“Mais importante do que tentar organizar a Arte Contemporânea em artistas e técnicas, é entender o mundo em que você vive e as coisas como elas se apresentam, para entender o que aquilo está representando”.

Assim contextualiza Celina Gil, professora de artes do Estratégia Vestibulares, sobre a arte contemporânea. O movimento, que não tem uma data exata de origem, pode ser caracterizado como pós-segunda guerra mundial, período em que a hegemonia cultural e econômica passa a ser estadunidense, e perdura até os dias atuais.

“É muito difícil organizar algo que ainda está acontecendo. A gente olha do presente para o passado (movimentos anteriores, como o renascentismo) e entendemos muito bem. Mas na época elas não eram dadas, elas só aconteciam. É mais importante você ter um olhar geral sobre o mundo para entender a arte do que qualquer outra coisa”.

Como estamos vivendo no período da arte contemporânea, as interpretações são muitas. Ao somarmos com o número de ideias expostas e disponíveis ao nosso redor, a compreensão sobre a arte e seus impactos pode atordoar. Mas vamos lá!

Para entender um pouco mais sobre o tema e como ela pode cair nos vestibulares, além, claro, das interpretações possíveis, suas tendências e ideias, preparamos esse artigo. Confira abaixo.

O que é arte contemporânea?

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A Carroça, de Xavier Veilhan, exposta no Palácio de Versalhes, em 2009 — Imagem de Dorothée QUENNESSON por Pixabay

O contexto histórico é o que dita a resposta da pergunta. Vivemos em um processo de globalização e massificação da cultura, além do desenvolvimento de tecnologias cada vez mais imersivas e atuantes no cotidiano das pessoas em assuntos como lazer e consumo. E isso veio no pós-guerra.

A necessidade de reconstrução da sociedade ocidental fez com que os costumes fossem também questionados. A produção em massa é um ingrediente que foi utilizado pelos artistas da época na experimentação de técnicas diferentes e contemporâneas.

Tem também a intenção de questionar o estilo de vida notado em frentes como literatura, moda, mídia, cinema e outros, além de romper com o elitismo da arte existente até então. Surgem, nesse contexto, artistas e figuras que rompem padrões e agregam com ideias e ressignificações que poderiam ser rejeitadas em outros tempos.

“A arte contemporânea tende a demonstrar algumas coisas sobre o nosso cotidiano: nos deu a possibilidade de notar que a arte não precisa ser aquela coisa super elevada, que não precisa de uma grande técnica. Ela precisa de um conceito, uma mensagem”, afirma Celina sobre o movimento. “Ajuda a gente a dessacralizar a arte”, explica.

Quais são suas principais características?

Dentro das várias vertentes da arte contemporânea, algumas características podem ser vistas com frequência. Observe:

  • Interatividade da obra com o público ou espectador;
  • Ressignificação de padrões e estilos artísticos;
  • União da arte com a cultura de massa, popular;
  • Efemeridade e questionamento sobre definições do que é arte;
  • Uso de novas mídias, tecnologias e materiais;
  • Exploração do espaço em exposições,
  • Liberdade artística e quebra de paradigmas.

Celina destaca alguns desses pontos: “principalmente em arte contemporânea, a gente não fala sobre uma técnica específica, porque é muito comum ver a ressignificação de alguns usos, a apropriação do cotidiano para transformar em obra de arte e muitas coisas imersivas e com grandes dimensões. Hoje, as obras de arte tendem a ser interativas.”

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Colagem por Lucas Zanetti

Veja os principais estilos de arte contemporânea

Abaixo, citamos alguns dos principais estilos que usam características notadas na arte contemporânea:

Pop Art

Inspiração em quadrinhos, cultura de massa e com alta reprodutibilidade, o Pop Art é um dos estilos mais renomados quando o assunto é arte contemporânea. Uma das ideias era criticar a sociedade de consumo, o american way of life (estilo de vida americano). 

Conceitualismo

Usando fontes como o dadaísmo e surrealismo, o conceitualismo tem como seu “pai”, Marcel Duchamp, que prega que a ideia é primordial ao fazer artístico. Ou seja, o artista seria quem pensa a obra, e não necessariamente quem a produz. 

Arte Povera

De berço italiano durante os anos 60, Arte Povera significa “arte pobre”. Surge como uma crítica à comercialização da arte, em uma vertente muito próxima ao Pop Art. Prestigia a brevidade, espontaneidade e originalidade como valores artísticos. Vale observar que há obras sem título.

Performance e Happenings

A relação com o teatro é estreita nos dois casos, mas o que diferencia um e outro é a participação do público: se a Performance nem sempre terá esse componente, em Happenings isso se faz necessário, trazendo a imprevisibilidade como característica.

Ambos os movimentos surgiram na década de 60 e tem como questionamento a ruptura de pontos como nudez e o que é ou não arte, misturando elementos do teatro, música e artes visuais, por exemplo.

Body Art

“O corpo, mais do que ser agente da obra, também parte dela”, como define Celina Gil, professora de artes do Estratégia Vestibulares. O Body Art tem como característica usar o corpo como tela e como meio para a realização da arte. Maquiagens, tatuagens e até mesmo queimaduras, podem ser vistas como representação do movimento.

Land Art

Obras de Land Art são intervenções artísticas feitas em alguma paisagem, ou seja, em meio à natureza. Busca conscientizar sobre os hábitos dos humanos em relação ao meio ambiente, com tom por vezes provocador e reflexivo.

Novo realismo

Francês, o “Nouveau Réalisme” foi criado nos anos 60 e tem Yves Klein, Raymond Hains e Jean Tinguely como principais nomes. Busca novas formas de aprender e compreender o que é real, rompendo com o que era considerado arte até então, usando elementos próximos ao Pop Art como a crítica ao consumismo e publicidade.

Minimalismo

Cortes geométricos simples, cores limitadas e simetria são algumas características do Minimalismo. São três tendências principais: modernismo, construtivismo e vanguarda russa. Faz uso de estruturas bi ou tridimensionais em suas obras.

Videoarte

Obras que utilizam imagens fotográficas e fílmicas são parte da Videoarte, que existe desde a década de 60. Busca colocar o espectador sob uma nova forma de olhar e romper as relações entre espaço, tempo, campo de visão e luz.

Como a arte contemporânea usa a tecnologia?

Cada vez mais presente e atuante em nossas vidas, a tecnologia é vista e notada em exposições e técnicas distintas na arte contemporânea. A própria videoarte, citada acima, é um exemplo de uso de novos materiais tecnológicos para compor uma obra.

Celina comenta sobre o assunto: “A tecnologia é muito presente na nossa vida, não temos como escapar dela, então os artistas contemporâneos pensam em como se apropriar disso para fazer arte”.

“Temos uma visão de que a tecnologia vai acabar com a nossa vida, o que não é verdade. A questão é que colocamos muita expectativa e quando ela não resolveu todos os nossos problemas passamos a achar que ela é do mal”, pontua Celina.

Fato é que a tecnologia se tornou uma aliada em vários pontos como a divulgação de artistas e obras, além de compor exposições, como acontece no museu da língua portuguesa, em São Paulo.

Parte interna do Museu da Língua Portuguesa — Foto: Governo do Estado de São Paulo

O isolamento e quarentena de  2020 e 2021 também fizeram com que o mundo da arte se adaptasse: “usamos a tecnologia para a arte, principalmente depois da pandemia. Ela foi uma aliada para o meio artístico, desde as lives de shows e até nos museus que abriram seus acervos para visitações online”.

Arte como transgressão política

Um outro ponto que é muito debatido quando falamos sobre artistas contemporâneos é sobre como eles usam suas obras como forma de protesto. Celina Gil conta que a arte sempre fez isso com o status quo do tempo em que se insere:

“A arte sempre usou a sua produção para fazer algum tipo de transgressão política. Desde os temas que eram abordados, que poderiam de algum modo ser críticos, até o fato de estar fazendo arte daquela maneira ser considerada algum tipo de quebra de paradigma. Normalmente as artes são censuradas quando estão invadindo algum aspecto da moral estabelecida”.

A Pop Art, por exemplo, é uma arte que surge como protesto contra o consumismo da época, já o grafite, criado na década de 70, tem como objetivo aproveitar diversos espaços públicos para desenvolver críticas sociais diversas, além de desenvolver obras de arte para quem não tinha acesso a museus e galerias.

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Mural do artista brasileiro Kobra, no Rio de Janeiro — Imagem de NakNakNak por Pixabay

Como a arte contemporânea pode cair no vestibular?

O assunto pode ser visto de forma interdisciplinar nas matérias de humanidades, como história, A arte pode ser vista de forma interdisciplinar nas matérias de humanidades, como história, sociologia e filosofia. As questões podem ser relacionadas ao contexto histórico e nos significados que as obras assumem ou até mesmo ao lugar em que elas foram colocadas. “Eu gostaria muito de ver uma questão de geografia sobre Land Art no Enem, acho que seria incrível”, coloca Celina.

Mas a arte contemporânea pode ser vista também nas exatas: “A arte brasileira concreta e neoconcreta é pode ser uma arte cinética, então frequentemente ela pode ser relacionada à física, química ou até na matemática. Nas exatas o assunto pode ser uma base para a discussão dos cálculos”, conclui.

Veja algumas questões que são relacionadas com a arte contemporânea

Enem 2020

KOSUTH, J. One and Three Chairs. Museu Reina Sofia, Espanha, 1965.

Disponível em: www.museoreinasofia.es. Acesso em: 4 jun. 2018 (adaptado).

A obra de Joseph Kosuth data de 1965 e se constitui por uma fotografia de cadeira, uma cadeira exposta e um quadro com o verbete “Cadeira”. Trata-se de um exemplo de arte conceitual que revela o paradoxo entre verdade e imitação, já que a arte:

  1. não é a realidade, mas uma representação dela.
  2. fundamenta-se na repetição, construindo variações.
  3. não se define, pois depende da interpretação do fruidor.
  4. resiste ao tempo, beneficiada por múltiplas formas de registro.
  5. redesenha a verdade, aproximando-se das definições lexicais.

A alternativa A está correta, pois essa obra propõe uma reflexão sobre o estatuto ontológico da arte. Ao apontar “três cadeiras” – uma imagem, um objeto e uma definição de dicionário – o artista indica que não é possível representar uma ideia (“o que é uma cadeira”) de uma única maneira. Assim, a noção de verdade é posta em cheque.

A alternativa B está incorreta, pois a arte não é feita fundamentalmente de repetições. Há diferentes realizações possíveis para a arte, inclusive contando com mais inovação do que repetição.

A alternativa C está incorreta, pois ainda que seja possível entender uma obra a partir de muitos olhares, não se pode dizer que tudo pode ser interpretado de múltiplas maneiras.

A alternativa D está incorreta, pois ainda que o registro seja responsável por resistir ao tempo, isso não se relaciona com o estatuto de verdade da arte. A alternativa E está incorreta, pois a verdade não é redesenhada ou redefinida. Ela pode ser múltipla.

Enem 2019

Fala-se aqui de uma arte criada nas ruas e para as ruas, marcadas antes de tudo pela vida cotidiana, seus conflitos e suas possibilidades, que poderiam envolver técnicas, agentes e temas que não fossem encontrados nas instituições mais tradicionais e formais.

VALVERDE, R. R. H. F. Os limites da inversão: a heterotopia do Beco do Batman. Boletim Goiano de Geografia (Online). Goiânia, v. 37, n. 2, maio/ago. 2017 (adaptado).

A manifestação artística expressa na imagem e apresentada no texto integra um movimento contemporâneo de:

  1. regulação das relações sociais.
  2. apropriação dos espaços públicos.
  3. padronização das culturas urbanas.
  4. valorização dos formalismos estéticos.
  5. revitalização dos patrimônios históricos.

O grafite é o nome dado às expressões artísticas verificadas em locais públicos, como, muros, paredes e o chão. Trata-se de uma forma de manifestação que se apropria dos espaços urbanos e que não raro se dedica à crítica a padrões estéticos ou a controvérsias envolvendo aspectos políticos, econômicos e sociais do meio ao qual se encontram. 

Assim sendo, temas como a violência, a pobreza e o apagamento são questões que perpassam pelos desenhos traçados em diversos pontos da cidade. Feitas essas considerações, a alternativa B é a resposta

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