Lançado em 1997, o álbum “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais MC’s, consegue transparecer tudo o que a palavra “disrupção” significa: aquilo que causa rompimento ou destruição, algo que gera mudança, aquilo que quebra os paradigmas.

Segundo Arthur Dantas Rocha, autor do “Livro do Disco” sobre o álbum, “‘Sobrevivendo ao inferno’ leva o rap a um salto qualitativo tanto lírica quanto esteticamente”.

Ele contextualiza: “novas tecnologias de produção de música estavam chegando ao Brasil e foram de alguma forma contemplados na produção deste disco. Com relação à cultura brasileira, gosto de pensar que era uma leitura sobre a vida nas periferias do Brasil feita por periféricos com algum requinte sociológico e um brilho lírico sem igual”.
 

O disco da década de 90 é disruptivo tanto para sociedade, como para a música nacional. No artigo de hoje, o Estratégia Vestibulares mostra para você, do lançamento até a aparição na prova da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), como a obra tem relevância e importância para a cultura brasileira. Venha saber porque “Sobrevivendo no Inferno” é uma disrupção no Brasil! 

Lançamento

“Sobrevivendo no Inferno” foi lançado para o mundo em 1997. Com mais de 200 mil cópias vendidas no mês de estreia, o disco logo se tornou um sucesso. Segundo o próprio Racionais MC’s, o álbum vendeu cerca de 1,5 milhão de cópias oficialmente, e explodiu no mercado alternativo, nos famosos camelôs, tendo mais de quatro milhões de vendas. 

Os números são impressionantes, considerando que o CD foi lançado por uma gravadora independente, a Cosa Nostra. Fonográfica essa que já trabalhou com outros grupos de rap, como o RZO e o Conexão do Morro. Desde o lançamento de “Sobrevivendo no Inferno” até os dias atuais, a gravadora que distribui os discos dos Racionais MC´s.

Klaus Mitteldorf/Divulgação

Sobre o álbum

O álbum é composto por 12 músicas. Nelas, o grupo traz muitos olhares, perspectivas e versões sobre como é a vida de quem é enquadrado pela Polícia Militar, de quem viveu na cadeia, sobre o crime, o mundo das drogas, sobre a fé nas periferias e uma série de outros temas sociais. Em cada música, existe uma história sobre o cotidiano de quem vive nas “quebradas”.

O disco carrega consigo um forte contexto social, político e racial que se perpetua até os dias atuais. Fazendo um paralelo entre o contexto da época e o atual, Arthur Rocha Dantas explica que o conceito de necropolítica, do pensador camaronês Achille Mbembe, é capaz de traçar semelhanças com os dias atuais.

“A necropolítica, o regime onde determinados grupos são condenados à morte e ao cárcere, por exemplo, é uma expressão característica do neoliberalismo. Isso ajuda a pensar o lugar ao qual a população negra está relegada em nossa sociedade desde a escravatura e com especial urgência nos dias atuais”, afirma.

“Sobrevivendo no Inferno” foi um sucesso porque, de alguma forma, as 12 músicas têm um impacto enorme na discussão acerca de temas que envolvem desigualdade social, racismo e situações deploráveis da existência humana. Assim, o disco conseguiu ilustrar o que é a miséria no Brasil de forma particular e única. 

Veja também: Dia Internacional do Combate contra a Discriminação Racial


Abaixo, você confere a lista de 12 músicas do disco: 

  • Jorge da Capadócia;
  • Gênesis (Introdução);
  • Capítulo 4, Versículo 3;
  • Tô Ouvindo Alguém me Chamar; 
  • Rapaz comum;
  • Interlúdio;
  • Diário de um Detento;
  • Periferia é Periferia;
  • Qual Mentira Vou Acreditar; 
  • Mágico de Oz; 
  • Fórmula Mágica da Paz;
  • Salve. 

Legado de Sobrevivendo no Inferno

Segundo a Revista Rolling Stone Brasil, “Sobrevivendo no Inferno” ficou na 14ª posição na lista dos 100 melhores discos da música brasileira. O legado do álbum é enorme. Até hoje, músicas como “Diário de um Detento” ou “Mágico de Oz” tocam nas rádios, com letras que permanecem impactantes e atuais. 

Falando sobre como as músicas ilustram até hoje a realidade de muitos, Arthur afirma que “o público para o qual o disco é pensado, a população periférica pobre e negra (sempre temos que ter essa intersecção em mente), parece ter aprendido muito sobre os modos de sobrevivência que o disco tão eloquentemente expõe”. 

O autor do livro acredita que manifestações atuais ilustram a persistente relevância da obra em caracterizar as contradições brasileiras. “As armadilhas do ‘inferno’ são muitas e não é possível se descuidar. Acho que manifestações como as organizadas pelo movimento negro e o incêndio da estátua do Borba Gato, em São Paulo (SP) por um grupo organizado periférico mostra que as lições daquele disco foram bem aprendidas”, opina. 

Sobrevivendo no inferno no Vestibular

No ano de 2018, o livro “Racionais MC’s – Sobrevivendo no Inferno” foi lançado pela Companhia das Letras. O livro contém 160 páginas mostrando, além das músicas, fotos inéditas e informações sobre o grupo.

O livro foi lançado meses após a Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest) da Unicamp anunciar que a partir da seleção para o ano de 2020, a obra faria parte da lista de leitura obrigatória para o vestibular. 

Comentando sobre o processo de criação do livro, Arthur elucida que “de certa forma é um trabalho de uma vida inteira, já que desde 1993 eu vinha acumulando material sobre os Racionais. É como se eu tivesse um pressentimento que uma hora trabalharia com o tema. A escrita, propriamente dita, durou 7 meses no ano de 2019.”

Arthur atribui um dos grandes fatores para a obra ser incluída no vestibular o fato do disco ser universal. Ele defende que “o disco auxilia a levantar questões e a pensar o Brasil da Nova República, sobretudo dos últimos 25 anos. Ele é um manual de sobrevivência ao neoliberalismo, o inferno do título do disco, e como tal, ele interessa ao mundo de hoje com redobrada urgência, já que vivemos um período de ultra neoliberalismo”, completa. 

A obra está indo para seu terceiro ano presente no vestibular. Pensando nisso, o Estratégia perguntou para Arthur Dantas o que os alunos precisam para compreender a obra em sua plenitude. O autor aconselha:  

“Pense o disco como uma obra com início, meio e fim, como se todas as músicas tivessem ligação e fossem capítulos de um único livro, com um tema inequívoco. E que da faixa 1 até a introdução de ‘Capítulo 4 versículo 3’, está sendo apresentado todas as informações que são necessárias compreender para fruir plenamente as demais faixas.” 

“Sobrevivendo no Inferno” é um grande marco para a música brasileira, consagrando os Racionais MC’s como um dos maiores grupos do País. Até hoje é notável a relevância da obra, analisando o contexto de desigualdade social que o Brasil sofre.

Enfim, sempre lembrem, Estrategistas, “faz frio em São Paulo,pra mim tá sempre bom!” 

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