Há 20 anos os Estados Unidos da América sofria o maior ataque em seu território, o Atentado do 11 de setembro de 2001. Nele, a Al-Qaeda colocou em xeque a soberania norte-americana, atacando o seu principal símbolo econômico e militar, o World Trade Center e o Pentágono, respectivamente. Houve ainda um terceiro ataque infrutífero ao Capitólio, sede do poder político do país, mas que foi interrompido pelos próprios passageiros do Voo 93 da United Airlines, que retomaram o controle da aeronave e derrubaram o avião antes que ele chegasse a Washington.

Como resposta pela violência sofrida, 10 dias após o ataque terrorista, o recém-eleito presidente George W. Bush despertou o patriotismo dos estadunidenses e recebeu apoio internacional ao declarar a “Guerra ao Terror”, uma guerra em busca não apenas daqueles que planejaram o ataque, mas também a qualquer célula de terrorismo existente no mundo.

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“Vamos cortar os financiamentos dos terroristas, jogar uns contra os outros, fazê-los correr de um lugar para o outro até que não haja mais refúgio nem descanso. Vamos perseguir nações que ofereçam ajuda ou abrigo seguro ao terrorismo. Cada país tem uma decisão a tomar. Ou está do nosso lado ou do lado dos terroristas”, declarou Bush em 21 de setembro durante discurso no Congresso dos Estados Unidos.

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Foto: Shutterstock/Colagem: Isabela Giordan

O luto e o medo que permeou a sociedade norte-americana fez com que a população e governo Democrata, que eram contra ações intervencionistas, apoiassem o envio de tropas norte-americanas a países do Oriente Médio que supostamente estariam escondendo o líder do ataque, o árabe-saudita Osama bin Laden.

A busca por bin Laden transpassou governos e foi apenas em 2011 que o responsável pela Al-Qaeda foi encontrado e executado em um embate contra as tropas norte-americanas. Duas décadas depois, a Guerra ao Terror chega ao seu possível fim e deixa sequelas globais. Entenda:

Doutrina Bush: a guerra preventiva de George W. Bush

Além das imagens do ataque e da queda de “monumentos” da soberania norte-americana, outro registro importante daquele mesmo dia foi o momento em que George W. Bush, o recém-eleito presidente dos Estados Unidos, descobria que sua nação estava sob ataque.

Bush estava em uma escola infantil na cidade de Sarasota, na Flórida, ouvindo crianças lendo as suas primeiras palavras quando ouviu o sussurro de Andrew Card, seu então chefe de gabinete: “Um segundo avião atingiu a segunda torre. A América está sob ataque“. Naquele pequeno momento, o curso do século XXI e da sua gestão mudavam. O foco transformou-se em buscar e punir os culpados, onde quer que eles estivessem.

Naquela mesma manhã, Bush fez o seu primeiro discurso sobre o atentado e prometeu encontrar os responsáveis. À noite, essa mesma promessa foi repetida em um pronunciamento oficial transmitido nacionalmente. Dez dias após os ataques, o presidente foi ao Congresso norte-americano e discursou novamente, dessa vez pedindo o apoio dos partidos políticos, da população estadunidense e declarando a Guerra ao Terror.

“Uma dos feitos mais bem sucedidos do Bush foi aproveitar politicamente o atentado, porque ele conseguiu criar uma unidade nacional na Guerra ao Terror. Ele teve apoio dos Democratas e, mesmo após os Republicanos perderem o controle ao Senado, continuou a controlar a política nacional. Ele passa de um presidente deprimente para um dos maiores da história”, explica Alê Lopes, professora de Sociologia do Estratégia Vestibulares.

A ideia defendida pela Doutrina Bush era buscar os culpados pelo atentado e também qualquer tipo de célula terrorista ainda em ação. Ao conseguir a cooperação dos congressistas e do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), o governo também garantiu o dinheiro e a permissão necessária para enviar tropas norte-americanas para o Oriente Médio e fazer o primeiro contra-ataque em 7 de outubro do mesmo ano.

“O próprio nome já diz: é a guerra ao terror. Ou seja, nós vamos atacar, nós vamos invadir, nós vamos atirar e o que for necessário para barrar o terrorismo”, elucida Priscila Lima, professora de Geografia e Atualidades do Estratégia Vestibulares. 

Guerra ao Terror: mas, afinal, o que é terrorismo?

O termo “terror” como noção política surgiu na França, durante a Revolução Francesa, com a ideia de aterrorizar a população. Ou seja, uma forma de fazer uso da violência para intimidar. Esse “velho terrorismo” era associado diretamente a questões de nacionalidade e identidade. O ETA (Euskadi Ta Askatasuna) e o IRA (Exército Republicano Irlandês), por exemplo, são considerados grupos terroristas que utilizavam a violência como uma forma de reivindicar um projeto nacional. Já o atentado do 11 de setembro está em uma escala global.

“É muito difícil conceituar o que é terrorismo, já que existem múltiplas abordagens. O fato é que depois do ataque do 11 de setembro surgem muitos escritos sobre o tema. Algo que é consensual entre os pensadores é que esse atentado é diferente de tudo que veio antes”, aponta Lopes.

O novo terrorismo é possibilitado pelo desenvolvimento das tecnologias de comunicação e colocado em prática em quatro condutas:

  • Atos simbólicos de terrorismo que podem ser projetados para todo o mundo;
  • Células terroristas formadas por membros de diversos países unidos por uma missão;
  • Organização realizada em redes; e
  • Busca por uma reestruturação moral em escala global.

No caso da Al Qaeda, responsável pelo atentado nos Estados Unidos, houve o uso da violência e do terror para forçar e empoderar uma liderança política islâmica em escala mundial.

“Mais importante de entender o que é terrorismo, é preciso compreender o que causa o terrorismo. E esse é o maior desafio”, reforça a professora de Sociologia.

Assista a aula completa dos professores do Estratégia Vestibulares sobre o tema: 

“The Patriot Act”

Uma das primeiras ações do governo Bush logo após os atentados foi a assinatura do decreto do “The Patriot Act” (em tradução livre, “Ato Patriota), uma lei que permitia autoridades da segurança nacional e agências de inteligência tivessem acesso a todos os dados e informações de pessoas e organizações suspeitas de atuarem em aliança com células terroristas, garantia novas fiscalizações e deu acesso ao orçamento que permitiu a manutenção das tropas norte-americanas em “solo inimigo”.

Essa lei foi assinada em 26 de outubro de 2001 e permaneceu ativa até junho de 2015, quando foi substituída pelo “Freedom Act” (em tradução livre, “Ato de Liberdade”), em que diversos atos foram atualizados, inclusive o acesso irrestrito a dados pessoais.

Eixo do Mal

Pouco mais de quatro meses após os ataques, Bush retornou aos holofotes para fortalecer a doutrina escolhida para buscar os responsáveis pelos ataques. Em seu novo discurso durante a apresentação anual do relatório feito pela presidência para o Congresso norte-americano, o presidente apresentou o “Eixo do Mal”.

Esse conjunto de países, formado por Iraque, Irã e Coréia do Norte, seriam nações que ameaçavam a paz mundial devido a suas possíveis armas de destruição em massa e ligação com grupos terroristas. A indicação é que as tropas norte-americanas atacariam esses países com o intuito de prever um novo atentado.

Curiosidade: você sabia que o Brasil chegou a ser cogitado como um país do Eixo do Mal? Isso porque havia possíveis células terroristas, ligadas ao Hezbollah, próximo às Cataratas do Iguaçu, na fronteira entre Brasil e Paraguai.  

Entre os três países citados, o Iraque foi o que mais “sofreu” com a guerra preventiva, já que o embate entre Irã e Coréia do Norte resultou apenas em uma espécie de nova guerra fria, em que as ameaças de uso de armas nucleares abafaram possíveis invasões nesses territórios.

Afeganistão e Iraque: as nações mais afetadas pela caça aos terroristas

O Afeganistão não foi listado como um país do Eixo do Mal, mas foi o primeiro a ser contra-atacado pelos Estados Unidos. Na época sob o comando do Talibã, a acusação realizada foi de que o então governo estaria escondendo Osama Bin Laden, mandante dos ataques e líder da Al Qaeda.

Logo após o atentado, o governo norte-americano determinou um prazo para que o Talibã colaborasse e entregasse os membros do grupo terrorista e, principalmente, expulsasse bin Laden do território. Porém, o pedido foi negado já que os Estados Unidos não enviou “provas concretas” de que o saudita estaria ligado aos ataques.

Ao fim do prazo, tropas norte-americanas e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) invadiram o território afegão, expulsaram o Talibã do poder, reestabeleceram a democracia no país e mantiveram tropas até agosto de 2021, criando a mais longa guerra dos Estados Unidos.

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A queda da Saddam Hussein

Após atacar o Afeganistão, o próximo alvo do governo estadunidense foi o Iraque, porém essa nova guerra não foi tão bem aceita como a primeira. A justificativa norte-americana era de que Saddam Hussein, líder do país, tinha ligações com a Al Qaeda e que havia o desenvolvimento de armas nucleares no território.

“Se você acompanhar a história da Al Qaeda e do Saddam Hussein, vai perceber que elas não se cruzam. Inclusive, eles estão em lados opostos. O próprio Hussein fez declarações de ser contra a Al Qaeda. A invasão ao Afeganistão não foi barrada pelo Conselho de Segurança da ONU, no caso do Iraque a França votou contra, já que não havia materialidade para essas provas”, relata Priscila Lima.

Havia ainda mais um agravante para a resistência à invasão ao Iraque. Apesar de Saddam Hussein ser um ditador, ele era uma figura centralizadora na região, conseguindo lidar com os diversos grupos que existiam no país. A queda do ditador deu margem para que outro grupo terrorista nascesse: o Estado Islâmico.

“Com a invasão dos Estados Unidos no Iraque, a Al Qaeda perdeu aquela barreira que o Saddam Hussein fazia e conseguiu chegar ao Iraque. Ao chegar ali, a Al Qaeda, que é um grupo sunita, encontrou diversos governos ao redor que são xiitas, como o Irã, e a ascensão de governos xiitas no país”, aponta a professora de Geografia.

Com o crescimento de grupos xiitas no poder, a Al Qaeda se deparou com brechas para fazer alianças com sunitas que deixaram de ser representados nesses novos governos.

“Quando os norte-americanos chegam ao país, decidem ‘organizar’ e nessas eleições os xiitas sobem ao poder, os sunitas saem de cena e passam a ter alianças com a Al Qaeda. Ou seja, a Al Qaeda não estava forte no Iraque, mas com a chegada os Estados Unidos, o grupo arranja um espaço se aliando a esses sunitas que deixaram de ter essa representatividade política e é desse ponto que surge o Estado Islâmico”, explica Lima.

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Em março de 2003, tropas norte-americanas invadem o Iraque. Em dezembro do mesmo ano, Saddam Hussein é capturado e retirado do poder. Em 2006, Hussein é considerado culpado por crimes contra a humanidade e enforcado. Em 2014 surge oficialmente o “Estado Islâmico”, fruto de pequenos grupos jihadistas que irromperam no início da Guerra do Iraque.

O fim de Osama Bin Laden

Apesar das guerras travadas em sua busca, o fim da procura por Osama bin Laden aconteceu apenas dez anos depois dos ataques, em 2011. A tropa comandada pelo governo de Barack Obama encontrou o saudita no Paquistão, em um esconderijo a 120 quilômetros de Islamabad, capital do país.

O ataque durou apenas 38 minutos, sendo que mais da metade foi dedicada a recolher materiais presentes na cena onde bin Laden foi capturado. Seu corpo foi recolhido pelas tropas responsáveis pela operação e, após o reconhecimento e confirmação de sua identidade, velado seguindo as tradições da fé islâmica e afundado no Mar Arábico.

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Foto: Shutterstock

Consequências da Guerra ao Terror para o mundo

Assim como os atentados do 11 de Setembro, a Guerra ao Terror mudou o curso da humanidade, seja pelo desenvolvimento de novas tecnologias voltadas para embate até mesmo ao desencadear a atual situação econômica mundial.

“Imagina você fazer uma Guerra ao Terror e enviar tropas e mais tropas para o Afeganistão, o que inclui os gastos de enviar as tropas e mantê-las em segurança. Para ter esse dinheiro foi preciso incentivar o consumo, com isso houve a queda dos juros para combater o medo de consumir causado pelo atentado. Essa redução evoluiu em uma escala tão grande que resultou nas falências múltiplas, que em 2008 resultaram na crise da bolha imobiliária nos Estados Unidos. Os gastos que foram feitos para levar uma Guerra ao Terror também foram base para uma crise econômica”, explica a geógrafa.

Essa situação também retirou dos Estados Unidos a hegemonia inquestionável do dólar, conquistada anos antes ao fim da Guerra Fria. A economia norte-americana nunca mais foi a mesma após a Guerra ao Terror.

Outra consequência foi o surgimento de novas células terroristas e também a mudança das formas de ataques. Atualmente, há mais atentados isolados, como os Ataques de novembro de 2015 em Paris, em que mais de 130 pessoas foram mortas, e o surgimento do Estado Islâmico.

“Ou seja, a Guerra ao Terror é o fim do terrorismo ou ela cria novos desmembramentos dentro do próprio terrorismo e esse cenário se torna cada vez mais complexo? Se antes existiam três ou quatro grupos terroristas, hoje em dia é muito mais intrincado”, questiona Priscila Lima.

De acordo com o estudo “Cost of War”, desenvolvido pela Brown University, os Estados Unidos gastaram cerca de oito trilhões de dólares na guerra, já em número de vidas cerca de 930 mil foram mortas diretamente pelo embate, sendo quase 400 mil civis.

A Guerra ao Terror acabou?

Mesmo após a captura de Bin Laden, o investimento de trilhões na disputa e o surgimento de novos grupos terroristas, é correto afirmar que a Guerra ao Terror acabou?

“Com a retirada das tropas território afegão agente pensa ‘E agora? Para qual caminho vai?’, porque o terrorismo não acabou e a Guerra ao Terror? Já que eles desocuparam o Iraque, desocuparam o Afeganistão, qual é o desfecho? A gente está em um momento histórico no olho do furacão, a gente não sabe muito bem para onde isso irá caminhar”, questiona a professora de Sociologia.

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Foto: Shutterstock

Para Alê Lopes, o que aparenta é que estamos vivenciando o fim de um ciclo e mesmo que a luta contra células terroristas não tenha terminado, ao menos a Doutrina Bush chegou ao fim. Porém, para qual caminho essa disputa está se direcionando ainda é algo que descobriremos nessa nova década.

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Indicações de filmes e séries sobre a Guerra ao Terror

Veja as obras cinematográficas indicadas pelos professores do Estratégia Vestibulares e pelo Blog do EV sobre o tema:

Crash – No Limite (2004)

Indicação: Professor Marco Túlio

"É um filme que mostra o cenário dos Estados Unidos após os atentados do 11 de setembro, que é de extrema desconfiança sobre aquele que veio do Oriente Médio, há conflitos raciais que ganham força e que mostra os impactos no cotidiano do estadunidense."

Sinopse: Jean Cabot (Sandra Bullock) é a rica e mimada esposa de um promotor, em uma cidade ao sul da Califórnia. Ela tem seu carro de luxo roubado por dois assaltantes negros. O roubo culmina num acidente que acaba por aproximar habitantes de diversas origens étnicas e classes sociais de Los Angeles: um veterano policial racista, um detetive negro e seu irmão traficante de drogas, um bem-sucedido diretor de cinema e sua esposa, e um imigrante iraniano e sua filha.

A Hora mais Escura (2012)

Indicação: Professora Priscila Lima

"Esse filme mostra as últimas horas e momentos do Osama Bin Laden." 

Sinopse: Os ataques terroristas sofridos pelos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001 deram início a uma época de medo e paranoia do povo americano em relação ao inimigo, onde todos os esforços foram realizados na busca pelo líder da Al Qaeda, Osama bin Laden. Maya (Jessica Chastain) é uma agente da CIA que está por trás dos principais esforços em capturar Laden, por ter descoberto os interlocutores do líder do grupo terrorista. Com isso ela participa da operação que levou militares americanos a invadir o território paquistanês, com o objetivo de capturar e matar bin Laden.

Fahrenheit 11 de Setembro (2004)

Indicação: Professora Alê Lopes

"Esse documentário é super polêmico e eu vi no cursinho quando estava estudando para o vestibular e revi recentemente. Ele é bem interessante, é preciso tomar cuidado porque ele é polêmico, mas é um documentário que feito com base em uma série de pesquisas." 

Sinopse: O diretor Michael Moore investiga como os Estados Unidos se tornaram alvo de terroristas, a partir dos eventos ocorridos no atentado de 11 de setembro de 2001. Os paralelos entre as duas gerações da família Bush que já comandaram o país e ainda as relações entre o atual Presidente americano, George W. Bush, e Osama Bin Laden.

Ponto de Virada: 11/9 e a Guerra ao Terror

Indicação: Redação Blog Estratégia Vestibulares

Sinopse: essa série documental original da Netflix acompanha os ataques terroristas lançados contra o World Trade Center pela Al-Qaeda em setembro de 2001. O documentário explora desde as origens da organização terrorista na década de 1980 até a violenta resposta dos EUA no Oriente Médio depois dos ataques.

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