Um dos assuntos mais presentes nos jornais é a crise hídrica que o Brasil está passando. E um dos efeitos é o aumento do preço da energia elétrica. Soma-se a isso, o fato de que nossas reservas estão com níveis baixos, o que pode resultar em racionamentos constantes de água e energia.

O tema é importante justamente porque afeta diretamente o cotidiano dos brasileiros, comprometendo a qualidade de vida de milhões de pessoas. Para tratar sobre o tema, falamos com Priscila Lima, professora de geografia e atualidades do Estratégia Vestibulares.

Como se configura essa crise hídrica

A pior crise hídrica dos últimos 91 anos — data em que começou o monitoramento das bacias hidrográficas no Brasil — se dá pela escassez de chuvas, reservatórios em níveis baixos e maior demanda de energia. Dentre as principais causas estão o uso incorreto do solo, principalmente na região centro-oeste, berço de algumas bacias hidrográficas do país.

A ausência de vegetação nativa em biomas como o cerrado, faz com que haja redução na vazão dos rios. Aliado a isso, o mesmo solo vem sendo usado para a agropecuária, que é responsável por mais de 70% do consumo de água do Brasil.

O desmatamento na Amazônia também é um fator que deve ser considerado. A floresta perde a capacidade de manutenção da umidade atmosférica, o que interrompe o ciclo de chuvas em regiões que são beneficiadas pelas correntes de ar que saem da região, os chamados “rios voadores”. É o caso das regiões sul, sudeste e centro-oeste.

Priscila explica de forma direta como esse último fator atua na crise hídrica. “Com o desmatamento, a evapotranspiração é reduzida, menos vapor d’água significa menor condensação, consequentemente, o índice pluviométrico é comprometido”. 

La Niña e El Niño de leste e central

O outro fator que explica a falta de chuvas e, consequentemente, um agravamento da situação hídrica do país são os eventos climáticos La Niña e El Niño, que ocorrem nas águas do Pacífico, mas tem interferência direta no território brasileiro.

São dois El Niño existentes: o de leste, que ocorre próximo à costa do continente — próximo do Peru, Equador e Colômbia — e aumenta o volume de chuvas da porção sul do país e o central, que ocorre no meio do pacífico, e diminui a precipitação no Brasil.

Já o La Niña é, segundo definição passada pela professora Priscila Lima, na aula de crise energética, “resfriamento anormal das águas superficiais e equatoriais do Oceano Pacífico, na Costa Americana”.

Segundo Priscila, em 2019 e 2020 o evento que ocorreu foi o El Niño central, já em 2021 tivemos um ano de La Niña. Com isso, somam-se três anos seguidos com redução do volume de chuvas no sul do país.

Como o desperdício de água afeta a crise hídrica

Segundo o Instituto Trata Brasil, as perdas na distribuição de água do Brasil estão em 39,2%, o que são 7,5 mil piscinas olímpicas cheias de água tratada desperdiçadas diariamente. O número representa sete vezes o volume do Sistema Cantareira, que é o maior conjunto de reservatórios para abastecimento do estado de São Paulo.

A quantidade citada teria a capacidade de abastecer mais de 63 milhões de brasileiros em um ano. Os dados, que são públicos e foram extraídos do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), têm como ano base 2019 e o levantamento foi publicado em 2021.

Maneiras de amenizar a crise hídrica

Dentre as ações listadas no combate à crise, é discutida a construção de infraestrutura hídrica, que consiste em barragens, reservatórios, obras de interligação dos tanques com centros de consumo e depósitos com capacidade de armazenamento de água.

O assunto é debatido nas comissões de Desenvolvimento Sustentável e Desenvolvimento Urbano e de Meio Ambiente, ambas da Câmara Federal. Existem também projetos que visam tratamento de esgoto, armazenamento de água de reuso e outras alternativas paliativas.

Um exemplo é o projeto de lei 17.394 do estado de São Paulo, que prevê a instalação de reservatórios ou cisternas para captação da água de chuva em projetos arquitetônicos para edificação ou reforma de prédios de órgãos públicos estaduais.

O Brasil tem 12% de toda a água doce do mundo, enquanto muitos países sofrem com o abastecimento de água para a sua população de forma crítica. Veja algumas soluções mundo afora que podem ser melhor desenvolvidas por aqui.

Reuso da água

Na Austrália, mais da metade de seu território é desértico, mas apenas 10% de sua população vive nessas terras. Com períodos de seca rigorosos, o país investiu em tratamento e reuso da água, além de reparar sua infraestrutura para evitar vazamentos e desperdícios.

Selo de eficiência hídrica

Com a maior população do mundo, a China desenvolveu um selo de eficiência hídrica, que funciona de forma parecida com o selo de eficiência energética existente no Brasil, com o objetivo de categorizar os equipamentos que melhor poupam o recurso.

Dessalinização de água salgada

Países como Israel, Japão, Curaçao e Aruba dessalinizam água do mar para deixá-la potável. O processo antigamente era caro, mas a modernização dos componentes e das técnicas faz com que isso se torne cada vez mais viável. Em Fernando de Noronha, por exemplo, mais de 30% da água utilizada na ilha é dessalinizada.

Tratamento de esgoto

O tratamento de esgoto é um método usado no Brasil, mas que ainda tem margem para expansão. Segundo dados do Instituto Trata Brasil, somente 23 municípios nas 100 maiores cidades do país tratam mais de 80% do esgoto gerado por sua população. Quase 100 milhões de brasileiros não têm acesso à coleta de esgoto em suas casas.

E a gestão pública?

Pedro Luiz Côrtes é professor da Escola de Comunicações e Artes e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental no Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da Universidade de São Paulo (USP). Em entrevista para o jornal da USP, o pesquisador comentou que já há um racionamento em curso na cidade de São Paulo.

“Sistematicamente, a Sabesp está reduzindo a pressão de água durante algumas horas do dia, em diversos bairros, divulgando a relação dos afetados no site”, afirma Pedro.

Os dados e projeções do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), apontam que o Sistema Cantareira estará com capacidade próxima a 20% até o final do ano. “Para a gente ter ideia, hoje nós temos 20% menos água do que o mesmo período em 2013, ano que antecedeu a crise”, completa.

Priscila atribui parte da crise ao poder público, que tem conhecimento sobre o assunto, mas pouco agiu sobre o assunto. “Sim, existe responsabilidade por parte deles, pois certamente diversos pesquisadores alertaram sobre a crise hídrica, ou seja, precisaria ter colocado em prática um plano de ação para, ao menos, amenizar as consequências”.

Como o tema pode cair nos vestibulares de 2022?

Com o assunto em alta, é muito provável que vejamos algumas questões sobre crise hídrica pipocando nos vestibulares. Priscila apontou alguns caminhos possíveis na Geografia. “Com uma abordagem da Geografia Física, apontando como o desmatamento e a queimada contribuem com a desregulação do padrão de chuva, impactando a agropecuária, o consumo hídrico e energético”. 

“Com abordagem da Geografia Humana, demonstrando o quanto o aumento do preço da energia elétrica prejudica a saúde financeira dos brasileiros. É fundamental ter em mente as causas e as consequências de uma crise hídrica”, finaliza.

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