em massa, as aulas serão retomadas primeiro. A PUC-SP se prepara para a retomada no próximo semestre.

A estudante Alessandra não esconde a emoção: “torço muito para que em 2022 as aulas sejam presenciais. Quero continuar participando de grupos de estudo e projetos de extensão. Pretendo fazer Iniciação Científica, cursos de idiomas, disciplinas em outros institutos e participar dos jogos universitários. Espero aproveitar ao máximo esses próximos anos de graduação”, planeja.

Os pró-reitores também são convidativos e, assim como os alunos, aguardam com entusiasmo a retomada presencial da vida universitária. A pró-reitora de graduação da USP,  Maria Vitória Lopes Badra Bentley, lembra que a universidade possui um dos maiores projetos de permanência estudantil do país e que está pronta para receber os novos calouros

“Estudem, participem dos vestibulares da USP – Fuvest e SiSU/ENEM, façam uso das ações afirmativas para ingresso na USP. Aos estudantes de escolas públicas, participem do Programa Vem pra USP”, incentiva.

O pró-reitor de graduação da Unicamp, Ivan Toro, convida a todos a participarem do processo seletivo de 2022: “Esperaremos a todos os alunos com muito carinho, na certeza de que a escolha da Unicamp dará muitos frutos na sua carreira acadêmica e profissional”, defende. 

O recado da professora Alexandra Geraldini, pró-reitora de graduação da PUC-SP, também é no sentido de oferecer motivação. “Continuem firmes em seus estudos e projetos de vida! Apesar de todas as dificuldades, muito foi aprendido com esta pandemia e são vocês os agentes principais das mudanças em nossas práticas sociais”.

É hora de se animar e não deixar a peteca cair. O sonho de entrar na universidade e seguir a carreira que tanto está batalhando está cada vez mais próximo. O aprovado do estratégia Leonardo, também está ansioso para começar: “Quando começar as aulas presenciais é que vai cair a ficha que a gente tá na faculdade de medicina, na USP”, finaliza.

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