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Etnocentrismo: conceito, características e como é cobrado no Vestibular

Data 30/09/2019

Olá pessoal, tudo bem? Aqui é o Marco Túlio, professor de História do Estratégia Vestibulares. Hoje vamos falar sobre um conceito bastante recorrente em provas de vestibular: o etnocentrismo.

Mas o que significa etnocentrismo e como é cobrado na prova? Em linhas gerais, podemos defini-lo de uma maneira bem simples. Etnocentrismo é a visão de mundo produzida a partir de nossos próprios valores, modelos e ideias.

Etnocêntrico tende a julgar, de maneira preconceituosa, culturas e experiências humanas distintas da sua, mesmo sem conhecê-las. Essa leitura nasce do choque de culturas, ou seja, de quando nos deparamos com algo muito distinto do que entendemos como nossa identidade.

etnocentrismo
Asian peoples, Gustav Mutzël, litografia, 1894. Fonte: Wikimedia Commons.

Em diversos momentos da História, esse preconceito fez com que o embate entre duas ou mais culturais resultasse no extermínio de uma delas. A esse processo denominamos de etnocídio, ou genocídio cultural.

A cultura que dispõe de condições de se impor sobre as demais se apresenta como a única leitura possível da realidade, eliminando traços de outras culturas, como língua e costumes.

O contrário do etnocentrismo é a alteridade. A capacidade de se colocar no lugar do outro reconhecendo seu direito de possuir valores culturais distintos do seu.

Na Antropologia, ciência dedicada ao estudo das culturas humanas, essa interação despida de preconceitos é chamada de relativismo cultural, no qual se busca conhecer os valores, crenças e ideias de uma determinada sociedade levando em conta seu próprio contexto.

Para dar um exemplo, quando um antropólogo deixa uma cidade como São Paulo para estudar as formas de cura existentes entre os Kaxinawa, povo indígena que habita a fronteira entre Brasil e o Peru, ele deve levar em conta as especificidades culturais de seu objeto de estudo, sem deixar que sua análise seja contaminada pelos seus próprios valores.     

Etnocentrismo: como é cobrado em prova?

Os vestibulares apresentam grande preocupação com a história das mentalidades, ou seja, com as transformações no modo de pensar das experiências humanas dispostas no tempo. Devido a isso, o etnocentrismo é tema recorrente em diversas questões de vestibular, especialmente ao abordar dois períodos históricos:

  • a conquista da América pelos europeus, durante a Idade Moderna, e quais as visões eles tinham sobre os ameríndios encontrados;
  • O imperialismo no século XIX, ou seja, as formas de dominação impostas pelos europeus a territórios da África, Ásia e Oceania.

Como em ambos os contextos os europeus apresentam uma visão preconceituosa sobre os demais povos, o etnocentrismo por vezes é denominado eurocentrismo. Trata-se da noção de que os padrões culturais do continente europeu são superiores ao dos demais povos.

A seguir, veremos como estes assuntos foram cobrados por questões da Unesp na 1ª etapa.

A conquista da América

A partir da chegada de Cristóvão Colombo na América, em 1492, as monarquias europeias deram início a um processo de conquista do continente até então desconhecido pelos europeus.

Concepções políticas, econômicas, religiosas e sociais estranhas às populações ameríndias foram introduzidas no “Novo Mundo” pelos conquistadores. Não buscaram conhecer efetivamente os povos subjugados e suas próprias formas de organizar a vida em sociedade.

Os indígenas foram forçados a reconhecer os reis de seus conquistadores como seus representantes, a se converterem à fé católica e a trabalharem de maneira compulsória em atividades econômicas voltadas ao abastecimento dos mercados europeus.

Isso culminou no extermínio de diversas culturas, afinal todas as manifestações nativas eram consideradas indignas, bárbaras ou pecaminosas. Vejamos como este processo aparece em três questões da prova da Unesp:

Etnocentrismo: questão UNESP (2013)

[Os tupinambás] têm muita graça quando falam […]; mas faltam-lhe três letras das do ABC, que são F, L, R grande ou dobrado, coisa muito para se notar; porque, se não têm F, é porque não têm fé em nenhuma outra coisa que adoram; nem os nascidos entre os cristãos e doutrinados pelos padres da Companhia têm fé em Deus Nosso Senhor, nem têm verdade, nem lealdade a nenhuma pessoa que lhes faça bem. E se não têm L na sua pronunciação, é porque não têm lei alguma que guardar, nem preceitos para se governarem; e cada um faz lei a seu modo, e ao som da sua vontade; sem haver entre eles leis com que se governem, nem têm leis uns com os outros. E se não têm esta letra R na sua pronunciação, é porque não têm rei que os reja, e a quem obedeçam, nem obedecem a ninguém, nem ao pai o filho, nem o filho ao pai, e cada um vive ao som da sua vontade […].

O texto destaca três elementos que o autor considera inexistentes entre os tupinambás, no final do século XVI. Esses três elementos podem ser associados, respectivamente,

a) a diversidade religiosa, ao poder judiciário e às relações familiares.
b) à fé religiosa a ordenação jurídica e a hierarquia política.
c) ao catolicismo, ao sistema de governo e ao respeito pelos diferentes.
d) à estrutura política, à anarquia social e ao desrespeito familiar.
e) ao respeito por Deus, à obediência aos pais e à aceitação dos estrangeiros.

Comentários

O relato de um europeu acerca dos Tupinambá não possuírem as letras F, L e R em seu linguajar evidencia a ausência de alteridade em seu olhar sobre os nativos, afinal ele não reconhece neles Fé, Lei ou Rei. Em outras palavras, não são identificáveis a existência de crenças religiosas, um conjunto de normas que ordenavam suas relações sociais ou mesmo lideranças políticas, assim como sugere a alternativa B.

Isso se deve ao fato de o autor sustentar uma leitura eurocêntrica sobre povos não-europeus, uma vez que diante da não constatação de elementos que caracterizavam as sociedades europeias do Ocidente, tais como monarquias, sociedades hierarquizadas e ordenamentos jurídicos, ele parte do pressuposto de que estes povos viviam desorganizadamente.

Estando, portanto, correta a alternativa B. Analisemos as demais:

  • A alternativa A está incorreta. Ao mencionar a inexistência do “F”, o autor não se refere a pouca pluralidade de crenças. Ele se refere à completa inexistência delas. Além disso, também acredita não haver leis que regulem o modo de vida dos tupinambás. E isso não necessariamente pressupõe a existência de um poder judiciário. Por fim, quando diz não observar um “Rei”, acredita que os indígenas não dispunham de lideranças políticas.
  • A alternativa B também está incorreta. O respeito aos diferentes não é algo apregoado sequer nas sociedades europeias ocidentais. Um bom exemplo disso é a própria visão apresentada pelo autor, despida de alteridade.
  • As palavras “Fé”, “Lei” e “Rei” não sugerem desrespeito aos estrangeiros, pais e demais familiares. Elas sugerem a inexistência de instituições religiosas, jurídicas e políticas entre os nativos. Por isso, as alternativas D e E estão incorretas.

Etnocentrismo: o imperialismo na África e Ásia

Se saltarmos alguns séculos de História mundial, iremos nos deparar com outro conteúdo no qual o etnocentrismo é um conceitos-chave: o imperialismo, também chamado de neocolonialismo.

O termo se refere à de dominação de territórios na África, Ásia e Oceania por potências europeias em acelerado processo de industrialização, com o objetivo de obter novos fornecedores de matérias-primas e mercados consumidores de seus produtos.

Iniciada a partir da segunda metade do século XIX, essa dominação exercida pelos europeus em alguns casos se deu militarmente. A partir do envio de tropas que garantiam a conquista de novos territórios, e/ou economicamente, tornando mercados locais dependentes de produtos e recursos europeus.

Diferentemente do momento de conquista da América, quando a dominação foi justificada pela fé católica, no imperialismo a hegemonia das nações europeias sobre territórios de outros continentes foi realizada com o pretexto de que eles desempenhavam uma “missão civilizadora” pelo mundo.

Países como Inglaterra e França julgavam estrar prestes a atingir o ápice do progresso tecnológico e científico. Por isso, deveriam guiar os demais povos a se afastaram da barbárie e se tornarem civilizados.

É neste contexto que surge a ideia de que a espécie humana seria dividida em raças, e que cada uma delas apresentava traços biológicos distintos. Amparadas por teorias como o evolucionismo e o darwinismo social, ambas tidas como cientificamente comprováveis, as nações europeias defendiam a superioridade da raça branca sobre as demais, justificando sua dominação sobre outros povos.

Agora que vimos um pouco sobre o imperialismo e a leitura etnocêntrica feita pelas potências europeias sobre o mundo, vejamos algumas questões da Unesp envolvendo este assunto:

Etnocentrismo: questão Unesp (2009)

O mundo está quase todo parcelado e o que dele resta está sendo dividido, conquistado, colonizado. Pense nas estrelas que vemos à noite, esses mundos que jamais poderemos atingir. Eu anexaria os planetas, se pudesse… Sustento que somos a primeira raça do mundo e quanto mais do mundo habitarmos, tanto melhor será para a raça humana… Se houver um Deus, creio que Ele gostaria que eu pintasse o mapa da África com as cores britânicas.(Cecil Rhodes (1853-1902), O último desejo e testamento de Cecil Rhodes apud Leo Huberman, História da riqueza do homem)

O texto refere-se à:

a) partilha do continente africano deliberada em 1885, na Conferência de Berlim, que teve por objetivo maior promover a riqueza dos países pobres por meio dos investimentos europeus.
b) expansão europeia, realizada segundo os preceitos mercantis, que visava ao acúmulo de metais preciosos abundantes e pouco valorizados pelos habitantes nativos do continente africano.
c) procura de novos mercados para a produção industrial e os capitais bancários europeus, prejudicados pela instabilidade política da América Latina, que impedia o crescimento das trocas.
d) expansão imperialista na África, liderada pela Inglaterra e França no século XIX, ligada ao capitalismo industrial, evidenciando a ideia de superioridade e de preconceito contra os colonizados.
e) fragmentação do continente africano desde meados do século XIX para garantir a ajuda aos nativos que, incapazes de explorar suas próprias riquezas, necessitavam de capitais europeus.

Comentários

O trecho traz uma leitura etnocêntrica, no qual a superioridade europeia é justificada pela noção de que a raça branca era superior às demais. Isso justifica o processo de dominação exercido pelos europeus em continentes como África, Ásia e Oceania a partir da segunda metade do século XIX, conhecido como imperialismo.

Feitas essas considerações, a alternativa D é a resposta. Vejamos as demais alternativas:

  • A alternativa A está incorreta. A Conferência de Berlim tinha o objetivo de formalizar os territórios conquistados pelas nações europeias no século XIX, evitando que a competição existente entre elas resultasse em conflitos armados.
  • A alternativa B está incorreta. A corrida imperialista era orientada pelo capitalismo industrial. O conjunto de práticas econômicas que denominados de mercantilismo foram preponderantes entre os séculos XVI e XVIII, na Idade Moderna.
  • A disputa por novos mercados consumidores não se deu em decorrência de questões políticas na América Latina. O motivo foi o aumento incessante da produção industrial das economias europeias. Assim sendo, a alternativa C está incorreta.
  • A alternativa E está incorreta. O relato existente no enunciado não sugere a concessão de auxílio financeiro para os povos africanos, mas sua submissão pelos britânicos.

Então é isso, pessoal!! Espero que o artigo tenha sido útil para seus estudos. Siga-me nas redes sociais e acompanhe nosso blog. Sempre publicaremos dicas e conteúdos gratuitos. Um abraço e até a próxima!

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Prof. Marco Túlio

Prof. Marco Túlio

Graduado em História pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas) e em Ciências do Estado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente sou mestrando em História pela UFMG.

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