Cuidar da saúde mental é indispensável aos estudantes em fase de vestibular e é um passo importante para a aprovação nas provas. Apesar de o tema estar cada vez mais em evidência, pode ser difícil identificar quando a ansiedade, depressão e outros transtornos estão tomando conta do psicológico, prejudicando os estudos e a vida como um todo. 

A questão possui tanta importância que foi o tema da Redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2020: “O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira”, quando se chamou atenção ao preconceito e discriminação contra pessoas com transtornos mentais (psicofobia). 

O Setembro Amarelo, mês de prevenção ao suicídio, é uma ótima data para o debate sobre essas questões, mas não podemos esquecer que é preciso estar alerta à questão diariamente. Temos que observar em nós e em quem está próximo os sintomas e sinais de quando algo não vai bem e buscar a ajuda necessária. 

Para que você tenha uma relação saudável com as provas que estão por vir e compreenda a importância da saúde mental para a aprovação que tanto almeja, o Estratégia Vestibulares conversou com profissionais de saúde mental e preparou essas dicas. 

Desfazer os “nós” dos problemas mentais é um passo rumo à aprovação. Colagem: Lucas Zanetti

Por que tantos estudantes estão com a saúde mental prejudicada?

Um estudo publicado no Jornal Brasileiro de Psiquiatria em 2020 mostra que a incidência de Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) entre jovens pré-vestibulandos chega a 41,4% dos entrevistados. Uma outra pesquisa, divulgada pelo Brazilian Journal Health Review, revela que 80,3% dos estudantes em fase de vestibular apresentam algum grau de estresse. As mais afetadas são mulheres e pessoas de baixa renda.

O período é de pressão, cobrança e de ansiedade pela aprovação. As redes sociais e a pandemia contribuem para agravar ainda mais o problema, como veremos a seguir. Conversamos com dois especialistas para compreender a questão e dar valiosas dicas que vão te ajudar a cuidar de si e auxiliar também na aprovação.

Pressão familiar e autocobrança

A psicóloga Bruna Ballen explica que o período é de altas expectativas tanto para o estudante quanto para os amigos e familiares: “esse período de preparo para o vestibular envolve muitas dúvidas sobre a escolha profissional, medos, inseguranças, mudanças de casa, de rotina e futuro distanciamento de pessoas importantes”, explica.

Além disso, ela lembra que o estudante sofre, além da autocobrança, a pressão direta ou indireta das famílias. Ballen cita como exemplo estudantes que são os primeiros da família a cursarem o ensino superior ou os que dividem o tempo dos estudos com trabalho remunerado e acabam acumulando “sobrecarga e preocupação com relação à ser aprovado neste ano ou não”. 

A psicóloga explica que o ambiente do vestibular é extremamente competitivo e que a questão da alta concorrência pode dar uma falsa sensação de que a aprovação sozinha atesta a inteligência e o esforço de cada um o que, segundo ela, não corresponde à realidade. 

“Assim, muitos estudantes podem se ver pressionados a atender a essa expectativa, cobrando-se de passar horas estudando, deixando de socializar, exigindo muito mais de si e se achando insuficiente”, elucida.

Redes sociais e a bolha do mundo perfeito

O psiquiatra e professor do Estratégia Med, Dr. Thales Thaumaturgo, cita as redes sociais como um problema a ser notado. O médico lembra que, na lógica das redes, todos parecem ter a vida perfeita, com sucesso e sem falhas. “Cria-se uma competição desigual, onde a vitória deve ser sempre certa, e os que falham fazem parte de uma minoria, são vistos como fracassados”, avalia.

O professor lembra que, fora da bolha das redes sociais, que cria metas de vida irrealistas, os transtornos psiquiátricos estão entre os dez principais motivos de ajuda médica na atenção básica: “fora do mundo virtual, somos o país da depressão e da ansiedade, liderando os números na América Latina”.

Ficou pior na pandemia

Os especialistas afirmam que a pandemia trouxe condições que agravam os sintomas mentais. A mudança abrupta de rotina, o isolamento social, a perda de entes queridos e o medo devido ao alto risco à saúde, por si só, são problemas a serem enfrentados por todos. No entanto, entre os vestibulandos, existem agravantes: a pandemia afetou a estrutura dos vestibulares e de ingresso ao ensino superior, gerando mais ansiedade e incertezas.

“Com a pandemia, perdemos alguns referenciais que passavam certa segurança, o próprio calendário de provas, o cronograma de estudos, a forma de aprender, o que tornou a vivência de jovens mais angustiante”, afirma Bruna. 

Manter a rotina de estudos em meio a perda de entes queridos e a uma crise sanitária não é nada fácil, principalmente pela falta de interação e contato afetivo com amigos e colegas. A carga emocional sem o suporte adequado pode agravar os sintomas de ansiedade e depressão, fenômeno que foi sentido em todo o mundo.

A questão da mudança de hábito também é notada pelos profissionais. O Dr. Thales cita a inversão do ciclo do sono, a falta de atividades físicas e a intensificação do convívio familiar como exemplos que podem afetar negativamente os jovens. Já a psicóloga Bruna lembra da insegurança em relação ao futuro e a saturação do uso de telas, que agora servem para estudos, lazer, socialização e trabalho.

Pandemia e isolamento agravam problemas de saúde mental em estudantes. Foto: Unsplash

Dicas de saúde mental para estudantes em fase de vestibular

É preciso criar formas de driblar a pressão, o estresse, a autocobrança excessiva e incluir práticas saudáveis no dia a dia. Os especialistas são unânimes em afirmar que equilíbrio é a única forma de garantir uma boa rotina de estudos sem prejudicar a saúde física e mental. 

Estando com a ansiedade e o estresse controlados, a chance de assimilar os conteúdos e não errar no dia da prova é maior, otimizando todo o trabalho e esforço dos estudos. As dicas abaixo vão te guiar à práticas saudáveis de saúde mental e te ajudar na aprovação.

1 – Mantenha uma rotina com metas honestas

Criar uma rotina, estabelecer horários e objetivos diários e semanais é importante para ajudar na organização, produtividade e dar a sensação de dever cumprido no fim do dia. Criar cronogramas de estudo, usar instrumentos de organização como calendários, lousas e post-its podem ajudar a criar um mapa visual para a aprendizagem. 

O Dr. Thales ressalta a importância da rotina, mas alerta que elas devem ser “honestas consigo mesmo, com seu corpo e com sua saúde mental”. É importante lembrar que essa rotina não é apenas sobre o ato de estudar, mas também sobre horários para dormir, acordar, se alimentar e ficar em frente às telas do computador e celular. 

2 – Fale sobre seus medos e expectativas

“Quando não falamos sobre o que nos assusta, o medo cresce e temos a ilusão de que devemos enfrentá-lo sozinhos”, adverte Bruna Ballen. A psicóloga aconselha que o compartilhamento dos problemas, pensamentos e inseguranças é crucial para a garantia da saúde mental. 

“Identificar e se valer de uma rede de apoio como professores mais próximos, algum familiar e/ou amigos com quem possam compartilhar se tem notado sensações diferentes, preocupações excessivas e alterações emocionais, do sono e alimentação, por exemplo, é um primeiro passo”, afirma.  

A rede de contato de pessoas que estão passando pela mesma situação pode contribuir muito para desabafos e compartilhamento dessas questões. Portanto, nada de guardar as angústias para si!

Ligue para um amigo. Foto: Unsplash

3 – Pratique atividades físicas regularmente

A prática regular de atividades físicas é importante para manter em equilíbrio uma série de funções do nosso organismo, entre elas a famosa liberação da serotonina e endorfina, hormônios ligados ao bem-estar. Na hora de cuidar da saúde mental, vale a máxima “corpo são, mente sã”, já que o organismo é um só. 

O Dr Thales explica que a atividade física, por si só, “já é uma atividade terapêutica, pois serve de tratamento e prevenção para episódios de depressão e casos de ansiedade, além de melhorar o desempenho físico e mental”.

Na hora de escolher a atividade física que vai praticar, Ballen é categórica em defender que seja algo do agrado do praticante, algo que vá desde alongamentos, caminhadas até atividades mais intensas como musculação, luta, dança, futebol e natação. 

4 – Olhe o vestibular como uma etapa

Uma das maiores ansiedades do vestibulando é com relação ao futuro e o pós-prova. E se der errado? E se não passar? Se passar vou pra onde? O medo com relação ao ano seguinte é um dos principais motivos de estresse entre os estudantes. A psicóloga Bruna adverte que é preciso parar de ver o vestibular como um “monstro” e passar a vê-lo como realmente é: uma prova.

“Olhar para o vestibular como uma tentativa para um caminho e não o objetivo final, ou como prova de sucesso e inteligência. Ele é uma etapa de um dos caminhos possíveis para uma carreira e não define suas habilidades”, orienta.

5 – Respeite o padrão e a qualidade do sono

Muitas pessoas subestimam os milagres de uma noite bem dormida para a saúde mental. Agora imagina várias noites constantes de um descanso noturno justo? É muito importante, além de manter o padrão, criar hábitos que contribuam para a qualidade do sono. 

“Devemos evitar consumo excessivo de café e chimarrão, além de evitar as telas no período noturno. É preciso criar uma rotina saudável para dormir, evitando também exageros”, aconselha o psiquiatra.

Sobre o café, o queridinho de muitos estudantes, o médico alerta: “o excesso pode causar insônia, aumento da ansiedade e tensão muscular, por isso, precisa ser consumido com equilíbrio”. 

A terapeuta Bruna ressalta a importância de criar uma sequência de ações que promovam o relaxamento e preparem a mente para o descanso, seja por meio do consumo de chás calmantes, de um banho relaxante antes de dormir, evitando as telas e os estimulantes.

6 – Não ultrapasse seus limites

Não respeitar os limites é exigir mais do corpo e da mente do que estes são capazes de oferecer. Quando isso acontece, os danos são maiores que os benefícios. No vestibular, isso pode significar queda de rendimento, ansiedade e nervosismo, que desencadeiam os “brancos” na hora da prova, por exemplo.

A dica da Bruna para esse caso é sempre refletir sobre as ações e os limites de cada um. “Em momentos de muita ansiedade e altas exigências, vale se perguntar o que é possível de ser feito e o que está sob seu controle”, explica. Ela lembra que não é tudo que podemos controlar e que fazer o melhor, dentro de uma rotina saudável, já é suficiente e produtivo.

O exercício de autoconhecimento é pra vida toda e não só para a fase do vestibular. É importante lembrar que o que funciona para um, pode não funcionar para outro. Os limites são diferentes e só você pode saber qual é o seu.

7 – Pedir ajuda é um ato de grandeza

A preocupação excessiva, quando interiorizada e silenciada, se torna angústia e sofrimento, sentimentos que são base para transtornos depressivos e ansiosos. A psicóloga Bruna Ballen lembra que existem uma série de fatores externos que contribuem para o sofrimento individual. Por isso, é muito provável que seus colegas, amigos e familiares compartilhem de muitas dores e preocupações das quais você se queixa. 

“Discutir coletivamente quais fatores socioeconômicos estão influenciando negativamente nossa forma de viver é parte da prevenção e luta por saúde coletiva e saúde mental”, explica. Por isso, a resposta nunca é o isolamento. É possível encontrar soluções coletivas para problemas enfrentados nessa etapa da vida.

O Dr. Thales lembra que quem está próximo são os primeiros a verem se tem algo errado, por isso faz o apelo: “ouçam seus pais, namorados, amigos, professores, porque são as primeiras pessoas a notar que você pode estar mais triste, desanimado e precisa de suporte. Não tenha vergonha de pedir ajuda, na verdade, isso é um ato de grandeza e humildade”.

8 – Busque auxílio profissional

É comum o estigma de que pedir ajuda de psicólogos ou psiquiatras é sinal de fraqueza ou coisa de gente “doida”, mas esse preconceito com os profissionais da saúde mental só servem para piorar a situação da saúde mental no Brasil. A questão foi, inclusive, discutida no último Enem.

“Quando falamos em ajuda profissional, muitas vezes há um receio por já associarmos ao uso de medicamentos. No entanto, não se trata apenas disso e sim da identificação de sintomas, uma escuta responsável e sigilosa e a nomeação de um estado emocional. Tudo isso pode tranquilizar a pessoa que não sabe porque está se sentindo de determinada forma, além de conhecer e poder discutir sobre os tratamentos possíveis”, orienta a terapeuta.

O psiquiatra lembra da psicofobia, o preconceito contra transtornos mentais. Esse preconceito afasta as pessoas do tratamento necessário e impede o acompanhamento que pode amenizar ou liquidar o transtorno a ser tratado. “Todos nós precisamos de acolhimento uma hora”, lembra o Dr. Thales. 

Os dois profissionais recomendam a busca por auxílio sempre que necessário. Lembram, também, do Centro de Valorização à Vida (CVV) que atende a todos pelo número 188. 

Foto: Reprodução/CVV

9 – Não é sobre quantidade, é sobre qualidade

Para o Dr. Thales, é importante ter em vista que horas de qualidade são mais importante do que horas sem preparo. Esse preparo deve ser feito o quanto antes e diz respeito a estar bem consigo mesmo, organizando-se de forma confortável, com metas realistas de estudo e priorizando a saúde e o bem estar. O preparo não é só acadêmico.

“Precisamos entender que um bom rendimento escolar não está diretamente relacionado com o número de horas estudadas, e sim com a qualidade delas. Isso tem a ver com estar bem consigo mesmo, estar bem mentalmente e fisicamente”, recomenda.

10 – Sempre é possível recomeçar

O medo de não passar no vestibular, de ir mal nas provas e colocar à prova todo o esforço e estudos de um ano inteiro de preparação para o vestibular pode ser mentalmente desgastante. A frustração de não conseguir a aprovação após tanto trabalho, pode ser um balde de água fria que pode servir como gatilho para transtornos mentais.

Nesse sentido, após todas essas dicas, os especialistas lembram que sempre é possível tentar de novo e recomeçar. Eles destacam que o estudante precisa lembrar que o esforço não foi perdido e que o vestibular não mede, necessariamente, a capacidade de cada um. Se não foi aprovado onde queria, é importante entender que dá pra tentar de novo, com mais conhecimento e experiência. O importante é não desistir dos seus sonhos!

O Estratégia vai estar sempre com você!

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