Comemorado no dia oito de outubro, o dia do nordestino visa homenagear a região através da valorização das suas culturas, paisagens, hábitos, culinárias e demais características dos nove estados: Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe.

Com 1,5 milhão de quilômetros quadrados e mais de 50 milhões de habitantes, o nordeste brasileiro tem personalidades de todas as artes. Para comemorar essa data, optamos por destacar escritores nordestinos e suas obras, sendo elas contemporâneas ou não. Acompanhe abaixo.

Patativa do Assaré (1909 — 2002)

Cearense, Patativa foi um poeta popular que retratou a vida do nordestino sertanejo. Suas obras foram traduzidas em diversos idiomas e estudos em universidades como a Sorbonne, na França.

Eu e o Sertão

Sertão, argúem te cantô,

Eu sempre tenho cantado

E ainda cantando tô,

Pruquê, meu torrão amado,

Munto te prezo, te quero

E vejo qui os teus mistéro

Ninguém sabe decifrá.

A tua beleza é tanta,

Qui o poeta canta, canta,

E inda fica o qui cantá.

Patativa do Assaré foi a inspiração para a criação do dia do nordestino na cidade de São Paulo, região com maior concentração de nordestinos de todo o país, exceto no próprio nordeste. O poeta faleceu aos 93 anos, em Assaré, no Ceará.

Jorge Amado (1912 — 2001)

Baiano e nascido em Itabuna, Jorge Amado foi um romancista modernista que trouxe a Bahia como ponto central de diversas obras. Foi cobrado em vestibulares como a Fuvest, por exemplo, na sua obra Capitães da Areia, mas tem em Gabriela, cravo e canela, seu principal romance, tornando-se inclusive novelas globais.

Com tom político e social, Jorge foi também jornalista do Diário da Bahia, deputado federal pelo estado de São Paulo e é o segundo autor brasileiro mais vendido no exterior, atrás apenas de Paulo Coelho.

Castro Alves (1847 — 1871)

Nascido na vila de Curralinho — hoje de nome Castro Alves —, na Bahia, foi chamado de Poeta dos Escravos, por expor problemas sociais da sua época em suas obras, como em Navios Negreiros, por exemplo.

Trecho de “Navios Negreiros”

Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura… se é verdade

Tanto horror perante os céus?!

Ó mar, por que não apagas

Co’a esponja de tuas vagas

De teu manto este borrão?…

Astros! noites! tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão! 

Castro Alves foi um representante da Terceira Geração Romântica no Brasil e se formou na faculdade de Direito de São Paulo, na mesma turma de Rui Barbosa. Como muitos da época, faleceu de Tuberculose aos 24 anos.

Gonçalves Dias (1823 — 1864)

Autor da clássica e muito citada Canção do Exílio, Gonçalves Dias foi indianista da Primeira Geração Romântica. Nascido no Maranhão, o autor estudou na Universidade de Direito de Coimbra, em Portugal, onde escreveu sua maior obra, que fala da saudade do Brasil.

Trecho de “Canção do Exílio”

Minha terra tem palmeiras

Onde canta o Sabiá,

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores.

Como você pode perceber, o poema foi citado inclusive no hino nacional, no trecho “nossos bosques têm mais vida, nossa vida no teu seio mais amores”. Gonçalves Dias exaltou o índio em diversas obras, e tem I-Juca Pirama, como o poema épico indianista mais importante do país. Ele morreu na costa do Maranhão, em um naufrágio aos 41 anos.

João Cabral de Melo Neto (1920 — 1999)

Primo de Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto também nasceu no Recife. O poeta foi também diplomata, o que proporcionou que ele morasse em cidades como Dacar, Barcelona, Berna, Londres, Sevilha e outras.

Vida e Morte Severina é sua maior obra, de caráter regionalista e reunindo diversos poemas sobre Severino, personagem que cruza o sertão em busca de uma vida melhor no litoral. João Cabral de Melo Neto faleceu em 1999, no Rio de Janeiro.

Graciliano Ramos (1892 — 1953) 

Autor da segunda fase do modernismo, Graciliano Ramos tem em Vidas Secas sua maior obra, inclusive sendo utilizada em alguns vestibulares nos últimos anos. Angústia é atualmente obra obrigatória de vestibulares como a Fuvest, Unaerp e Cásper Líbero.

O alagoano abordou como temática principal de suas obras o comportamento humano, suas atitudes e reações ao que acontece no cotidiano. Em Vidas Secas, é relatada a vida de uma família de retirantes nordestinos que buscam melhores condições de vida em meio a necessidade de sobreviver atravessando o sertão.

Manuel Bandeira (1886 — 1968)

Nascido no Recife, capital pernambucana, Manuel Bandeira foi poeta modernista e participou da Semana de Arte Moderna de 1922 com o poema Os Sapos, crítica ao parnasianismo e suas rimas e métricas.

Trecho de “Os Sapos”

O meu verso é bom

Frumento sem joio.

Faço rimas com

Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos

Que lhes dei a norma:

Reduzi sem danos

A fôrmas a forma.

Clame a saparia

Em críticas céticas:

Não há mais poesia,

Mas há artes poéticas…”

Estrela da vida inteira, sua coletânea de poemas, traz um pouco de seus temas principais: amor, solidão, paixão pela vida, cotidiano e morte. Manuel faleceu em 1968, após ser, além de escritor, professor de literatura, crítico de arte e literário e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL).

João Ubaldo Ribeiro (1941 — 2014)

Jornalista, professor e com formação em Direito, João Ubaldo Ribeiro falou do Brasil e suas brasilidades em crônicas e romances. Sua principal obra, “Viva o povo brasileiro”, foi traduzida para diversos idiomas.

Além de “Viva o povo brasileiro”, também escreveu obras importantes e adaptadas para cinema e televisão como “Sargento Getúlio” e “A casa dos budas ditosos”. Faleceu em 2014, após 73 anos de vida.

Rachel de Queiroz (1910 — 2003)

Primeira brasileira a entrar para a Academia Brasileira de Letras (ABL), a cearense foi também jornalista, teatróloga e tradutora. Sua principal obra, “O Quinze”, foi escrita quando tinha apenas 20 anos, o que a lançou na literatura brasileira como um grande expoente.

A obra, considerada regionalista, retrata a seca de 1915, que assolou o nordeste, e mostra a luta entre o homem e a terra ao longo da história. Ao todo, Rachel escreveu mais de 20 produções.

Ariano Suassuna (1927 — 2014)

“Não sei, só sei que foi assim” é apenas uma das célebres frases de O Auto da Compadecida, obra-prima de Ariano Suassuna. O paraibano foi um expoente da região, por descrever com maestria o folclore nordestino em suas obras.

Ariano foi criador do movimento Armorial, que buscava criar arte erudita a partir das raízes populares como cordel, festas populares e outros elementos. Foi Secretário de Cultura de Pernambuco, além de Assessor Especial do Estado, em 2007, sete anos antes de seu falecimento.

Aluísio de Azevedo (1857 — 1913)

Nascido em São Luís em 1857, Aluísio de Azevedo foi também jornalista, caricaturista e diplomata. Autor de obras como O Cortiço e Casa de Pensão, livros que atualmente são cobrados em alguns vestibulares brasileiros como UEL, UFPR e UniRV.

O Mulato, outra obra do autor, foi a responsável por iniciar o Naturalismo, movimento do qual fez parte. Em seu período como diplomata, trabalhou em países como Japão, Itália, Uruguai, Inglaterra e Argentina, onde faleceu em 1913.

José Lins do Rego (1901 — 1957)

Autor de Menino de Engenho, José Lins do Rego participou do Movimento Regionalista do Nordeste. Escreveu mais de 20 obras, dentre elas, Riacho Doce, que foi adaptada para minissérie tempos depois.

Sinopse de Menino de Engenho

O romance de estreia de José Lins do Rego apresenta fortes traços autobiográficos. A obra relata a vida no Engenho Santa Rosa, com suas desigualdades e a permanência de traços da escravidão. Com uns quatro anos de idade, Carlinhos vê sua mãe estendida no chão, e “o pai caído em cima dela como um louco”. Órfão de mãe e separado do pai, que será internado num hospício, o menino é conduzido ao engenho do avô. O engenho Santa Rosa, situado na zona canavieira à margem do Paraíba, é uma espécie de mundo novo que contrasta com a cidade. Lá, a vida, as amizades da infância, o contato direto com a natureza, a precoce iniciação sexual, a convivência com personagens que moram e trabalham na casa-grande e na antiga senzala, tudo isso é evocado por um narrador que conheceu profundamente um pedaço de um Brasil arcaico, cuja herança escravocrata ainda é latente. O lirismo é uma das principais características de Menino de Engenho, que abrange a infância e a adolescência de Carlinhos, personagem central do livro.

Amigo de Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz, o autor também trabalhou em jornais como O Globo e Jornal dos Esportes. Amante do tema, atuou também em instituições como Confederação Brasileira de Desportos, Atual CBF e no Flamengo.

Gregório de Matos (1636 — 1695)

Com marcante apelido de “Boca do Inferno”, o soteropolitano Gregório de Matos é o mais velho da lista. Filho de mãe brasileira e pai português, foi criado na aristocracia baiana e escrevia sobre religião e amor em poemas satíricos que lhe renderam a alcunha citada acima.

Inconstância dos Bens do Mundo

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,

Depois da Luz se segue a noite escura,

Em tristes sombras morre a formosura,

Em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia?

Se é tão formosa a Luz, por que não dura?

Como a beleza assim se transfigura?

Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza,

Na formosura não se dê constância,

E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,

E tem qualquer dos bens por natureza

A firmeza somente na inconstância. 

Poemas Escolhidos, coletânea de suas obras do estilo Barroco, foi publicado em 1970, reunindo seis volumes, veiculados na década de 20 e início de 30. Atualmente é uma das obras obrigatórias da Fuvest e da UEL.

Novos autores nordestinos

Além de citar autores históricos da região, também vamos destacar cinco — de muitos — escritores contemporâneos e que estão conquistando destaque com suas obras. Veja abaixo.

Itamar Vieira Junior

Autor de Torto Arado, atual vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Romance Literário, o baiano é formado em Geografia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutor em estudos étnicos e africanos pela mesma instituição.

Cida Pedrosa

Atual vencedora do livro do ano no Prêmio Jabuti com Solo para Vialejo, Cida Pedrosa é pernambucana e vereadora no Recife. O livro remete à “tradição da poesia oral e performática”, elemento comum em cordéis, por exemplo.

Adelaide Ivánova

Poeta, fotógrafa, jornalista e tradutora, Adelaide é pernambucana e tem em O Martelo, sua principal obra, vencedora do Prêmio Rio de Literatura de 2018. Em 2019 lançou Polaroides e 13 Nudes, que tem suas raízes em publicações no Facebook.

Trecho do poema “para laura”:

sábado passado em são paulo

a polícia matou laura

não sem antes

torturá-la laura

foi filmada ainda viva

por outro sujeito

que em vez de ajudá-la

postou no youtube o vídeo

d’uma laura desorientada

e quem não estaria

tendo sangue na boca e na parte

de trás do vestido

Hugo Canuto

Quadrinista, Hugo Canuto é autor de Contos dos Orixás, história que aborda divindades afro-brasileiras do Candomblé e Umbanda. A obra aparece em Space Jam: Um Novo Legado, protagonizado pelo jogador de basquete LeBron James.

Bell Puã

Poeta, Bell Puã foi finalista do Prêmio Jabuti com o livro Lutar é Crime, de 2019. A artista tem mestrado em História pela Universidade Federal do Pernambuco (UFPE), foi a primeira vencedora do Slam das Minas de Pernambuco e lançou carreira musical com Dale, de autoria própria.

Comente mais autores nordestinos!

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